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Do céu ao inferno, pela segunda vez: o empresário de moda Dov Charney na berlinda

Depois de fundar e ser expulso da American Apparel, Dov Charney criou a Los Angeles Apparel, que foi fechada pelo departamento de saúde pública ao constatar que 300 funcionários foram contaminados pelo novo coronavírus e quatro deles morreram 

 

O fio tênue que separa céu e inferno se emaranhou no chão de fábrica da Los Angeles Apparel, onde 300 funcionários testaram positivo para a Covid-19, e quatro foram à óbito. Autoridades investigam descaso da direção da empresa de moda, que tem na liderança o empresário Dov Charney, o homem que fundou e levou à glória a American Apparel, até ser expulso da companhia mediante acusações de abusos sexuais e irresponsabilidade fiscal. 

Antes de “vestir” a faceta de vilão, Charney desfilava no papel de bom-moço. Em março deste ano, quando as medidas de isolamento social entraram em vigor na Califórnia e outras regiões dos Estados Unidos, o país experimentou uma escassez inédita de máscaras faciais – item obrigatório em tempos pandêmicos.

O empresário anunciou, então, que continuaria suas atividades, mas as roupas de street wear sairiam da passarela por tempo indeterminado para que as costureiras se empenhassem nas tão necessitadas máscaras. Como um negócio essencial, o empresário teve a benção do estado para manter as portas abertas – e fez do governo, além de seu “aliado”, seu cliente. 

A empresa afirma que, desde março, produziu mais de 10 milhões de máscaras e que 80% delas foram destinadas a agentes e agências governamentais. Mas a narrativa começou a virar do avesso no dia 19 de junho, quando, de acordo com o jornal The New York Times, uma enfermeira entrou em contato com o Departamento de Saúde Pública de Los Angeles e denunciou um possível foco de contaminação na fábrica, que entre junho e julho contabilizou 300 funcionários contaminados. 

Charney desmente essa versão e diz que sua equipe foi quem buscou as autoridades para tratar o assunto. De qualquer forma, começou ali uma investigação profunda e, em comunicado oficial à imprensa, o departamento de saúde pública local cita violação em flagrante dos protocolos vigentes e falha ao “cooperar com o trabalho e as investigações conduzidas pelos fiscais”. 

A Los Angeles Apparel Factory teve as portas temporariamente fechadas no dia 27 de junho, mas o empresário garante estar trabalhando com os agentes para que possa novamente restabelecer suas atividades e retomar os empregos. 

Pesa contra o canadense Charney seu passado na American Apparel, marca que fundou em 1989 e que gozou de grande sucesso em 2004, quando figurou na lista das 500 empresas privadas de rápido crescimento. Na época, a companhia avançava 525% ao ano e reportava US$ 127,9 milhões de receita.

No ano seguinte, o pesadelo começou. As primeiras denúncias de abuso sexual feitas por funcionárias contra Charney vieram à tona, e sua fama de empresário bem-sucedido foi colocada em xeque em 2009, quando a American Apparel recebeu US$ 80 milhões do fundo Lion Capital para administrar sua crescente dívida. 

Outros escândalos envolvendo a contratação de trabalhadores imigrantes não-regularizados arranharam ainda mais a imagem da empresa e do empresário. Em 2014 Charney foi convidado a se retirar do comando da empresa e, pouco depois, perdeu até a posição de conselheiro da companhia. 

No ano seguinte, a American Apparel deu entrada no pedido de concordata. Charney, por sua vez, iniciou um novo projeto – a Los Angeles Apparel, que nascia em 2016. 

Com o mote “Made in USA”, o empresário esperava promover uma “etiqueta” de moral e ética, mas uma série de reportagens investigativas que vieram à tona em jornais como o Los Angeles Times, mostraram uma outra realidade. A Los Angeles Apparel emprega cerca de 2 mil pessoas em três prédios próximos ao centro da “Cidade dos Anjos”. 

De acordo com o departamento de saúde pública, todos os profissionais estavam expostos ao novo coronavírus porque a empresa não respeitou as medidas de distanciamento social e colocou apenas uma barreira de papelão entre os trabalhadores. Além disso, os oficiais públicos relatam que o material usado para a educação e treinamento da equipe não haviam sido traduzido para o espanhol – a única língua dominada por boa parte dos funcionários. 

Por fim, os agentes encontraram profissionais pouco capacitados para a aplicação dos protocolos de saúde. A pessoa responsável por fiscalizar o cumprimento das regras não soube, por exemplo, listar os sintomas do novo coronavírus – mesmo que esses estivessem escritos numa parede, atrás do funcionário em questão. 

Charney acredita que todas essas informações tenham sido dramatizadas, e que a realidade é completamente diferente. O empresário garante que os trabalhadores contaminados foram, sim, afastados e que as divisórias de papelão foram um cuidado extra, segundo a recomendação de um especialista. O vírus não vive por muito tempo na superfície desse material.

Além disso, Charney lembrou que não é sua responsabilidade traduzir o material informativo, mas do departamento de saúde pública, que é quem assina a peça. À imprensa, o empresário emitiu um comunicado alegando que “é moralmente irresponsável que o Departamento de Saúde fale sobre as taxas de infecção em nossa fábrica sem também abordar sua conexão com o problema em geral”.

O empresário ainda defende que “a comunidade latina de Los Angeles fica vulnerável ao Covid-19 em um sistema de saúde que não oferece suporte para testes e nenhum suporte ou assistência para aqueles que apresentam resultados positivos”.

Essa associação da epidemia à comunidade latina despertou a ira da sociedade. No Twitter, diversos usuários usaram seus perfis para atacar o empresário, que experimenta em seu Instagram movimento parecido. 

Comentários em tons agressivos não foram respondidos, mas Charney engajou com outros que se mostravam mais pacíficos. Um usuário, por exemplo, levantou as acusações de que a Los Angeles Apparel não colaborou com as autoridades, mantendo em segredo a lista de funcionários contaminados, e operando ilegalmente com uma equipe diferente. A essa pessoa, o empresário respondeu – “isso não é verdade”. Agora, caberá às autoridades a apuração dos fatos para dizer quem, de fato, está contando a história verdadeira

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