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Mudança no alto escalão da Microsoft provoca batalha com a IBM

Microsoft e IBM já protagonizaram diversos duelos na área de tecnologia. Agora, elas brigam pelo executivo brasileiro Rodrigo Kede, que se transferiu para a companhia de Bill Gates para assumir a operação da América Latina. A IBM foi à Justiça para impedir a mudança

 

Rodrigo Kede: ele quer ir para a Microsoft. A IBM não quer deixar

Nesta terça-feira, 30 de junho, o presidente da Microsoft na América Latina e vice-presidente corporativo da companhia, Cesar Cernuda, dará seu último expediente na companhia fundada por Bill Gates, na qual ele trabalhou nos últimos 23 anos.

Cernuda anunciou seu desligamento da Microsoft em maio deste ano para assumir a presidência da NetApp, uma companhia de armazenamento e dados na nuvem.

A transição na alta cúpula da Microsoft estava acertada. Para o lugar de Cernuda, a Microsoft contratou o brasileiro Rodrigo Kede, um alto executivo da IBM, que atuava nos Estados Unidos. Mas essa simples troca de cadeiras se transformou numa briga entre IBM e Microsoft.

A IBM não aceitou a perda de seu executivo para a Microsoft e resolveu questionar a transferência de Kede, descrito por pessoas que o conhecem como um executivo talentoso e ambicioso, na Justiça.

A big blue, como é conhecida a IBM, entrou no dia 15 de junho na Corte Distrital de White Plains, no estado de Nova York, com uma ação contra Kede, alegando que ele rompeu uma cláusula de não competição e que não pode assumir o cargo na Microsoft.

Na ação, que foi publicada em primeira mão pelo site americano West Fair, a IBM acusa Kede também de desviar segredos comerciais e exige o retorno de quase US$ 1,3 milhão em opções de ações.

“Kede está violando seu contrato de não concorrência buscando emprego imediato no alto escalão da Microsoft, onde ele não pode evitar de explorar seus relacionamentos com clientes da IBM e usar seu conhecimento dos planos de negócios confidenciais da IBM para enfrentar a IBM”, diz um trecho da ação.

Kede é um executivo que começou sua carreira como estagiário na IBM, na década de 1990, e chegou à presidência no Brasil, em 2012, quando tinha 40 anos, sendo o mais jovem presidente da história da companhia no País.

“Kede está violando seu contrato de não concorrência buscando emprego imediato no alto escalão da Microsoft”, diz um trecho da ação

Em 2015, no entanto, ele deixou a big blue para assumir a presidência da Totvs, maior empresa de software no Brasil, num plano de três anos para suceder a Laércio Cosentino, o fundador da empresa.

A passagem pela Totvs foi curta. Durou apenas oito meses e terminou de uma forma estranha. Em comunicado em janeiro de 2016, a Totvs anunciou sua saída, alegando problemas de saúde. Uma semana depois, Kede era confirmado como novo gerente-geral da IBM na América Latina.

“Naquela ocasião, a IBM facilitou as coisas para Kede e deixou que ele saísse sem nenhum problema. Tanto que aceitou ele de volta logo depois. Mas agora a situação é diferente. Eles estão dispostos a irem às últimas consequências”, diz uma fonte ao NeoFeed.

De volta à IBM, Kede foi galgando posições. Em 2017, foi promovido a gerente-geral da divisão de serviços para a América do Norte, responsável por um dos maiores faturamentos da empresa e um dos cargos mais importantes da big blue.

Em janeiro desse ano, ele foi transferido a área de contas integradas globais, responsável pelos 77 maiores clientes da IBM no mundo. Para uma fonte que conhece os corredores da IBM, essa promoção equivale a “ir para a geladeira.”

Descontente, Kede teria buscado alternativas para sair da IBM. Na ação, ele diz, inclusive, que deixou a big blue porque estava com uma “profunda infelicidade trabalhando para a empresa.” O executivo alega que sua motivação não era financeira, pois teria direito a exercer US$ 8,5 milhões em opões de ações em 2022.

Mas nada disso deve ser levado em conta pela IBM. “A ida para a Totvs e a volta para a IBM ficou atravessada em muita gente”, diz essa fonte.

O NeoFeed teve acesso a um contrato que executivos do alta escalão da IBM assinam quando assumem funções executivas seniores. O contrato deixa claro que o funcionário não pode trabalhar em um concorrente direto ou indireto nos próximos 12 meses após o desligamento.

Essa condição vale para o que é chamada de área restrita, que significa qualquer geografia na qual o executivo tenha trabalhado. Kede já foi responsável pela América Latina na IBM, mesmo cargo que iria ocupar agora na Microsoft.

