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Startups

Eduardo Gouveia, o CEO que virou investidor em série

Eduardo Gouveia presidiu a Multiplus, a Alelo, a Livelo e a Cielo. Depois de um período sabático, voltou ao Brasil e já entrou em quatro startups. E mais duas estão para sair do forno

 

Eduardo Gouveia, ex-presidente da Cielo, agora no estilo “startupeiro”

Houve um tempo em que as startups em busca de escala procuravam apenas um tipo de investidor: aquele que tinha muito dinheiro. Mais recentemente, o perfil mudou. Além de dinheiro, é preciso trazer inteligência, o chamado smart money. Nesse quesito, um investidor californiano nada de braçada e está criando um grupo de startups que atuam nas áreas de fidelidade, recursos humanos e pagamentos.

Não espere, entretanto, um americano forjado no Vale do Silício. Eduardo Gouveia, o “californiano” em questão, apenas nasceu lá. Seu sotaque não engana ninguém – ele é pernambucano. E, muito mais do que dinheiro para investir, traz na bagagem o que os empreendedores mais precisam nos dias de hoje: a inteligência de mercado. Gouveia, 55 anos, foi presidente de gigantes como a Multiplus, a Alelo, a Livelo e a Cielo.

Desde junho, quando voltou ao Brasil de um período sabático de nove meses em Londres, Gouveia já entrou como sócio em quatro startups: a de fidelidade Allpoints, a de inteligência de dados Hands Mobile e mais duas de RH, a Pin People e a Allya. “Outras startups no setor de pagamentos devem entrar no portfólio”, diz Gouveia ao NeoFeed. “Mas só quando sair da quarentena para atuar no setor.” E isso acontecerá em dezembro.

Gouveia é sócio da empresa de fidelidade Allpoints, da de inteligência de dados Hands Mobile e de mais duas de RH, a Pin People e a Allya

Ele nem pensa em voltar a comandar grandes empresas. Recebeu três convites para ser presidente de outras organizações, mas não se sentiu seduzido. Divide hoje seu tempo entre reuniões nas empresas investidas e em conselhos de administração de companhias como a de tecnologia CI&T e a seguradora Mapfre. Outros dois postos em conselhos estão na mira e, até o fim do ano, devem ser anunciados.

Indagado sobre a mudança de estilo de vida, ele explica da seguinte forma. “Os conselhos me suprem na vida corporativa, que é onde fiz minha carreira. Nas startups, quero ajudar os jovens a ter mais governança e poder meter a mão na massa junto com eles.” E prossegue. “Minha vida hoje é mais divertida, excitante e a sensação de influência é muito grande”, diz ele.

Influência, no caso, não tem a ver com poder, mas sim com o sentido literal da palavra, de conseguir ajudar no desenvolvimento das startups. Quando voltou para o Brasil, o agora investidor começou a se envolver com esse ambiente e a frequentar “pitches” em hubs de inovação como o Cubo, do Itaú, e o Inovabra habitat, do Bradesco. E as empresas investidas começaram a aparecer.

Com exceção da Allpoints, plataforma de fidelidade para a hotelaria, que movimentou R$ 1 bilhão no ano passado, na qual Gouveia negociou sua entrada ainda em Londres, as conversas com as outras investidas, a Hands Mobile, a Pin People e a Allya, foram iniciadas depois de seu retorno ao Brasil.

No caso da Hands, que trabalha com inteligência de dados de milhões de usuários de celular, a chegada de Gouveia tem como objetivo ajudar em três frentes. “Além de ser o presidente do conselho, ele nos ajuda a entender o que entra nas agendas dos CEOs, a abrir portas e também na governança da empresa”, diz João Carvalho, fundador e CEO da Hands.

“Ele nos ajuda a entender o que entra nas agendas dos CEOs, a abrir portas e também na governança da empresa”, diz João Carvalho, fundador da Hands

Carvalho explica que Gouveia tem ajudado a adaptar o discurso. Produtos que eram vendidos como ferramentas passaram a ser comercializados como soluções. A chegada do investidor na companhia também chamou mais atenção do mercado. “É impressionante como esse cara é querido”, diz Carvalho. “Quando ele vai junto nas reuniões, a conversa sobe de patamar”

Até mesmo quem foi seu concorrente, mantém relação de amizade. Leonel Andrade, ex-presidente da Smiles, hoje conselheiro da BR Distribuidora, define Gouveia como “um construtor de pontes”. “Ele sempre foi um comercial brilhante, que sempre soube ligar os pontos de forma muito positiva. Além do que, ele é um líder carismático que está sempre junto com o time em qualquer nível”, diz Andrade.

