Frete.com “carrega” um caminhão com R$ 300 milhões para comprar startups

Comandada pelo argentino Federico Vega, a holding que controla as operações das logtechs CargoX e Fretebras vai destinar os recursos para aquisições de empresas de tecnologia que atuem com transporte de cargas

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Federico Vega, fundador e CEO da Frete.com

Durante os últimos anos, o argentino Federico Vega se acostumou a sentar-se frente a frente com gestores de alguns dos maiores fundos de venture capital do mundo para negociar aportes. Na última vez em que fez isso, em novembro do ano passado, garantiu um investimento de US$ 200 milhões na Frete.com, holding que controla as operações de CargoX e Fretebras, tornando-se um unicórnio, como são chamadas as empresas que valem mais de US$ 1 bilhão.

Nos próximos dois anos, no entanto, Vega vai trocar de lugar nas mesas das reuniões. Com R$ 300 milhões para adquirir de startups, o empreendedor agora vai vestir a camisa de investidor e já tem no radar 20 empresas. No alvo estão empresas de tecnologia que ajudem a digitalizar soluções para o transporte rodoviário de carga.

“Não há uma regra. Pode ser que a gente faça apenas um investimento de R$ 300 milhões em uma única empresa”, diz Vega, em entrevista ao NeoFeed sobre o valor dos cheques. A tendência, no entanto, é que sejam feitos vários investimentos separados em startups que atuam com softwares e serviços voltados para a área de logística. Os primeiros deals devem ser anunciados nos próximos seis meses.

A diferença entre a Frete.com e gestoras é que o apetite da logtech está maior. Em vez de participações minoritárias nos negócios, a intenção é adquirir o controle total das operações para incorporar os negócios na operação da holding de logística, que processa mais de R$ 100 bilhões em transações por ano e R$ 2,5 trilhões em valor de mercadoria transportada.

O dinheiro para investir vem da própria Frete.com, que está capitalizada. Apesar de Vega ser o principal nome do negócio, quem vai coordenar o dia a dia dos investimentos será Marco Fabio Moura, executivo que está na logtech desde o ano passado e já comandou a área de fusões e aquisições do Grupo Fleury.

Investir em novos negócios no Brasil é quase uma missão pessoal de Vega. Quando chegou no País, ainda em 2013, o empreendedor conta que teve dificuldade para levantar os primeiros aportes para a CargoX. Havia preconceito com o fato dele ser argentino e querer trabalhar com um setor pouco atrativo aos olhos de investidores internacionais.

Segundo Vega, foi mais difícil levantar os primeiros US$ 250 mil, da rodada pré-seed, do que os US$ 200 milhões que a empresa captou em novembro do ano passado numa rodada de Série F com investidores como Softbank, Tencent, Valor Capital, Lightrock, entre outros. Com a última injeção de capital, criou a holding Frete.com.

Com os R$ 300 milhões, a ideia é investir em negócios na área de logística rodoviária. Apesar de ser um mercado essencial no Brasil, já que a malha ferroviária corresponde a menos de 25% do transporte de cargas no país, o setor não arregala os olhos de investidores dos EUA “que é onde está o dinheiro”, segundo Vega.

Do lado da Frete.com, o plano é buscar negócios que possam ajudar a logtech a crescer no mercado. A companhia atua com uma plataforma em que conecta caminhoneiros com transportadores e tem mais de 700 mil caminhoneiros cadastrados e ativos, o que representa 47% da frota de caminhões do Brasil.

A Frete.com não revela dados de faturamento, mas sabe-se que a operação da CargoX obteve receita próxima de R$ 500 milhões em 2018.

Hora de investir

A troca de lugar na mesa vem num momento em que as startups encontram mais dificuldade para levantar capital. Pelo menos no que diz a respeito a cheques mais gordos. Com term sheets mais rigorosos, os investidores estão mais cautelosos na hora de investir. “Acabou o happy hour”, diz Vega. “Os empreendedores precisam abaixar a cabeça e executar.”

De acordo com dados do Crunchbase, em maio deste ano, o valor aportado por venture capital em startups caiu 14% ante abril e somou US$ 39 bilhões em todo o mundo – ficando abaixo dos US$ 40 bilhões pela primeira vez em mais de um ano. Para efeito de comparação, os investimentos feitos em novembro do ano passado registraram um recorde de US$ 70 bilhões.

A âncora tem sido os investimentos em rodadas mais avançadas de captação de recursos. Aportes em late stage caíram de uma média de US$ 36,2 bilhões em 2021 para US$ 22,3 bilhões em maio deste ano. Já os investimentos em rodadas seed aumentaram 11%, somando US$ 3,1 bilhões em maio.

Como exemplo está a Tiger Global, uma das maiores investidoras globais em empresas de tecnologia. Nos primeiros seis meses deste ano, a gestora investiu em 220 negócios com US$ 18,4 bilhões. O número de investimentos é maior e o volume aportado foi menor do que o registrado no ano passado, quando a Tiger Global desembolsou US$ 29,2 bilhões em 145 operações.

No Brasil, dados do Distrito mostram que as startups brasileiras captaram US$ 2,6 bilhões nos primeiros cinco meses deste ano em 282 rodadas de financiamento. No ano passado, somando os aportes realizados entre janeiro e o fim de maio, foram 349 deals que somaram US$ 3,2 bilhões.

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