Negócios

De olho na retomada, Banco Original mira nos empreendedores

Em entrevista ao NeoFeed, o presidente do banco, Alexandre Abreu, conta os detalhes do plano para atrair os pequenos empreendedores para a base de clientes, fala das ações iniciadas na crise e de como o open banking vai mudar o setor

 

Alexandre Abreu, presidente do Banco Original

Dias antes da crise causada pelo coronavírus paralisar a economia, o Banco Original se preparava para aumentar o seu foco no segmento que a instituição financeira decidiu abraçar: os pequenos empreendedores. O banco tinha até anunciado que lançaria uma conta de empresa com sócios no mês de março. Mas a Covid-19 frustrou seus planos.

Por ordem do presidente do banco, o executivo Alexandre Abreu, o lançamento teve de ser suspenso. “Como o mercado estava muito confuso no meio da crise, decidimos segurar. Tem um lado bom nisso, a gente vai aprimorando e melhorando”, diz Abreu ao NeoFeed. O lançamento, agora, ficou para junho.

A questão é que, quando lançar, o mercado será muito diferente do projetado anteriormente. A crise deverá matar muitas empresas e deixar muitos empresários endividados. “Acredito que vai ter uma mexida nesse mercado, com certeza. Um dos motivos pelo qual eu segurei agora é para ver como vai ficar.”

E uma alternativa já está sendo desenhada. Para tornar o produto mais atrativo, os executivos do banco, atualmente com 3,4 milhões de clientes, passaram a estudar como poderiam atrair os pequenos empreendedores. Uma das saídas que está em desenvolvimento é oferecer uma infraestrutura de e-commerce para eles.

“Tem uma grande oportunidade aí”, diz Abreu. E prossegue. “Estamos procurando as empresas que ainda não são 100% digitais, mas estão trabalhando vendendo pelo WhatsApp, usando maquininha.” A ideia é, via convênio com empresas parceiras, fazer com que o cliente monte uma loja virtual rapidamente e conte com o suporte financeiro do banco, atualmente com ativos de R$ 12,7 bilhões.

Na entrevista que segue, Abreu fala sobre outros produtos que o banco pretende lançar; a mudança da sede para um prédio de 24 andares na região da avenida Roberto Marinho, em São Paulo, em plena crise; a aposta na tecnologia de olho na chegada do open banking, entre outros assuntos. Acompanhe:

Como você está olhando essa crise e o que ela trouxe de experiência?
Primeiro, acho que tem um problema gigantesco lá fora. É um problema gravíssimo no mundo, no Brasil, muita gente morrendo, dramas humanos de toda a natureza. Nesse primeiro momento, olhamos para funcionários e clientes, os seres humanos que nos cercam. No caso dos funcionários, foi uma experiência muito maluca. Se, há três meses, você me perguntasse se a gente teria condições de trabalhar com o banco praticamente 100% em home office, eu diria que não. Por mais digital que a gente fosse, há processos regulatórios que exigem presença física. E isso tudo foi flexibilizado. Hoje, meus 1,3 mil funcionários estão praticamente em home office. O banco está funcionando bem, algumas coisas até melhores, e estamos criando uma cultura importante. Decidimos que, mesmo depois, vamos voltar com um processo de home office bem pesado. Estamos estimando que 70% dos funcionários vão trabalhar em home office. Mas não todos os dias. Virão duas vezes por semana para a sede e os outros três dias da semana trabalharão em casa.

Bem agora que o banco está mudando de sede, para um prédio muito maior?
Bem maior, um prédio de 24 andares. Está ficando pronto. Iríamos mudar em abril, mas por conta do coronavírus a mudança deve ser feita em maio.

Se a decisão de mudar para um prédio de 24 andares tivesse de ser tomada hoje, você faria essa mudança?
Acho que sim. Tínhamos pessoas que trabalhavam espalhadas em outros prédios, agora vamos juntar todos, teremos um trabalho de marca também. E imagino, por essa questão do coronavírus, que não vamos voltar tão cedo ao que era antes. Então precisarei de espaço. Em andares onde trabalhariam 100 pessoas, não vou poder colocar as 100 pessoas, uma do lado da outra, precisaremos de um espaço maior. Num andar onde caberiam 100 pessoas, teremos entre 30 e 40 pessoas. Durante um bom tempo, isso vai ser necessário. Não vamos voltar a trabalhar fisicamente e todos juntos do jeito que era antes, vai ter de ter um espaço maior. Por conta disso, o tamanho do prédio é necessário.

