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Muitos gibis para poucos leitores: o dilema do mercado de HQs

Em entrevista ao NeoFeed, o crítico e tradutor de quadrinhos Érico Assis, autor do livro “Balões de pensamento”, fala sobre a diversidade das HQs brasileiras, mas aponta problemas, como a falta de mais títulos com bons índices de venda e a elitização das edições impressas

 

“Sapiens”, best-seller de Yuval Noah Harari, na versão em quadrinhos, que foi traduzida por  Érico Assis

Quem acompanha o mercado de quadrinhos brasileiro e compra HQs regularmente já se acostumou a encontrar o nome de Érico Assis nas primeiras páginas. Como um dos principais tradutores em atividade, ele é responsável por títulos tão variados quanto “Sandman”, o clássico de Neil Gaiman, e a adaptação em quadrinhos de “Sapiens”, best-seller de Yuval Noah Harari.

Érico também é jornalista que cobre esse mercado há 20 anos. E agora, acaba de lançar seu primeiro livro. “Balões de Pensamento” (Balão Editorial, 326 págs) é um apanhado dos textos que ele escreve desde 2010 em sua coluna no blog da Companhia das Letras.

Com uma visão privilegiada do setor, ele faz reflexões sobre autores de HQs, hábitos dos leitores, mercado, dilemas do ofício de tradutor e teorias sobre a chamada nona arte. Funciona como um guia para quem já lê HQs, mas também para quem passou a se interessar pelos gibis agora.

Afinal, há cada vez mais opções de leitura, uma diversidade motivada, principalmente, pela facilidade em produzir um título e colocá-lo no mercado. Isso, no entanto, gera uma pulverização em que poucos artistas ganham muito, enquanto muitos não conseguem sequer reaver o valor de um adiantamento da editora.

“Poucos títulos conseguem chegar a um patamar de vendas que sustente a produção”, afirma Assis, em entrevista ao NeoFeed. “E, hoje, os gibis competem com games, música, cinema e Netflix.”

É um fenômeno semelhante ao que acontece na música e na literatura. No livro “The Death of the Artist”, o autor William Deresiewicz aponta que 95% de todas as músicas tocadas no Spotify pertencem a apenas 4% dos mais de 2 milhões de artistas cadastrados. Na Amazon, 68% dos mais de 6 milhões de livros disponíveis vendem menos de duas cópias por mês.

No caso dos quadrinhos, um ator como Dav Pilkey, de “Capitão Cueca”, consegue vender mais de 30 milhões de seu best-seller “Homem-Cão”. Mas boa parte dos álbuns lançados no mercado franco-belga, um dos mais tradicionais dos quadrinhos, não vende nem três mil exemplares.

Érico Assis, autor de “Balões de Pensamento”

Da mesma forma, a onda de sucessos do cinema baseados em histórias em quadrinhos, como as adaptações da Marvel e da DC Comics, não se reflete necessariamente em mais leitores. “Acho que houve um efeito positivo”, afirma Assis. “Mas esse efeito já cansou”. Acompanhe a conversa:

Os textos reunidos no livro oferecem um panorama do desenvolvimento do mercado de quadrinhos no Brasil. Para onde caminha esse segmento?
É muito difícil fazer uma previsão. Há uma crise com o preço do papel. E as pessoas não se acostumaram a pagar por conteúdo digital. Isso não é algo exclusivo do mercado brasileiro. Há uma crise também nos Estados Unidos. A pandemia travou o mercado de quadrinhos, inclusive as comic shops. Em uma live recente, o pesquisador Scott McCloud oferece um raio de luz dizendo que, sim, ainda tem muito quadrinho saindo. Mas há um outro problema.

Qual?
Poucos títulos conseguem chegar a um patamar de vendas que sustente a produção. A esperança é que apareça um gibi capaz de provocar um efeito Harry Potter. É um livro tão bom que acaba movimentando muito a leitura. Harry Potter puxou todo o setor de literatura e mobilizou os editores a procurar outros fenômenos, tentando achar uma fórmula – que não existe. O quadrinho está envolvido com todo o entretenimento e compete com games, música, cinema, Netflix. Seria preciso aparecer um gibi tão interessante que tenha um impacto grande para manter esses leitores.

A pandemia provocou mudanças no mercado de quadrinhos que devem permanecer mesmo quando a situação estiver sob controle?
Não sei como os quadrinhos estão se comportando sobre isso. Já vi comentários de que as plataformas online como Webtoons e Tapas estão ganhando uma receita interessante e distribuindo os recursos de uma forma semelhante ao YouTube, ajudando a financiar alguns artistas. Acho que uma alternativa para os criadores é desenvolver uma marca, com lojinha para vender produtos relacionados. O case brasileiro é o Carlos Ruas (criador da série Um Sábado Qualquer, que vende bichos de pelúcias e outros produtos, além das HQs).

