Na briga entre bancos e fintechs, há bem mais do que um bate-boca nas redes

Uma resposta mais dura por parte da Febraban contra fintechs foi a gota d’água de uma relação que envolve concorrência e regulação de mercado. Conheça os bastidores e entenda o que está em jogo

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A discussão entre Febraban, a entidade que representa os bancos, e a Zetta, que defende o interesse das fintechs, continua dando o que falar nas redes sociais. A Zetta atirou, a Febraban revidou e a Zetta mandou mais um petardo ontem.

Em resumo, uma diz que os bancos cobram altas tarifas, a outra de que as fintechs são menos reguladas, pagam menos impostos e entram no jogo “pagando meia entrada”.

Que bancos e fintechs se estranham, não é novidade – e não é de hoje. Mas o que deixou muita gente espantada foi o tom dos bancos, que sempre foram mais diplomáticos diante do grande público, não entrando no ringue sob os holofotes.

No comunicado (clique aqui para ler), a Febraban diz que o Nubank cobra mais do que a média dos cinco grandes bancos nos juros do cartão rotativo. A Zetta respondeu (clique aqui para ler) que os juros das fintechs são menores.

Diante da contenda nas redes sociais, cabem algumas perguntas: o que tem acontecido nos bastidores e o que fez aumentar a fervura desse caldeirão? O NeoFeed fez essas questões para alguns banqueiros, que falaram sob condição de anonimato, e encontrou algumas respostas.

A primeira é a de que sobrou para o Nubank uma ação de marketing feita pelo Mercado Pago, uma propaganda (veja filme aqui) que mostra uma pessoa vestida de tiranossauro-rex tentando entrar em uma agência bancária para pedir crédito, travando na porta-giratória. Em seguida, mostra o dinossauro pedindo crédito no aplicativo do Mercado Pago e a pergunta: “pra que banco?”

Essa teria sido a gota d’água que fez os banqueiros se sentirem desrespeitados e se unissem para dar a resposta às fintechs, que já haviam publicado, por meio da Zetta, uma nota (clique aqui para ler) comentando um levantamento feito pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) que mostrava a alta, acima da inflação, das tarifas dos grandes bancos durante a pandemia.

“A propaganda com o dinossauro foi ofensiva, uma falta de respeito com todos do setor”, diz um banqueiro de alta patente. “Centenas de milhares de pessoas trabalham em agências bancárias e, durante a pandemia, quando muita gente estava em casa, eles trabalharam porque é um serviço essencial.”

Mas não foi só essa propaganda que havia incomodado os membros da Febraban. No início de setembro, a adquirente Stone soltou uma campanha batizada de “menos banco, mais negócio” (veja filme aqui) na qual satirizava os bancos, dando a entender que eles são mais lentos e burocráticos e a Stone mais ágil e moderna.

Não foi à toa que, no comunicado que a Febraban fez no Linkedin, o presidente da entidade, Isaac Sidney, soltou a seguinte frase: “Não temos vergonha de sermos bancos, muito ao contrário, e também não nos escondemos atrás de letras, marketing e grifes.”

Procurada, a Febraban não atendeu ao pedido de entrevista do NeoFeed, mas banqueiros que conhecem a fundo o que se passa no setor e na entidade relataram o que está por trás dessa, até então, Guerra Fria entre bancos e fintechs. E o Banco Central tem um papel central nesse tabuleiro.

Desde que assumiu o comando do Banco Central, Roberto Campos Neto tem liderado uma agenda pró-competição e modernização do sistema financeiro. Trata-se da Agenda BC+, iniciada por Ilan Goldfajn, que liderou o BC na gestão do ex-presidente Michel Temer, e intensificada por Campos Neto e sua equipe.

“Ninguém discute a agenda, mas a forma como tem sido feita”, diz outro banqueiro com o qual o NeoFeed conversou. “Estão fazendo tudo às pressas e extrapolando o papel de regulador do mercado, impondo a agenda que os bancos devem seguir”, afirma esse profissional com mais de três décadas de experiência no setor.

As mais recentes ações do BC geraram – e têm gerado – estresse com os membros da Febraban. Uma delas é a nova estrutura de recebíveis do cartão, na qual todos os participantes podem enxergar os recebíveis do mercado e, assim, oferecer antecipação desse recebível com base no que é visto.

A regra foi lançada em junho, depois de ser postergada por três vezes. “As empresas registradoras não estavam prontas e o BC deveria ter postergado mais. Mas fez tudo de forma atropelada”, diz o presidente de outro banco. O resultado é que, até agora, a nova infraestrutura de recebíveis tem dado problema.

“Continua tendo problemas sérios que afetam estabelecimentos e clientes, e acesso a crédito. É problema técnico todos os dias”, diz um executivo do mercado de cartões. “Você não consegue travar o recebível, não consegue liberar o empréstimo se não travou o recebível, ou trava o recebível que não era para travar”, diz ele.