“Decidimos que, mesmo depois, vamos voltar com um processo de home office bem pesado. Estamos estimando que 70% dos funcionários vão trabalhar em home office”

Por ser uma operação 100% digital, o banco sentiu menos o impacto da crise sob o ponto de vista de processos internos?
A gente sentiu muito menos. Não ter agência bancária já é uma vantagem enorme. É um problema manter em funcionamento uma agência bancária, seja pela questão dos funcionários ou pela questão de gerar aglomeração de clientes. Não tenho esse problema. Cem por cento da minha operação é digital. Muitas empresas que eram mais ou menos digitais estão percebendo isso agora. No meu caso, já era. E isso é uma vantagem enorme. Consigo, na plenitude, atender um cliente sem ter contato físico. Esse foi um problema a menos para eu gerenciar porque já funcionava de forma digital. Com isso, a organização pode se dedicar a outras questões.

O banco vinha ganhando cerca de 300 mil clientes por mês. Mudou esse número?
Baixamos um pouco isso. Mas menos em função da crise. Já vínhamos conquistando entre 150 mil e 200 mil clientes por mês. E, mesmo depois do coronavírus, mantivemos esse patamar.

Por que diminuiu?
Uma acomodação mesmo, uma questão de estratégia. Você vai crescendo e chega num ponto que começa mirar alguns segmentos e não precisar ser aquela quantidade tão grande.

Quais segmentos está mirando?
Estamos, por exemplo, olhando muito forte os empreendedores. Em junho do ano passado, criamos a conta de pessoa jurídica para o microempreendedor individual (MEI). Estamos trabalhando mais forte a questão da portabilidade e ativação das contas também.

O banco ia lançar, em março, uma conta empresa para empreendedores que têm sócio. Por que não lançou?
Na realidade, ela está pronta. Mas tomei algumas medidas de segurar alguns lançamentos. Vamos lançar em junho. Como o mercado estava muito confuso no meio da crise, decidimos segurar. Tem um lado bom nisso, a gente vai aprimorando e melhorando.

Mas você não acha que vai ter um impacto nesse produto a questão de que muitas empresas vão fechar as portas diante da economia paralisada?
É um produto voltado para empresas que faturam até R$ 50 milhões por ano. Acredito que vai ter uma mexida nesse mercado, com certeza. Um dos motivos pelo qual eu segurei agora é para ver como vai ficar. Iniciar um processo no meio de uma turbulência seria uma coisa muito maluca. Tem setores que estão sofrendo mais e outros sofrendo menos.

Diante disso, em quais setores o banco está focando?
Estamos trabalhando muito a questão do e-commerce. Percebemos que muitos comércios e até pessoas físicas começaram a trabalhar vendendo por e-commerce e estamos nos adaptando a isso. Tem uma grande oportunidade aí. Estamos procurando as empresas que ainda não são 100% digitais, mas estão trabalhando vendendo pelo WhatsApp, usando maquininha. Pretendemos oferecer soluções para essas empresas via convênio. O cara tem uma lojinha pequena e rapidamente monta uma loja virtual.

“Pretendemos oferecer soluções para essas empresas via convênio. O cara tem uma lojinha pequena e rapidamente monta uma loja virtual”

E vocês cuidariam de toda a infraestrutura para esse cliente?
Via convênio. Arrumo empresas que façam isso e coloco na mão dele. Ainda não sabemos como será, estamos estruturando e as negociações estão bem adiantadas. Queremos lançar, em junho, junto com a conta sociedade. Para mim, as empresas que conseguirem se revolver bem com o e-commerce têm mais chance de prosperar. Junto com crédito e com assistência bancária, queremos ajudar essas pequenas empresas a se digitalizarem.

De que forma você acha que o banco está posicionado nesta crise e no pós-crise?
A estratégia que estava sendo definida anteriormente se mostra bastante sólida nesse mundo novo. Temos um banco 100% digital, que não precisa cuidar de agências, faz operações com o seu cliente sem a necessidade de ter contato físico. No mundo novo isso é importante. Temos um braço importante que é a participação na PicPay (o banco é controlador da PicPay), que tem uma carteira digital que está se mostrando uma solução para pagamentos também sem a necessidade de contato. Temos o lançamento dessa conta sociedade para empresas de pequeno porte com o e-commerce embutido. E temos também uma estratégia de atendimento às fintechs, na qual fazemos todo o braço de banco para elas. Neste mundo novo, conseguimos manter a mesma estratégia e ela se mostra ainda mais interessante do que já era: um mundo que precisa ser cada vez mais digital. Cada vez mais, ter menos contato físico do cliente com a empresa sem perder o relacionamento da marca com o cliente.