O mercado brasileiro de quadrinhos tem uma variedade enorme. Você entende que é um dos mais diversificados do mundo?
Não sei se é um dos mais diversificados, apesar dos nomes fortes e tradicionais. A gente tem a Mônica, que representa quase 80% de tudo que se vende de quadrinhos aqui. Mas se olharmos para os Estados Unidos, eles também têm muita coisa, um monte de temáticas, que nem chegam aqui. O mercado japonês também é super diversificado. Chega apenas um pedaço muito pequeno disso no ocidente. O Brasil não é diferente. Tem uma produção bem diversificada, mas não sei se tem uma “cara” para o resto do mundo. Nem a Mônica conseguiu se colocar lá fora. Existem nomes, como o Gabriel Bá e o Fábio Moon, que são identificados como brasileiros. Na Europa, acho que o principal nome é o do Marcello Quintanilha.

Assim como aconteceu com os discos de vinil e os blu-rays, os quadrinhos impressos vão se tornar artigos de luxo?
Acho que estão virando, apesar de várias iniciativas contrárias. Os gibis da Disney são vendidos a preços baixos. Da Mônica também. Mas o quadrinho de super-herói, em um formato maior, com o licenciamento, com uma distribuição precária como está hoje e com o preço do papel subindo… Não tem como lutar contra essa elitização. A grande verdade é que o preço do papel aumentou muito e o público ficou mais exigente. Tem menos gente lendo quadrinhos. No tempo do formatinho (tamanho parecido com o A5, muito usado até o início dos anos 2000), os quadrinhos competiam com menos coisas. Eles eram produzidos em maior tiragem. Antes, tinham 500 mil pessoas querendo ler o Homem-Aranha. Hoje, eles preferem ver os filmes do Aranha na Disney+.

“Antes, tinham 500 mil pessoas querendo ler o Homem-Aranha. Hoje, eles preferem ver os filmes do Aranha na Disney+”

O sucesso dos filmes da Marvel e da DC Comics impactou o mercado como um todo?
No início, minha percepção é de que não havia nenhum impacto em termos de venda. Hoje, acho que houve um movimento positivo. Não é todo mundo que sai do cinema e vai comprar gibi. Têm “2%”, porém, que descobriram não só os títulos dos X-Men, mas também Watchmen. Mas esse efeito já cansou. Acho que o que acontece é que as empresas como a Marvel publicam pensando na adaptação audiovisual. Elas não se sustentam mais apenas como editoras de quadrinhos, então cultivam os personagens até que eles virem filmes e rendam um bilhão. E os executivos dos estúdios usam esse argumento para vender outras adaptações. Só por ser um quadrinho, acaba justificando o projeto.

A consolidação da Amazon como principal loja online de quadrinhos ajudou ou limitou o mercado?
A Amazon salvou boa parte do mercado. Especialmente das editoras pequenas, eu diria. Ao mesmo tempo em que acelerou o fim da linha de quadrinhos da Abril. Todo mundo fica em dúvida sobre o futuro, quando ela virar a única. Eu não sei como seria sem a Amazon. Não existiriam editoras como Pipoca e Nanquim e Darkside. Talvez tivéssemos muito mais títulos da Panini no mercado.

Até hoje é comum ver listas de quadrinhos sérios ou voltados para o público adulto. Por que as HQs ainda precisam ficar provando seu valor artístico?
É um ranço antigo com os quadrinhos, que remonta ao período de perseguição nos Estados Unidos, que começou na década de 1950 e se espalhou por outros países, como a França e o Brasil. Isso se mantém. E passou para muitos educadores. A professora da minha filha pediu uma resenha de um livro. E ela, com 10 anos de idade, disse que não poderia fazer uma resenha do “Homem-Cão” (do cartunista Dav Pilkey, criador do Capitão-Cueca), porque não era leitura de verdade. Justo ela, que tem bastante influência aqui em casa. Então, ainda existe esse ranço que não foi vencido completamente. Mesmo com resenhas de quadrinhos adultos sendo publicadas nos jornais há 30 anos.

A criação de uma categoria para quadrinhos em um prêmio como o Jabuti ajuda a mudar essa percepção?
O Jabuti não é um prêmio muito conhecido fora do mercado. Então, não temos essa medida se o público, fora do mercado editorial, notou essa relevância. Já a relevância comercial é sentida. Já se sabe que o quadrinho é um filão rentável, tanto que praticamente todas as editoras têm seu selo de quadrinhos.

“Oleg”, do suíço Frederik Peeters

O que você está lendo e gostaria de recomendar?
Acabei “Oleg”, do suíço Frederik Peeters, o mesmo autor de “Pílulas Azuis” (graphic novel vencedora de prêmios internacionais). Tem uma pegada “felliniana” que aborda o bloqueio criativo, como acontece no filme “8 1/2”. A maneira como o autor mostra a vida do quadrinista e resolve graficamente esse bloqueio é bem impactante.

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