"Bitcoin a US$ 50 mil é só o começo", diz CEO da maior gestora brasileira de criptomoedas

Em entrevista ao NeoFeed, Marcelo Sampaio, fundador da gestora de criptomoedas Hashdex, que tem R$ 1,5  bilhão de ativos sob gestão, faz uma análise sobre o interesse das empresas em bitcoin e o potencial deste mercado para os investidores

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Marcelo Sampaio, CEO e um dos fundadores da Hashdex

Ainda no fim de 2020, o guru do Vale do Silício Scott Galloway previu que o bitcoin atingiria o patamar de US$ 50 mil. Quando fez tal afirmação, a criptomoeda havia registrado uma alta de 276%, fechando o ano acima dos US$ 27 mil. Doze meses antes, era cotada a pouco mais de US$ 7 mil.

A previsão de Galloway se concretizou com uma rapidez impressionante. Nesta semana, o bitcoin superou a marca de US$ 50 mil, após uma série de altas motivadas tanto por tuítes misteriosos do bilionário Elon Musk quanto pelo anúncio de que sua empresa, a Tesla, havia comprado US$ 1,5 bilhão em bitcoin e aceitaria a criptomoeda como forma de pagamento no futuro.

A Tesla não foi a única empresa a apostar na moeda virtual. MicroStrategy, PayPal, Mastercard e Square, do cofundador e CEO do Twitter Jack Dorsey, também estão olhando com maior atenção para as moedas virtuais. E, de acordo com Marcelo Sampaio, fundador da gestora de recursos Hashdex, especializada em criptoativos, isso é só o começo.

“Vamos ver cada vez mais empresas fazendo isso”, diz o empreendedor carioca em entrevista ao NeoFeed. “Quantos players institucionais realmente colocaram dinheiro nisso? Poucos. Ainda há muito para avançar”, afirma.

Sampaio fundou a Hashdex em 2018, quando as conversas sobre criptoativos eram vistas com ainda mais desconfiança do que hoje. A insistência, no entanto, deu certo. Em novembro de 2020, a gestora tinha 11 mil cotistas em seus quatro fundos. Agora são 40 mil. O valor dos ativos sob sua gestão também saltou de R$ 45 milhões, em 2019, para os atuais R$ 1,5 bilhão.

A gestora também elaborou o Nasdaq Crypto Index, índice de criptoativos adotado pela Nasdaq que serve de base para o primeiro ETF (Exchange Traded Fund, fundos que replicam índices e são negociados em bolsa, como se fossem ações), que será oferecido inicialmente na bolsa de valores de Bermudas.

O índice faz parte da estratégia de mostrar que o bitcoin, embora seja o mais conhecido dos ativos virtuais, ele está longe de ser o mais importante e promissor. “O bitcoin começou tudo isso. Mas é como o e-mail, que ajudou a popularizar a internet. Hoje não faz o menor sentido definir a web pelo e-mail”, diz Sampaio.

Ao longo da conversa, ele mostra otimismo ao afirmar a superioridade técnica e o potencial ilimitado que a tecnologia oferece para aplicação em diversas áreas. E defende que todo investidor deveria ter criptoativos em seu portfólio. “É difícil dizer como as coisas vão acontecer, mas se olharmos para o longo prazo o case é muito bom”, afirma. Acompanhe a entrevista:

O que essa marca histórica representa para o bitcoin e os criptoativos?
Acho que essa marca de US$ 50 mil é muito mais psicológica. Com ela, vemos muitas notícias, muitos comentários, muito marketing. Isso é bom, porque as pessoas se interessam mais. Mas me parece que o bitcoin a US$ 50 mil é só o começo. Com a marca de US$ 50 mil, o valor de mercado de bitcoin se aproxima de US$ 1 trilhão. O que, na minha opinião, é muito pequeno. O bitcoin vem se estabelecendo como uma reserva de valor possível. Quando você olha outras reservas de valor que temos na humanidade, como ouro, mas também obras de arte e as próprias moedas, US$ 1 trilhão é muito pequeno. Ainda mais para algo que é tecnicamente muito superior a outras reservas de valor. E isso não é opinião. Comparando aspectos técnicos, como distributividade, transferibilidade e escassez, o bitcoin acaba sendo uma opção muito superior ao ouro.

“Com a marca de US$ 50 mil, o valor de mercado de bitcoin se aproxima de US$ 1 trilhão. O que, na minha opinião, é muito pequeno”

A valorização foi muito expressiva nas últimas semanas. Quanto a compra de bitcoin pela Tesla, por exemplo, influenciou nesse valor?
O ano de 2020 foi o momento em que o mundo institucional começou a descobrir cripto. E o bitcoin, sem dúvida, capturou mais atenção. E quem está há bastante tempo nesse mercado sabia que era uma questão de tempo. Antes mesmo da Covid-19, alguns nomes grandes começaram a se interessar pelo setor. O incentivo de Paul Tudor Jones foi um divisor de águas. Você tem um investidor icônico do capitalismo americano, um dos caras que mais acertou nos últimos anos, sinalizando que todo mundo deveria investir em bitcoin. E isso vai escalando para coisas como a Tesla comprando bitcoin. Vamos ver cada vez mais empresas fazendo isso.

