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No PIX, uma lista é a chave da discórdia entre bancos e fintechs

A divulgação da lista de cadastramento no PIX fez eclodir uma guerra nos bastidores do mercado financeiro. Entenda como cada um tem se movimentado nesse tabuleiro

 

A lista de chaves cadastradas no PIX, divulgada pelo Banco Central, causou alvoroço na mídia, nas redes sociais e nos corredores das principais instituições financeiras do Brasil. Os números mostram uma grande vantagem das fintechs em relação aos bancos tradicionais, que gastaram caminhões de dinheiro em propaganda e contam com milhões de correntistas em suas bases.

Segundo o BC, já são 33,7 milhões de cadastros de identificação para o uso do PIX. O Nubank lidera com 8,08 milhões, seguido por Mercado Pago, com 4,73 milhões; PagSeguro, com 4,31 milhões; Bradesco, com 3,71 milhões; e Caixa, com 2,49 milhões de usuários.

Completam a lista o Banco do Brasil, com 2,14 milhões; o Itaú Unibanco, com 1,75 milhão; o Santander, com 1,63 milhão; o PicPay, com 1,13 milhão; o Banco Inter, com 889 mil; o Banco Original, com 523 mil; e o C6, com 335 mil.

A divulgação da lista foi o primeiro ponto a gerar ruído. De acordo com uma nota publicada pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, um grande banqueiro teria reclamado da governança do BC em relação a essa questão. Procurados pelo NeoFeed, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander afirmaram que não fizeram nenhum tipo de reclamação e não se pronunciaram sobre o assunto.

O NeoFeed confirmou com fontes do mercado financeiro que a revelação da lista, de fato, causou desconforto e que houve uma reclamação informal da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) junto ao BC. “Na sanha de mostrar que está estimulando a competição, o BC acabou aumentando a tensão entre os bancos tradicionais e as fintechs”, diz uma fonte por dentro do assunto.

Por conta disso, o presidente da entidade, Isaac Sidney, teria ligado para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Indagada pelo NeoFeed, a Febraban, por meio de sua assessoria de imprensa, não respondeu sobre essa questão até o fechamento da reportagem. E enviou o seguinte posicionamento: “sobre questões relativas ao cadastramento do PIX, o Banco Central já se manifestou em nota.”

A nota do BC a qual a Febraban se refere é essa: “O Banco Central informa que monitora e supervisiona continuamente o processo de cadastramento de chaves PIX, já tendo iniciado processos formais de fiscalização de participantes. Caso detecte irregularidades nesses processos, incluindo eventuais cadastramentos indevidos, o Banco Central punirá os infratores nos termos da regulação vigente.”

O Banco Central teve de se pronunciar porque, a reboque da divulgação da lista, vieram à tona acusações de que as fintechs teriam feito cadastros de chaves sem o consentimento de clientes ou induzido seus correntistas a fazer o cadastro de várias chaves automaticamente.

Começaram a circular, inclusive, prints de redes sociais e do site Reclame Aqui, onde usuários reclamam de instituições como Nubank, Mercado Pago e PagSeguro. Há também relatos de cadastramento indevido feito pelo Banco do Brasil.

No site Reclame Aqui, entre o trio de fintechs no topo do ranking do PIX, quem lidera o número de queixas dos usuários sobre supostos cadastros sem autorização ou dificuldades para excluir as chaves é o Mercado Pago. Na sequência, vem a PagSeguro. O Nubank, pelo menos em relação ao PIX, pouco aparece na plataforma.

“Se eles fizeram isso, um cadastramento sem comunicar os clientes, é grave”, diz uma fonte do setor ao NeoFeed. “Isso pode fazer com que o Banco Central aumente as amarras sobre a plataforma.” Essa mesma fonte faz, no entanto, uma ponderação. “Se o BC checar e não encontrar nada de errado, isso evidencia que essas fintechs fizeram um excelente trabalho.”

Em nota, o Nubank ressaltou que “todas as chaves foram cadastradas com a devida autorização dos clientes” e que, em 5 de outubro, um pedido de consentimento via aplicativo foi enviado a todos aqueles que haviam feito um pré-cadastro.

O Mercado Pago também reforçou, via comunicado, que não há efetivação do cadastro sem que o cliente dê a autorização aprovando o registro da sua chave. Segundo a empresa, esse fluxo passa pelo envio de uma comunicação por meio do aplicativo informando a possibilidade de cadastrar as chaves de e-mail, CPF/CNPJ, para que o usuário escolha quais delas deseja registrar.

Na mesma linha, a PagSeguro informou que os cadastros de chaves foram enviados ao BC somente após a confirmação dos clientes via app ou site da fintech. “Não registramos reclamações de cadastros PIX indevidos em nossos canais de atendimento. Se houver, trataremos imediatamente”, destacou a empresa.

O Banco do Brasil, por sua vez, ressaltou que “oferece o cadastramento das chaves do PIX nos canais digitais e na agência, seguindo todo os protocolos definidos pelo Banco Central”.

Corrida silenciosa

Em agosto, o NeoFeed foi o primeiro veículo a noticiar sobre a corrida silenciosa, entre os bancos e as instituições de pagamentos, que vinha ocorrendo pelo pré-cadastramento das chaves. Agora, a discussão é sobre o cadastramento efetivo. Nos bastidores, o que está sendo posto em dúvida é se as fintechs transformaram o pré-cadastramento em cadastramento, sem avisar os clientes.

O que chamou a atenção foi a disparidade dos números, uma diferença muito elástica. O Nubank, por exemplo, tem 30 milhões de clientes, dos quais 26 milhões possuem a conta digital Nuconta. E converteu 8 milhões, mais de 30% para o cadastramento. Já o Mercado Pago tem mais de 20 milhões de usuários no País e converteu 23,6%. O PagSeguro, por sua vez, conta com mais de 6 milhões de clientes ativos e converteu quase 72% da sua base.

O Bradesco tem 70 milhões de clientes e 31 milhões de correntistas. E, até o momento, converteu 11,9%. O Itaú Unibanco tem 56 milhões de clientes, mas não revela a quantidade de correntistas. Mesmo assim, 1,75 milhão de cadastros é pouco para o maior banco privado do Brasil. Já o BB cadastrou cerca de 5,5% dos seus 38,3 milhões de correntistas.

O Santander, com 26,8 milhões de clientes ativos, gastou uma fortuna com uma campanha publicitária protagonizada pela atriz Ana Paula Arósio. No mercado, estima-se que o cachê de Arósio tenha alcançado R$ 8 milhões. Criou ainda um sorteio de R$ 1 milhão para quem registrar telefone e CPF como chaves do PIX. O banco, entretanto, atingiu “apenas” 1,65 milhão de cadastros.

Uma fonte do mercado diz ao NeoFeed que esses números também podem ser olhados de outra forma. “Sem entrar no mérito se as fintechs fizeram cadastros de clientes sem avisá-los, a taxa de conversão dos grandes bancos, que gastaram muito dinheiro nisso, está baixa”, diz ele.

Já o executivo de uma das fintechs ressalta que a empresa está tranquila em relação aos processos e, diz ele, “tem tudo documentado para mostrar que os cadastramentos ocorreram de acordo com as regras”.  Quem dará a última palavra sobre isso será o Banco Central. Agora, é aguardar as cenas dos próximos capítulos.

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