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Dono da Centauro acelera o passo ao comprar a Nike

O CEO do grupo SBF, controlador da rede Centauro, explica ao NeoFeed por que comprou as operações da famosa marca de materiais esportivos no Brasil. Entenda os reflexos e as movimentações da varejista para conter o avanço de Magazine Luiza e Netshoes

 

A concretização da ameaça à sua liderança no varejo de artigos esportivos e o gosto amargo da derrota. Para muitos, esse era o clima nos corredores da alta cúpula da Centauro e de seu controlador, o grupo SBF, em meados de junho do ano passado.

Depois de quase dois meses, a Centauro acabava de perder a disputa pela Netshoes para o Magazine Luiza, que desembolsou R$ 448 milhões pelo ativo. As tentativas frustradas despertaram questionamentos no mercado sobre qual seria a reação da companhia. E, nesta quinta-feira, essa resposta veio, mesmo que indiretamente, com um anúncio de peso.

O grupo SBF anunciou hoje uma parceria estratégica com a Nike no Brasil. Pelos termos do contrato, a empresa passa a ser a distribuidora exclusiva de produtos e assume a operação de vendas dos canais digitais da marca americana no País, por um período inicial de dez anos.

Com o acordo, o grupo brasileiro será responsável ainda pela gestão das cerca de 40 lojas físicas da Nike no mercado brasileiro. Nesse segmento, a parceria será válida, inicialmente, por cinco anos. E inclui a possibilidade de a empresa inaugurar novos pontos de venda da marca no Brasil.

Em fato relevante, o grupo SBF informou que o valor estimado da transação é de R$ 900 milhões. O montante leva em conta a aquisição de capital de giro – incluindo estoque, entre outros fatores. Segundo o documento, a operação da Nike no País teve receita operacional líquida de cerca de R$ 2 bilhões no exercício fiscal encerrado em 31 de maio de 2019.

Pedro Zemel, CEO do SBF, disse ao NeoFeed que “o grupo passará a atuar como uma holding. Nessa estrutura, Centauro e Nike do Brasil terão unidades completamente separadas”.  E prossegue. “Isso vai garantir que as operações sejam estruturadas, gerenciadas e desenvolvidas de forma independente”, afirma. “Dessa forma, as potenciais sinergias com a Centauro estão atreladas à estrutura apenas do grupo, as quais ainda estão sob avaliação.”

“O grupo passará a atuar como uma holding. Nessa estrutura, Centauro e Nike do Brasil terão unidades completamente separadas”, diz Pedro Zemel, CEO do grupo SBF

Sob a perspectiva dessas sinergias, a resposta do mercado foi positiva. No pregão da B3, as ações da Centauro tiveram alta de 14,7%, cotadas a R$ 49,71. Para analistas consultados pelo NeoFeed, o consenso é de que, mesmo não envolvendo diretamente a empresa, o acordo foi uma ótima reação às dúvidas sobre o poder de fogo da companhia para se fortalecer na competição com a dupla formada por Magazine Luiza e Netshoes.

“A Centauro tinha que apresentar algo, já que, depois do IPO, o mercado esperava uma agenda de aquisições”, diz Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo. “Esse anúncio mostra que não ficou uma ressaca pela perda da Netshoes.”

Alberto Serrentino, sócio e fundador da consultoria Varese, ressalta que a parceria exigirá muita atenção em questões como governança e transparência, para que fique claro que a Centauro não terá privilégios.

O CEO Pedro Zemel (segundo da esq à dir.) no IPO do grupo. Sebastião Bonfim Filho (de óculos, no centro) é o maior acionista e presidente do conselho

Ao mesmo tempo, ele destaca algumas vantagens nas duas pontas do acordo. Para a Nike, elas residem, especialmente, no acesso a uma parceira com maior conhecimento do varejo e da complexa logística do País.

Já no caso da Centauro, a relação próxima de seu controlador com a principal marca esportiva do mundo é um dos atrativos. “É uma porta aberta para um aprendizado grande em termos de inovação, posicionamento, branding e ativação de marca”, diz. “E, de quebra, o grupo incorpora um negócio que traz volume e faturamento consideráveis.”

Zemel. do SBF, reforça essa visão. “Com a Nike, uma marca tão poderosa, o Grupo SBF vê uma oportunidade de continuar justamente comprometido em desenvolver esse ecossistema do esporte brasileiro, servindo ainda mais a comunidade esportiva”, diz.

Em movimento

À parte dessas projeções, a Centauro segue dando velocidade a diversas iniciativas implantadas nos últimos anos. Nessa jornada, a empresa conta com o combustível da abertura de capital realizada em abril do ano passado, quando captou R$ 772,7 milhões.

Anunciado em setembro, um acordo com a B2W é um exemplo dessa aceleração. Na prática, a Centauro inaugurou um espaço exclusivo de artigos esportivos dentro do marketplace da parceira. E passou a responder por todas as compras, pagamentos e entregas de produtos da categoria realizados no canal.

Por sua vez, os consumidores que adquirem esses artigos na plataforma têm acesso a outras recursos ofertados pela Centauro, como as entregas expressas e a possibilidade de retirar os produtos nas lojas da rede.