Qual é a participação desse negócio de ser provedor para fintechs no resultado do banco?
Vai representar 15% dos negócios do banco em 2020 e vai subir cada vez mais. Tivemos uma experiência muito importante com a PicPay. Ela é nossa participada, mas também é nossa cliente, com o Banco Original como o braço bancário de uma fintech. Conseguimos deixar nossas APIs bastante eficientes nesse trabalho com a PicPay e esse trabalho tem sido expandido para outras fintechs. Não posso citar nomes, mas fechamos acordos com outras fintechs para fazer liquidação de boletos, liquidação de concessionárias de serviço público, credenciamento junto à Tecban. Temos vários clientes e estamos fazendo até para concorrentes. Importante dizer que não fazemos isso como Banco Original, temos uma empresa de tecnologia que tem uma operação independente da do banco.

Você acha que o processo de open banking vai andar neste ano ou o coronavírus atrapalha esse movimento?
Espero, e minha estratégia está baseada nisso, que continue o cronograma normal. O Banco Central está fazendo agora um grande trabalho para combater os efeitos da crise do coronavírus no sistema financeiro. Mas acho que são linhas de ações diferentes. Uma coisa é dar liquidez para o mercado, criar linhas de crédito. Isso, aliás, está sendo muito bem feito. Outra coisa é o open banking e o pagamento instantâneo, processos que consistem em melhorar a concorrência no sistema. Espero, e acho, que os cronogramas continuarão como estavam previstos.

Qual vai ser o impacto do open banking no mercado?
Será profundo, mas não será imediato. Vai acontecer devagar. Isso vai permitir o fortalecimento das fintechs. Os bancos continuarão sendo relevantes como gerenciadores de risco, mas passarão a sofrer uma concorrência mais forte das fintechs que terão acesso a dados. O mercado ficará mais dinâmico, mais concorrido e com mais participantes.

“Os bancos continuarão sendo relevantes como gerenciadores de risco, mas passarão a sofrer uma concorrência mais forte das fintechs que terão acesso a dados”

Você falou sobre a atuação do BC nessa crise do coronavírus. O sistema tem liquidez?
O sistema está muito sólido, bem preparado e não vejo nenhum problema com nenhum participante.

Vocês têm clientes de varejo, atacado e no agro. Como cada cliente respondeu à crise?
A minha principal preocupação foi o varejo. Temos uma base muito grande de empreendedores. Imediatamente, criamos uma série de ações para essas pessoas não terem problemas de liquidez. Estamos alongando as dívidas de qualquer cliente do banco com 90 dias de carência. Fizemos isso com 50% da carteira e deve chegar entre 70% e 80%. Também fizemos muitos empréstimos novos. Antes, emprestávamos entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões por mês. Em abril, emprestamos mais de R$ 70 milhões. Essa carteira deve aumentar e estamos gerenciando bem isso. Outra coisa que fizemos foi uma ação no auxílio emergencial. Muitas pessoas que estão na nossa base têm direito de receber os R$ 600 ou os R$ 1,2 mil do governo. Se o cliente quiser receber esse dinheiro no Banco Original, ele recebe R$ 60 a mais na primeira parcela. Até agora, 25 mil pessoas já receberam pelo banco e esse número aumenta todos os dias.

Com isso, você ativa contas que estavam inativas, não?
Também acontece isso. Mas também tem clientes que são ativos e a relação ficou fortalecida. Quero que ele veja que o banco é parceiro dele nas horas de crise.

E os clientes de agro e atacado?
No agro, nossos clientes são exportadores, eles recebem em dólar e estão superbem. Com exceção de um ou outro que tem problema, mas que teriam independentemente do coronavírus. No corporate, temos uma carteira pequena se comparada com o mercado, mas não tivemos problema nenhum.

Mas os clientes não buscaram empréstimos quando a crise começou a apertar?
Teve casos de procura. Mas nosso banco é menor, não tem espaço para expansão gigantesca da carteira corporate. Temos procurado facilitar a vida dos clientes e ir alongando as dívidas deles.

Muito se falava que o Original abriria capital neste ano. Como fica isso?
Estudamos as possibilidades, tanto do Banco Original como do PicPay, e decidimos que ainda não é a hora. E decidimos isso antes dessa questão do coronavírus.

Quando você acha que as coisas podem voltar ao normal, ao que era antes do coronavírus?
Não sei e quem falar que sabe estará mentindo. Mas o que é normal? Em dois meses, imagino, vai ter uma retomada da economia. O quanto vai ficar igual a antes? Sinceramente, eu não sei e acho que vai ser diferente.

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