Nem só de “cancan” vivem os cabarés de Paris

Os cabarés de Paris incrementam operações com bares e restaurantes, transformam coreografias, apostam em diversidade de corpos e atraem franceses e turistas numa fase próspera em contraste com o fechamento do icônico Lido

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O cabaré Paradis Latin investiu em shows pirotécnicos e menu assinado pelo chef Guy Savoy

O mundo das plumas e paetês sofreu um forte baque na França quando o Lido, um dos grandes cabarés parisienses anunciou, há um mês, o fim de seu espetáculo, praticamente tão conhecido em Paris quanto a torre Eiffel e que atraía espectadores de todo o planeta.

O grupo Accor, poucos meses após ter comprado da Sodexo esse patrimônio da vida noturna da capital francesa, anunciou que irá transformá-lo numa casa de shows, voltada para comédias musicais.

O Lido não foi o único a atravessar momentos complicados nos últimos anos, mas apesar das dificuldades causadas pela pandemia de Covid-19, a concorrência tem se saído melhor. Os outros três grandes cabarés da cidade – o Moulin Rouge, o Crazy Horse e o Paradis Latin – já adotaram estratégias para se adaptar aos novos tempos e vêm se reinventando para conquistar outros públicos.

Há cerca de 220 cabarés na França, que empregam cinco mil pessoas. Eles ficaram totalmente fechados durante vários meses em razão da pandemia de Covid-19, mas receberam auxílios do governo. Com a volta dos turistas, a taxa de ocupação está voltando aos patamares de 2019.

Criado há 76 anos, o Lido atraiu celebridades internacionais tanto na plateia, entre elas o pintor Salvador Dalí, quanto no palco, onde Piaf, Dalida, Josephine Baker ou ainda Elton John se apresentaram. As negociações com os sindicatos devem se estender até meados de agosto e a cortina do cabaré deverá fechar definitivamente até setembro. Quase todos os artistas e funcionários serão demitidos.

Com 80 milhões de euros de prejuízo, o Lido foi vendido para o grupo Accor por um euro simbólico. Na avaliação de profissionais ligados ao setor, o cabaré tinha custos altíssimos – um aluguel exorbitante na avenida Champs-Elysées, estimado em 5 milhões de euros por ano, além de uma companhia de dança enorme para preencher o local com mais de mil lugares – e, ao mesmo tempo, uma taxa de ocupação baixa, de 42% em média há anos. Não houve “french cancan” que resistisse.

O também famoso Moulin Rouge mantém o espetáculo Féerie desde 1999. Em vez de novas apresentações, o estabelecimento preferiu se diversificar e possui agora mais dois locais de atividades: um bar ao lado com terraço, nas proximidades do moinho vermelho que orna a fachada tão fotografada desse cabaré no bairro de Pigalle, além de uma outra casa de shows, a Machine du Moulin Rouge, que era a antiga discoteca Locomotive.

O salão de 850 lugares do Moulin Rouge

Com uma sala com capacidade para 850 pessoas, os dois espetáculos diários do Moulin Rouge, um deles com jantar, estão praticamente lotados todas as noites, segundo sua assessoria de imprensa.

“Os que afirmam que o cabaré é um estilo ultrapassado que olhem para as nossas reservas e para as centenas de artistas que fazem testes de seleção para integrar nosso grupo de dançarinos”, declarou recentemente Jean-Jacques Clerico, proprietário do Moulin Rouge. A família Clerico, aliás, é a mesma que fundou o Lido.

Na avaliação de profissionais da área, o cabaré de Pigalle ainda se beneficia do sucesso do filme Moulin Rouge, lançado em 2001. Sua clientela é majoritariamente de turistas (60%), principalmente anglo-saxões.

Há também operações de marketing. Pela primeira vez na história, o quarto dentro do moinho, jamais aberto ao público, foi decorado no estilo Belle Époque e proposto na plataforma Airbnb por apenas 1 euro a noite. Três casais puderam se beneficiar em junho dessa oferta excepcional. Por enquanto, não há planos de renová-la.

A transformação mais acentuada nesse estilo de espetáculo foi feita pelo Paradis Latin, adquirido em 2018 pelo franco-brasileiro-americano Walter Butler. O Paradis Latin afirma ser o mais antigo cabaré de Paris, inicialmente um teatro construído por Napoleão Bonaparte, que após um incêndio foi restaurado por Gustave Eiffel. “Modernizamos totalmente e é por isso que funciona”, disse Butler ao NeoFeed.

Quando comprou o local, Butler decidiu reformular completamente o show. Contratou um coreógrafo famoso na França, Kamel Ouali, que realizou diversas comédias musicais, com o objetivo de “rejuvenescer” a apresentação.

Resultado: o espetáculo “Oiseau Rare” (pássaro raro, em francês) utiliza tecnologias digitais e lasers, tem um repertório musical contemporâneo, novos figurinos e dançarinos com diferentes tipos físicos, para representar a diversidade, enquanto em outros cabarés os corpos das dançarinas são idênticos.

Até mesmo a dança do “french cancan”, que continua existindo no estilo tradicional no Paradis Latin, ganhou outras duas versões, uma delas com ares de dança de rua ao som de funk. “O faturamento foi multiplicado por dois em relação ao espetáculo que existia antes, quando comprei o cabaré”, afirma Butler, sem dar números.

Ele também investiu em obras no local, criou um bar e passou a oferecer no jantar um cardápio elaborado pelo chef Guy Savoy, três estrelas no guia Michelin há 20 anos com o restaurante que leva seu nome. Butler diz que, diferentemente dos outros cabarés, quase 80% de sua clientela é francesa. Agora, os turistas estão de volta a Paris, mas os franceses continuam sendo majoritários.

No Paradis Latin, há um pré-show, que começa antes do jantar, logo que os clientes entram na sala, com dançarinos circulando, cantores e músicos. Para se assegurar que os espetáculos de cabaré despertem o interesse dos mais jovens, Butler irá lançar, em outubro, um espetáculo para crianças, apresentado às tardes, que já está sendo preparado.

O Crazy Horse criou um espaço mais intimista

Num estilo diferente dos demais cabarés, o Crazy Horse, o único a ter dançarinas com nu integral em algumas partes do espetáculo, que é sofisticado em termos de iluminação e coreografias, optou por reduzir o número de lugares para 220, criando um espaço mais intimista, e apostou em um novo público.

“A clientela se tornou mais jovem e se feminizou também. Vemos muitos grupos de mulheres jovens”, afirmou Philippe L’Homme, presidente do Crazy Horse ao canal de TV TF1. Pelo visto, a expressão “Paris, capital mundial dos cabarés” continuará sendo utilizada pela prefeitura da cidade, apesar do fechamento do Lido.

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