A Nike faturou R$ 2 bilhões no Brasil no ano passado

A parceria ilustra os movimentos da Centauro para consolidar sua estratégia multicanal. Esses esforços começaram a ganhar fôlego a partir da nomeação de Zemel para o cargo de CEO, no início de 2016.

Ele substituiu o fundador Sebastião Bomfim Filho, que atualmente preside o Conselho de Administração da companhia e cuja atuação recente tem sido marcada pelo engajamento na política. O empresário foi um dos principais apoiadores da candidatura do presidente Jair Bolsonaro.

Bomfim entregou o bastão para Zemel em meio a um dos piores períodos da trajetória da Centauro. Sob os impactos da crise, a empresa viu sua dívida crescer e acumulou prejuízos em 2015 e 2016. Durante esse processo, a companhia arrumou a casa a partir de medidas como o fechamento de lojas e a renegociação dos débitos. E do investimento na operação digital.

“O Pedro soube fazer essa transição, pois trouxe jovialidade, inovação e apetite ao risco, sem perder o know how do varejo”, diz Ana Paula Tozzi, CEO da consultoria AGR. “Ele é o Frederico Trajano da Centauro.”

Desde então, uma das prioridades da Centauro foi desenvolver e implantar um novo modelo para as lojas físicas, com um forte componente tecnológico. Batizado de Geração 5 (G5), o formato inclui recursos como provadores dotados de telas interativas para que os clientes solicitem, com poucos cliques, novas peças e/ou tamanhos.

Essas lojas oferecem serviços como a opção de testar um determinado modelo de tênis em esteiras conectadas a telas que simulam circuitos de corrida. Bem como a possibilidade de concluir a compra com qualquer vendedor, por meio de sistemas de pagamento móvel.

Entre outros elementos, as unidades também contam com tablets pelos quais é possível comprar produtos e solicitar a entrega na casa do consumidor. Além de lockers para a retirada de itens encomendados pelo site da empresa.

As primeiras lojas nesse modelo foram lançadas em 2017. Atualmente, entre conversões e inaugurações, a Centauro já tem 27 unidades desse formato, dentro de um total de 196 pontos de venda.

Essa rede também abriga mais uma ponta da estratégia multicanal. Hoje, todas essas unidades já funcionam como mini-hubs de distribuição para a entrega de produtos comprados pelo canal de e-commerce.

“Nos últimos anos, fizemos uma série de investimentos em diversas frentes e, principalmente, em tecnologia e multicanalidade, o que nos possibilitou avançar expressivamente no nosso setor e nos transformar em uma plataforma do esporte”, afirma Zemel ao NeoFeed.

Como reflexo, a Centauro reportou uma receita de vendas multicanal de R$ 227 milhões nos primeiros nove meses de 2019, alta de 101,7% sobre igual período em 2018.

A rede também contabiliza os frutos dessa estratégia em cada canal, separadamente. No acumulado de janeiro a setembro de 2019, o faturamento das lojas físicas cresceu 7,5%, para R$ 1,39 bilhão. Já a receita digital foi de R$ 297,1 milhões no período, alta de 20,9%. Nesse intervalo, a receita líquida total da Centauro ficou em R$ 1,69 bilhão, um salto de 9,6%.

“Nos últimos anos, fizemos uma série de investimentos em diversas frentes e, principalmente, em tecnologia e multicanalidade”, diz Zemel

O desempenho da varejista foi ressaltado em relatório recente do BB Investimentos. “Reiteramos que a Centauro se destaca de seus pares por sua capacidade de ampliar as vendas, alimentadas pela iniciativa multicanal”, escreveu a analista Georgia Jorge.

Outros indicadores reforçam esse bom momento. De um valor de mercado de R$ 2,58 bilhões na época de seu IPO, a empresa está avaliada hoje em R$ 11 bilhões, segundo a consultoria Economatica. No período, as ações da companhia acumularam uma valorização próxima de 300%.

Competição

Sob esse contexto, a promessa é de um cenário competitivo no varejo de artigos esportivos cada vez mais concentrado na Centauro e no Magazine Luiza, com o reforço da Netshoes.

Nesse campo de batalha, cada uma das empresas têm as suas vantagens e desafios. “A Centauro recuperou o atraso digital e hoje está muito mais agressiva e parelha com a Netshoes”, diz Serrentino. “Mas ainda precisa decidir se investe em modelos como o marketplace.”

Ana Paula, da AGR, cita uma vantagem da Centauro nessa corrida: a oferta mais ampla e, ao mesmo tempo, mais especializada no segmento. “Além dos artigos tradicionais, o mix deles envolve tudo o que complementa a vida de um esportista”, diz. “De suplementos a equipamentos.”

Entre os analistas, há um consenso de que o desafio da varejista é reportar e sustentar um crescimento “mais exponencial” em suas receitas digitais. Já a agenda de integração da Netshoes é o principal ponto a ser trabalhado pelo Magazine Luiza.

“A grande questão não é um contra o outro”, complementa Serrentino. “As duas estão muito bem posicionadas. Mas o restante do mercado fica mais fragilizado.”

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