Só a IBM poderia abrir mão dessa cláusula, segundo apurou o NeoFeed. E não haveria forma de Kede ser liberado pagando uma multa.

Na ação que está na Justiça americana, a IBM diz que Kede estava entre o 1% dos executivos da alta cúpula da IBM, com um assento na mesa ao lado do presidente e do diretor executivo globais da empresa.

A IBM afirma também que ele estava a par de segredos e de estratégias corporativas, incluindo informações confidenciais sobre os principais clientes da empresa.

Além disso, a big blue cita a computação em nuvem como uma de suas áreas com forte concorrência com a Microsoft na América Latina, região em que Kede teria profundo conhecimento.

Kede, na visão da IBM, representaria uma ameaça “não apenas porque conhece os segredos comerciais da empresa, mas também porque desenvolveu relacionamentos com importantes e potenciais clientes da IBM”.

Procurado, Kede não retornou aos pedidos de entrevista do NeoFeed. Mas ele se defendeu na ação. Em uma declaração judicial, o executivo afirmou que a IBM não tem interesse legítimo em impedi-lo de aceitar o cargo na Microsoft.

“Meu trabalho na Microsoft não colocará a IBM em nenhuma desvantagem competitiva”, afirmou Kede. Ele acrescentou que sofrerá “dificuldades indevidas significativas” se não for permitido trabalhar por um ano.

“Meu trabalho na Microsoft não colocará a IBM em nenhuma desvantagem competitiva”, afirmou Kede na Justiça

Para Kede, a IBM está exagerando sobre seu conhecimento de produtos e estratégias. O executivo também afirmou que não conhece os planos globais de negócios e de investimentos para os próximos 12 meses e que não faz negócios para a IBM na América Latina desde julho de 2018.

O executivo alegou ainda que seu conhecimento de computação em nuvem é mínimo e que a afirmação de que a IBM é uma séria concorrente da Microsoft em computação em nuvem é “duvidosa”. A América Latina, segundo Kede, representa apenas 5% do mercado global de tecnologia da big blue.

Para quem conhece Kede, a chance de o executivo não ter experiência em computação em nuvem é próxima de zero. “Ninguém chegaria à posição que ele chegou sem saber nada sobre computação em nuvem”, diz uma fonte do setor de tecnologia.

Outo ponto defendido por Kede é de que devolveu todos os documentos da IBM, excluiu e-mails e arquivos de seus dispositivos pessoais e não divulgou informações confidenciais para ninguém de fora da empresa. “Não violei e não violarei esse acordo”, disse ele em referência ao acordo de não competição.

O impasse para essa briga entre IBM e Kede, que diretamente afeta a Microsoft, deve ser decidido em 14 de julho, quando uma audiência foi agendada pelo juiz federal Philip M. Halpern, que impediu temporariamente Kede de trabalhar para a Microsoft.

Uma fonte ligada a Microsoft acredita que as duas empresas devam chegar a um acordo. “Elas podem negociar um prazo menor para ele ficar em uma quarentena de alguns meses. Mas duvido que impeçam Kede de trabalhar na Microsoft”, diz essa fonte.

Em 2018, a IBM entrou com uma ação semelhante contra Lindsay-Rae McIntyre, que se transferiu para a Microsoft, onde assumiria a função de chefe de diversidade. Mas, pouco tempo depois, a big blue fechou um acordo nos tribunais, no qual McIntyre teve de cumprir uma breve quarentena, e permitiu a transferência da executiva para a rival.

A IBM e a Microsoft já protagonizaram diversos duelos no setor de tecnologia no passado e são rivais em diversas áreas. Na década de 1990, brigavam em sistemas operacionais (alguém se lembra da disputa Windows versus OS2?). Agora, duelam na nuvem e nos tribunais por um executivo brasileiro.

Por enquanto, a Microsoft não anunciou ainda um substituto para Cernuda. Além dele, Paula Bellizia, vice-presidente de marketing e operações para a América Latina, informou também o seu desligamento da empresa na semana passada.

Procurada, a Microsoft enviou a seguinte nota ao NeoFeed. “De forma geral não discutimos assuntos pessoais relacionados à nossa equipe, porém ressaltamos que não temos interesse em nenhuma das informações confidenciais da IBM e acreditamos que o Rodrigo pode retomar a função na qual foi contratado aqui, sem violar os termos de seu contrato com a IBM. Esperamos que o tribunal decida o mais breve possível quando Rodrigo voltará ao trabalho.”

A IBM não retornou ao pedido de comentário para essa reportagem.

Reportagem atualizada às 9h07 de 30/06/2020 para acrescentar nota da Microsoft.

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