Minerva, José Galló e Ariel Lambrecht enchem o carrinho da Shopper com R$ 120 milhões

O frigorífico e o fundo Quartz, do ex-CEO da Renner, lideram o aporte na startup de compras online de supermercados. Além de Lambrecht, cofundador da 99, a rodada tem ainda a participação de fundos como FJ Labs. Com o investimento, a empresa quer chegar a 60 cidades, dobrar seu time e mira aquisições

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Bruna Vaz e Fábio Rodas, fundadores da Shopper

Fundada em 2015, a Shopper nasceu com o objetivo de ser uma alternativa 100% online para as compras de supermercados. Com essa proposta, a startup atraiu R$ 12 milhões em investimentos. Agora, a startup está adicionando uma nova cifra ao seu “carrinho”.

A empresa anuncia nesta terça-feira, 18 de maio, um novo aporte, dessa vez, de R$ 120 milhões, liderado pelo fundo de corporate venture capital da Minerva e pelo Quartz, fundo de José Galló, ex-CEO da Renner, que já investia não operação.

A rodada série B tem ainda a participação dos fundos americanos FJ Labs, de Fabrice Grinda, fundador da OLX, e Floating Point. Além de investidores que já compunham o pool de acionistas da operação, como a gestora FEGIK; o multifamily office Oikos; Ariel Lambrecht, cofundador da 99; e Márcio Schettini, ex-diretor-geral do Itaú Unibanco.

“Todos esses investidores entendem que esse setor é um dos mais difíceis de operar, tanto que muitas startups começaram nele e não sobreviveram”, diz Fábio Rodas, cofundador e CEO da Shopper, ao NeoFeed. “E nós já temos um track record de quase seis anos, crescendo e com consistência.”

Atualmente, a startup oferece seu serviço na capital paulista e em outras 21 cidades do estado, com o apoio de dois centros de distribuição, localizados em Osasco (SP) e na Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo. A plataforma conta com uma base de mais de 250 mil cadastrados.

Expandir esse mapa é justamente um dos focos da nova injeção de recursos. A Shopper planeja encerrar 2021 com presença em 60 municípios. As próximas cidades a receberem o serviço estão em fase de definição e terão como principal guia a demanda identificada a partir dos cadastros na plataforma.

“Ainda estamos analisando se iremos sair de São Paulo nesse ano”, observa Rodas. “Um dos próximos passos é chegar ao Rio de Janeiro, o que vai acontecer entre o segundo semestre de 2021 e o primeiro de 2022.”

Independentemente do roteiro a ser seguido, a empresa vai inaugurar mais um centro de distribuição nesse ano. A unidade será instalada no estado de São Paulo ou no Rio de Janeiro, caso a expansão chegue a essa praça no período.

Atualmente, a Shopper tem uma base de mais de 250 mil usuários cadastrados

Parte do montante será reservado à ampliação do quadro da companhia, formato atualmente por mais de 500 profissionais. Até o fim do ano, o plano é dobrar esse time, com prioridade para as áreas de operações, tecnologia e comunicação.

Outro possível destino do aporte são as aquisições. Nesse plano, a Shopper avalia eventuais acordos que reforcem a sua estrutura ou tragam mais eficiência à operação, o que pode incluir ativos relacionados à tecnologia.

Trajetória

A história da Shopper começou a ser escrita quando Rodas conheceu Bruna Vaz. Em 2013, os dois fundaram a Renovatio, empresa sem fins lucrativos que atua com a produção e a doação de óculos de grau de baixo custo, e da qual ainda são sócios.

Como a parceria se mostrou afinada, eles decidiram desenvolver mais um projeto. “Começamos a perceber que as pessoas abasteciam suas casas da mesma maneira que seus pais e avós faziam”, conta Bruna, cofundadora e COO da Shopper. “E fomos buscar referências fora do Brasil que trouxessem eficiência e tecnologia para esse consumo.”

A dupla encontrou essa inspiração no conceito de Subscrive & Save, lançado pela Amazon, no Estados Unidos, alguns anos antes. Nesse formato, a gigante americana usava recursos para prever e automatizar as compras dos consumidores.

Em 2015, nascia a Shopper. Com R$ 20 mil do próprio bolso e a cara e a coragem, Rodas e Bruna criaram um site e foram para a rua, panfletar e tentar atrair os primeiros clientes para a startup. “Nós queríamos entender se havia, de fato, demanda para o que estávamos construindo”, explica Bruna.

O modelo passou por alguns ajustes até chegar ao formato atual. Nele, os consumidores se cadastram na plataforma, montam suas listas de compras e agendam o dia para receber os produtos. O sistema armazena os itens do pedido e permite programar novas entregas.

Dez dias antes dessas entregas pré-programadas, a Shopper envia lembretes ao consumidor, que pode acrescentar e retirar produtos da relação, ou mesmo refazer toda a lista, bem como mudar a data de recebimento desses itens.

As “gôndolas” virtuais da plataforma contam com mais de 6 mil tipos de produtos, distribuídos em categorias como alimentos, bebidas, higiene pessoal, limpeza, perecíveis, congelados, embutidos e produtos para pets.

Da compra à entrega, todo o processo é gerenciado por tecnologias criadas dentro de casa e pela equipe da startup, a partir de seus centros de distribuição. Com um valor mínimo de R$ 150, mais de 90% dos pedidos superam a faixa de R$ 250. A partir dessa cifra, o frete para as entregas não é cobrado.

O maior apelo, no entanto, é o fato de que a compra dos itens é feita pela Shopper diretamente com a indústria. A startup tem centenas de parceiros, entre eles, nomes como Unilever, P&G e Reckitt Benckiser. A receita vem de uma margem, não revelada, embutida no preço dos produtos.

“Com a compra planejada, conseguimos ter menos estoque e garantimos que o consumidor vai receber a marca e o produto que realmente gosta”, diz Rodas. “E oferecemos, em média, um preço 10% menor nas compras.”

As compras online de supermercados ganharam fôlego na pandemia. E, nesse cenário, outras empresas vêm disputando a preferência dos consumidores. Em boa parte dessas ofertas, porém, os pedidos são retirados diretamente nos estabelecimentos, em um modelo diferente daquele proposto pela Shopper.

A lista de empresas que está explorando esse segmento inclui, por exemplo, a Supermercado Now, comprada pela B2W em janeiro de 2020. Alguns varejistas também engrossam essa relação, como o Magazine Luiza que, pouco a pouco, vem adicionando categorias desse segmento ao seu marketplace.

A concorrência encontra exemplos ainda em aplicativos como o Rappi, que mantém uma parceria com o Carrefour; o iFood, que lançou, em 2019, o iFood Mercado; e o chileno Cornershop, que chegou ao País no fim do mesmo ano, após ser comprado pela Uber.

Professor do Insper, Marcelo Nakagawa destaca, no entanto, que o caminho escolhido pela Shopper traz alguns diferenciais e benefícios na comparação com essas companhias.

“Esses players dependem das compras por impulso, o que muitas vezes encarece a operação”, diz Nakagawa. “A vantagem da Shopper é que o seu modelo estimula a criação de um hábito pelo consumidor e permite trabalhar com um estoque enxuto, com previsibilidade e economia de escala.”

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