O patamar de US$ 50 mil é sustentável?
É muito difícil prever quando e como as coisas acontecem. Seria muito fácil falar que esse negócio vai subir loucamente, mas a verdade é que pode cair, como já aconteceu outras vezes. Quando você olha em longo prazo, no entanto, o case é muito bom. Porque você tem em mãos algo que é tecnicamente muito superior a outras reservas, como o ouro. É como comparar um e-mail com uma carta escrita à mão. O que é mais fácil? Dividir um grama de ouro ou dividir um código? Enviar ouro da Europa aos Estados Unidos ou mandar um código pela internet?

Quais as recomendações para um investidor que entra agora nesse segmento?
Comece pequeno e estude. Se você olhar só para números, mesmo entendendo pouco do fundamento, já justifica ter uma alocação pequena, porque eles sugerem um retorno potencial assimétrico. Mas é preciso estudar. Começar com pouco vai te forçar a entender mais. E tudo pode parecer meio abstrato nesse momento da história, então demora um tempo para ficar confortável.

Quais os riscos envolvidos em investimentos no setor de criptoativos?
Os principais riscos para o investidor de longo prazo são voltados mais à forma do que ao conteúdo. Hoje, eles são associados à segurança, a uma ineficiência tributária e a um risco regulatório. A Hashdex surge como uma resposta a isso. Criamos formas de fazer operações com toda a segurança, dentro da regulação, otimizadas tributariamente. Minha sugestão para evitar riscos é descobrir um gestor regulado e fazer a alocação em cripto com segurança.

“Você tem em mãos algo que é tecnicamente muito superior a outras reservas, como o ouro. É como comparar um e-mail com uma carta escrita à mão. O que é mais fácil?”

Falamos muito em bitcoin, mas existem muitas outras oportunidades no setor de cripto. Quais são?
É importante deixar claro que cripto não é moeda. Pode até ser usado como moeda, mas se parece muito mais commodity do que empresa. Se você sai do mundo do bitcoin, o cripto tem uma utilidade específica. São possibilidades infinitas. O mercado de finanças descentralizadas, por exemplo, não existe sem cripto. Isso nada tem a ver com a ideia de reserva de valor ou moeda em si, mas sim de acabar com os intermediários do mercado financeiro.

Por que se fala tanto em bitcoin e outros criptos são pouco conhecidos?
Acho que tem dois aspectos. Há o desconhecimento mesmo, de falar sobre o que você ouve por aí. E bitcoin foi o primeiro responsável por começar essa história toda. Eu comparo com a história da internet, que começou a se popularizar com o e-mail. Hoje, se você tentar definir a web pelo e-mail não faz o menor sentido.

Grandes investidores, como Warren Buffett, desacreditaram os criptoativos no início. Há uma mudança na percepção do mercado de que eles são uma alternativa válida de investimento?
O que acontece é que as pessoas têm medo do que elas não conhecem. Warren Buffet é genial, é um cara fantástico, mas ele não conhece nada do mundo de disrupção e tecnologia. Nos anos 1990, não investiu em internet. Hoje, é o maior mercado do mundo. Ele acabou investindo depois na Apple, mas porque ela entrou para o rol de coisas que ele entende bem, que é identificar empresas com potencial de crescimento em comparação com os concorrentes. O fato dele ter muito sucesso como investidor acaba dando uma credencial para que ele fale de coisas que não entende tão bem.

“Warren Buffet é genial, é um cara fantástico, mas ele não conhece nada do mundo de disrupção e tecnologia. Nos anos 1990, não investiu em internet. Hoje, é o maior mercado do mundo”

Como vocês desenvolveram o índice de cripto adotado pela Nasdaq?
Nossa visão sempre foi fazer um índice resiliente, e criamos o Hashdex Crypto Index. Queríamos nos concentrar no business de asset management e começamos a conversar com os grandes provedores de índices globais porque identificamos uma oportunidade de agregar muito valor. Falamos muito com a Nasdaq, que avaliou todos os índices de cripto que existiam no mundo, passando pela Bitwise da Califórnia, pela Bloomberg, de Nova York. E brinco que eles fecharam com a empresa de Ipanema. Fizemos um trabalho muito bom. Então co-desenvolvemos com eles esse índice, que era o HDAI (Hashdex Digital Assets Index). E agora vira o Nasdaq Crypto Index.

A criação do ETF (Exchange Traded Fund, fundos que replicam índices e são negociados em bolsa, como se fossem ações), o primeiro do mundo nesse setor, que vai replicar o índice da Nasdaq, foi o passo seguinte nessa trajetória de popularizar os criptoativos?
Entendemos que é a forma mais líquida, com as melhores características, de permitir a todo tipo de investidor, do institucional ao investidor de varejo, ganhar acesso de qualidade ao mundo cripto.

Inicialmente, ele estará disponível apenas na bolsa de valores de Bermudas (BSX)?
A bolsa de Bermudas deu a oportunidade para criarmos o primeiro ETF cripto do mundo. Algo que foi extremamente desafiador dentro da legislação atual. Bermudas para nós é apenas o primeiro passo. E a partir dele vamos poder dar outros passos, chegar a outros lugares, outros países, outras jurisdições.

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