A segunda questão que vem gerando estresse é a implementação do open banking. “A fase dois tem sido um desastre, não conseguiu chegar nos consumidores, e o BC não está querendo rever o timing das outras fases, apesar de mostrarmos que tem riscos sistêmicos. Teve muita adaptação de última hora”, diz o conselheiro de um grande banco.

Por último, um problema que tem deixado os bancos de cabelo em pé é o de roubos e sequestros por conta do PIX. “Os bancos avisaram o BC que o órgão deveria deixar a questão de escolha de regras e segurança nas mãos deles, mas o BC quis impor datas e regras. Está dando muito problema e interfere na agenda dos bancos”, diz uma pessoa com trânsito na Febraban.

Além disso, o discurso de que o BC gastou pouco mais de R$ 10 milhões no desenvolvimento do PIX também incomoda. “O BC tem uma agenda própria e isso custa muito. Os bancos estão investindo bilhões de reais. Estamos custeando essa agenda para as fintechs”, afirma uma fonte.

O comunicado da Febraban foi só a pontinha de um enorme iceberg que está prestes a se deslocar causando choques no mercado. O NeoFeed apurou que a entidade está preparando estudos técnicos para avaliar a questão concorrencial e também a atuação do BC que tem obrigado os bancos a seguirem a sua agenda.

“O regulador ficou tão preocupado em lançar produtos que deixou sua função de lado”, diz outro profissional de mercado. E prossegue. “A função principal do Banco Central é controlar a política monetária e temos uma inflação que está indo para as alturas, a taxa de juros subindo e o dólar também.”

A Febraban, por sua vez, tem reclamado com frequência de assimetrias entre bancos e fintechs nas questões tributárias, de alocação de capital, de regras de compliance e controle. A alegação é a de que os bancos engessam boa parte de seu capital para fazer frente a riscos de crédito, riscos operacionais e a riscos de mercado.

“As regras para instituições de pagamento são mais flexíveis”, diz uma fonte que costuma frequentar a Febraban. O Banco Central, entretanto, estuda alterar o tratamento prudencial de conglomerados liderados por instituições de pagamentos como Nubank, Stone e PagSeguro.

Isso mudaria o gerenciamento de riscos e os requisitos mínimos de capital para fazer frente a esses riscos. A Consulta Pública 78, que trata deste assunto, foi encerrada em janeiro deste ano, mas as regras ainda não foram divulgadas.

Procurado, o BC enviou uma nota ao NeoFeed dizendo que “em dezembro de 2020, apresentou o Edital de Consulta Pública 78 para atualização normativa. O intuito é harmonizar o tratamento prudencial dado aos serviços de pagamento, realizados por instituição de pagamento e por instituição financeira, respeitando princípios de proporcionalidade. As normas objeto de consulta pública ainda não foram publicadas”.

A Zetta, em sua nota divulgada ontem, diz que “a assimetria regulatória favorece os bancos tradicionais com vantagens competitivas e econômicas, e não as fintechs, que têm maiores exigências financeiras e mais requisitos legais.” Trata-se de uma discussão sem fim. Mas o fato é que a competição fez surgir novas empresas e quem mais se beneficiou disso foram os consumidores.

Em fóruns de redes sociais, muitas pessoas têm comparado essa disputa a outras que aconteceram em setores distintos. Há pouco tempo, presidentes de operadora de telefonia chiavam contra o WhatsApp, que usava a infraestrutura delas para surfar, não gastava nem perto do que elas gastavam para rodar e estava sujeito a outras regras por parte dos reguladores.

O mesmo aconteceu com a disputa entre motoristas de Uber e taxistas. Um lado se dizia o novo, representando a economia compartilhada, e o outro atacava afirmando que eles não seguiam as mesmas regras, não pagavam os mesmos impostos e não eram regulados.

Agora, no caso da disputa entre bancos e fintechs, há uma guerra de narrativa e de experiência do usuário na qual as fintechs largaram na frente. E os grandes bancos, com o seu poder de fogo, estão correndo atrás. “Mas os casos das operadoras de telefonia e de motoristas de Uber são diferentes. No setor financeiro, há riscos muito maiores”, diz um executivo do mercado.

“O bate-boca entre Febraban e Zetta é inócuo, não vai levar a lugar nenhum.” E prossegue. “As fintechs jogam mais para a torcida. Os lovers das redes sociais não adiantam em nada na hora da discussão estrutural. Não adianta ter fãs e likes.”

Para esquentar ainda mais o caldeirão que já entrou em ebulição, David Vélez, fundador do Nubank, postou ontem no seu Linkedin: “First they ignore you, then they laugh at you, then they fight you, then you win”. Em seguida, escreveu: “Wise words attributed to Mahatma Gandhi”, disse Vélez sobre a famosa frase do ativista pacifista que contribuiu para a independência da Índia e participou da luta contra o colonialismo britânico. Mas, no sistema financeiro brasileiro, a trégua, ao que parece, acabou.

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