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Com “O Legado de Júpiter”, Netflix busca um herói só seu na guerra do streaming

O lançamento de O Legado de Júpiter marca a estreia das adaptações do selo Millarworld. A estratégia é competir com a Disney, dona da Marvel. Mas não será fácil encarar Homem de Ferro, Capitão América, Thor e companhia

 

Cena da série “O Legado de Júpiter” – Foto: Divulgação/Netflix

Nem Liga da Justiça, nem Vingadores, nem mesmo Falcão ou o Soldado Invernal. A mais nova saga de super-heróis a estrear nas plataformas de streaming é O Legado de Júpiter, uma trama que não foi produzida por nenhuma grande editora, mas que chega à Netflix com uma ambição poderosa: cativar o público fiel às adaptações de quadrinhos.

A história acompanha os atritos entre a União da Justiça, um grupo de heróis já envelhecidos liderados por Utópico (Josh Duhamel), personagem claramente inspirado em Superman, e seus descendentes. O embate é entre diferentes visões sobre como os seres superpoderosos devem se comportar e interferir quando surge um perigo.

Trata-se do primeiro lançamento de uma adaptação da obra do roteirista de HQs Mark Millar, conhecido por sucessos como Kingsman e Kick-Ass, desde que a Netflix comprou o selo Millarworld em 2017.

A companhia foi criada por Millar, em 2004, como uma plataforma para reunir seus quadrinhos autorais após passagens por outras editoras, como DC Comics e Marvel. Desde sua fundação, ele já produziu quase três dezenas de séries diferentes.

Interessada nos títulos de Millar, a Netflix pagou £25 milhões (cerca de R$ 180 milhões) pelos direitos não apenas do que Millar, um autor bastante prolífico, já escreveu, mas também pelo que ele vai lançar pelo selo Millarworld. E já anunciou que O Legado de Júpiter é só o começo: três filmes e uma série animada já estão em produção.

“A Netflix percebeu que não poderia ser apenas uma ponte com a produção de outros estúdios e precisava produzir conteúdo próprio”, diz Samir Naliato, do site Universo Hq. O processo vem acontecendo há algum tempo, mas foi acelerado com a concorrência de outros serviços de streaming. “Eles encontraram em Millar um celeiro de ideias e projetos. Sua produção é muito variada: tem crime, ficção científica, super-heróis”, diz.

A estratégia da Netflix é competir pela atenção do público que se interessa pelos filmes de heróis e outras adaptações baseadas em HQ, um mercado bilionário totalmente dominado pela Disney, dona da Marvel.

De acordo com o Statista, franquia Marvel é a mais rentável da história do cinema. Até o final de 2020, os 23 filmes da marca já haviam arrecadado US$ 22,5 bilhões globalmente. Para efeito de comparação, os nove longas-metragens de Star Wars, franquia que também pertence à Disney, arrecadaram US$ 10 bilhões e ocupam a segunda posição nesse ranking.

Os filmes da DC, que incluem histórias do Superman, Liga da Justiça e Mulher-Maravilha, arrecadaram US$ 5 bilhões. E todos os filmes do Batman, somados, chegam a pouco mais de US$ 6 bilhões.

Com esses números, fica claro que a concorrência já não seria fácil. Desde que a Disney lançou seu próprio serviço de streaming, o Disney+, no final de 2019, a disputa ficou ainda mais difícil. A companhia já lançou duas séries da Marvel exclusivas para o seu streaming: WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal. Agora, prepara o terreno para o seriado Loki, previsto para nove de junho.

Quando lançou o serviço, a Disney queria chegar a 90 milhões de assinantes até 2024. Conseguiu atingir a meta em apenas 14 meses. Agora, espera alcançar 240 milhões nos próximos três anos. A pandemia teve um impacto na procura. A própria Netflix superou a marca de 200 milhões de assinantes em 2021. Mas a velocidade com que ganhou novos usuários indica a qualidade de suas produções.

“A Disney tem uma engrenagem de alimentação de popularidade desse conteúdo que ninguém tem”, afirma a crítica de cinema Isabela Boscov. “Ninguém faz isso há tanto tempo quanto eles, nem com a mesma agilidade que eles têm demonstrado na última década.”

Ela cita como exemplo justamente o trabalho feito com a Marvel e com o Star Wars, repaginando franquias antigas para o público contemporâneo. “Há ainda uma curadoria muito forte e um empenho em proteger o material original que falta a outros serviços”, afirma Boscov.

O Amazon Prime, por exemplo, apostou em American Gods, baseado no trabalho de Neil Gaiman, e The Boys, inspirado nos quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson.

A própria Netflix já havia comprado os direitos de outros títulos, como Umbrella Academy, gibi escrito por Gerard Way e ilustrado pelo brasileiro Gabriel Bá. Na última semana, anunciou que vai lançar uma série baseada em Sweet Tooth, de autoria de Jeff Lemire, outro prolífico autor de HQs.

O resultado, no entanto, tem sido irregular em termos de crítica. E, como a Netflix não divulga a audiência de todas as suas produções, fica difícil medir o impacto que essas produções causaram.

A seu favor, a maior das plataformas de streaming tem uma enorme base de assinantes e um papel dominante no mercado. Não à toa, qualquer indicação de filme ou série costuma vir acompanhada da pergunta “tem na Netflix?”. “Ela pode ter uma grande desvantagem em relação a Disney quando o assunto é super-herói”, diz Isabela Boscov. “Mas é a Netflix que todo mundo abre assim que liga a TV ou o computador.”

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