Na PagSeguro, um dia entre o céu e o inferno do mercado

Ações da PagSeguro caem mais de 20% após um resultado que foi elogiado pela maioria dos analistas de bancos. Mas os investidores acreditam que ela está queimando muito caixa

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A PagSeguro vale US$ 4,5 bilhões

A PagSeguro divulgou, na quarta-feira à noite, 8 de junho, resultados que receberam elogios da maioria dos analistas que acompanham a credenciadora. O desempenho operacional, com aumento de 29% do lucro líquido em relação ao mesmo período de 2021, para R$ 350 milhões, e avanço de 66% da receita, para R$ 3,4 bilhões, foram destacados em muitos relatórios. 

Mas, apesar de números considerados bons por analistas de alguns dos principais bancos do País, as ações da companhia registraram forte queda no pregão desta quinta-feira, 9 de junho. Listada na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), a PagSeguro encerrou o dia com recuo de 23,78%, a US$ 13,11, com valor de mercado atingindo US$ 4,5 bilhões.

O mercado não estava em um dia positivo para empresas de adquirência e de tecnologia. A Nasdaq, bolsa americana que concentra muitas companhias de tecnologia, teve o pior desempenho entre os mercados americanos, com recuo de 2,75%, aos 11.754,23 pontos. Entre as concorrentes da PagSeguro, a Stone fechou com recuo de 14,89%, a US$ 10,12.

Embora o desempenho operacional tenha sido considerado em geral positivo, alguns investidores questionaram a qualidade de alguns números, vendo neles sinais problemáticos sobre o que pode vir por aí. 

Um ponto levantado por críticos foi a questão da dinâmica do caixa. No primeiro trimestre, o caixa líquido vindo das operações somou R$ 287,3 milhões, revertendo o saldo negativo de R$ 17,7 milhões apurado no mesmo período do ano passado.

O valor, porém, é muito menor do que o visto no caixa líquido utilizado para financiar as atividades da empresa, que dobrou, na mesma base de comparação, para R$ 751 milhões, representando uma queima de caixa. 

Gerar e preservar caixa virou um mantra para as empresas em meio à alta dos juros, que tornou mais caro a busca por financiamentos. A situação é ainda pior para companhias consideradas de “crescimento”, como é o caso da PagSeguro, que tendem a ter maior gasto para financiar crescimento. 

Além disso, a empresa está inserida em um mercado muito competitivo. O setor de adquirência no Brasil cresceu muito nos últimos anos, depois que o duopólio entre Cielo, com VisaNet, e Rede, com RedeCard, foi quebrado.

Junto com a própria PagSeguro, surgiram outros nomes para concorrer, como a Stone, CloudWalk, entre muitos outros players. Em maio, o Nubank anunciou também sua entrada neste mercado com uma solução de pagamentos por aproximação.

No resultado, a PagSeguro destacou que o caixa utilizado para financiar as atividades foi influenciado pela compra de maquininhas para recompor seus estoques, afetados pela falta de semicondutores no ano passado.

Os analistas do BTG Pactual, que teceram alguns elogios para o desempenho operacional, destacaram que o investimento ficou duas vezes acima da média trimestral de 2021, citando que essa linha está em alta desde o IPO, em 2018, prejudicando a rentabilidade. 

Com as operações não gerando os recursos necessários para garantir os investimentos necessários para competir e crescer, a empresa pode ter que acabar recorrendo a recursos no mercado. Esta é uma situação vista de forma muito negativa atualmente pelos mercados, que estão em busca de ativos que conseguem caminhar por conta própria. 

“O mercado está diminuindo a noção de risco que aceita para financiar um projeto”, diz Augusto Caramico, analista na Garín Investimentos. “A PagSeguro está queimando caixa e aparentemente não consegue ter uma geração de caixa suficiente para manter a qualidade do resultado.”

Exagerado

Enquanto o mercado reagiu negativamente ao que viu no resultado da PagSeguro, o analista Pedro Leduc, do Itaú BBA, manteve a sua avaliação em relação ao desempenho, vendo que a reação do mercado foi exagerada. 

Ele, junto com William Barranjard e Mateus Raffaelli, divulgou um relatório dizendo que os resultados vieram melhor que o esperado, diante do maior “take rate” (taxa cobrada em cada transação), que atingiu 2,60%, e melhora da alavancagem operacional. 

Embora reconheça a situação do fluxo de caixa, puxada pelo aumento do investimento, ele acredita que a reação foi exagerada quando se olha o resultado como um todo e o fato de que este aumento de gastos não deve se repetir mais adiante. 

Para Leduc, a forte reação do mercado se explica pela questão do investimento, mas também pelo guidance. Embora a companhia tenha divulgado que a receita deve crescer 5% no segundo trimestre, em comparação com o desempenho do primeiro trimestre, e o lucro líquido deve ficar entre R$ 370 milhões e R$ 380 milhões, o mercado esperava projeções maiores. 

Esses dois fatores, combinados pela valorização de 38% nos últimos 30 dias, em meio a um grande otimismo com relação ao desempenho, resultaram na queda expressiva vista hoje.

“O guidance do segundo trimestre não surpreendeu, ficando em linha com o número que podemos apurar do segundo trimestre”, afirma Leduc. “E como a expectativa já estava muito alta, o mercado juntou os três fatores e deu uma realizada.”

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