Transformação pessoal

Gouveia diz que voltou a enxergar as coisas simples da vida depois do sabático que fez com a esposa Elisa. Tinha uma vida confortável em Londres, morava perto do Regent Park, mas não tinha um séquito de empregados, motorista e toda a estrutura a qual estava acostumado no Brasil. Lá, andava cerca de 15 quilômetros por dia, usava transporte público e Uber. “Percebemos que não precisávamos de tudo o que tínhamos no Brasil”, diz ele.

Viajava para os países na Europa a cada 15 dias, estudava inglês para manter uma rotina de conversar com pessoas novas todos os dias e arejou a cabeça. “Estou incentivando todos os meus amigos CEOs a fazerem o mesmo”, diz. E já estipulou um novo sabático. “Daqui a cinco anos faremos outro”, diz ele.

“Na Europa, descobrimos que dá para viver com dez camisetas, três calças jeans e três pares de sapato”, diz Gouveia

Com uma mochila nas costas, vestindo camiseta preta, calça jeans e tênis – “minha nova farda”, diz ele – o hoje investidor preservou os costumes adquiridos na Europa. Ao voltar, diminuiu a estrutura em casa e, praticamente, aboliu o uso do próprio carro. “Na Europa, descobrimos que dá para viver com dez camisetas, três calças jeans e três pares de sapato.” Hoje, em boa parte do tempo, se locomove de Uber e, vira-e-mexe, “baixa” no Cubo onde fica uma de suas startups, a Allya.

A importância da família

Uma característica que permanece forte em Gouveia é a importância da família. Ele fala o todo tempo da esposa e das filhas, Marcela e Mariana. Lembra da época em que, aos 30 anos de idade, saído do Banorte, virou sócio de uma distribuidora e da fabricante tubaínas Frevo no Nordeste. Nesse período, ele teve de se mudar para Salvador enquanto a família permaneceu no Recife.

Ficou dois anos e meio em Salvador. Para comemorar os 10 anos de casamento, foi com a esposa para Nova York. “Voltamos quase separados”, diz ele, explicando que aquele estilo de vida de ponte-aérea entre Salvador e Recife estava acabando com a relação. “Ela trabalhava, era mãe, dona de casa… Era muito peso para ela. E eu 100% focado no trabalho.”

Na época, Gouveia voltou. Foi, como ele mesmo diz, uma loucura, mas a melhor decisão de sua vida. “Pedi uma chance para minha esposa e disse ‘vou voltar para Recife sem emprego e sem empresa, mas vou recuperar a minha família’”, afirma.

Já na capital pernambucana, ele buscava um emprego quando o executivo Marcelo Silva, que foi presidente do Magazine Luiza e na época estava no Bompreço, chamou-o para cuidar dos cartões Hipercard. “Esse cara tem uma importância pessoal e profissional na minha vida. Devo minha vida a ele”, diz Gouveia.

O tempo passou, Gouveia foi para o marketing do Bompreço e, anos depois, foi chamado para trabalhar como vice-presidente de marketing do Walmart em São Paulo. Voltou para Recife, sentou-se com a família, conversou e vieram todos juntos. “Sempre envolvo a minha família nas decisões.”

As startups gigantes

Daí em diante, sua carreira decolou ainda mais. Depois de Walmart, foi para Visanet (que viraria Cielo), para a Multiplus, a Alelo, Livelo e Cielo. Gouveia tirou do papel a Multiplus, empresa de fidelidade da TAM, e em três anos a companhia atingiria um valor de mercado de R$ 8 bilhões. “Chegou a valer mais do que a companhia aérea.”

Depois de quatro anos, foi para a Alelo, empresa de benefícios do Bradesco e Banco do Brasil, e ali também esteve à frente da criação da Livelo. “Fizemos tudo do zero, aprendemos com os erros da Multiplus e a companhia nasceu mais digital.” Ainda esteve na criação da Veloe e, quando Romulo Dias saiu da Cielo, Gouveia foi convocado. O resto é história.

Gouveia permaneceu lá por quase dois anos, pediu demissão e foi para o sabático com o qual sempre sonhou. A única vez que interrompeu a viagem foi para cumprir a promessa feita para sua falecida mãe, Marielza, de sempre passar o Natal com as irmãs que moram no Recife. Ele veio, passou o Natal com a família e voltou em seguida para Londres.

As raízes permanecem fortes em sua vida e ele lembra de um momento de muita emoção. Gouveia nasceu na Califórnia porque seu pai, Ismael, foi cursar uma especialização em arquitetura e urbanismo na universidade de Berkeley. Seus pais e ele viviam na cidade de Walnut Creek e voltaram para o Brasil quando ele tinha apenas 2 anos de idade.

Há cinco anos, Gouveia foi com a esposa e as filhas para lá. Sua mãe lembrava o endereço onde haviam morado e enviou para ele. “Fomos até a frente da casa, tiramos fotos e mandamos para a mamãe”, lembra Gouveia. “Emoção pura”, diz esse “californiano” que está entrando com força total no mundo das startups.

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