Nos IPOs de 2021, a diferença que separa a Intelbras da Dotz

Quase 80% dos 45 IPOs que aconteceram no Brasil estão abaixo do preço da oferta em 2021. O melhor desempenho é o da Intelbras. O pior, da Dotz. O que esperar do próximo ano

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Em 2021, foram 45 ofertas iniciais de ações na B3. No ano passado, 29

O megainvestidor Warren Buffett tem dois princípios simples para investir. “Regra nº 1: nunca perca dinheiro. Regra nº 2: não se esqueça da regra nº 1”, disse ele, em certa ocasião.

Os investidores que participaram de boa parte das aberturas de capital no Brasil em 2021, no entanto, não estão seguindo as duas regras de ouro de Buffett.

Quase 80% dos IPOs neste ano estão sendo negociados abaixo do preço da oferta, segundo um levantamento realizado pelo NeoFeed, que considera o preço fixado antes do primeiro dia de negociação da ação na B3 até 28 de dezembro – não foi levado em consideração para a análise os follow ons.

Neste ano, foram realizadas 45 ofertas iniciais de ações na B3, que captaram R$ 65,2 bilhões, uma alta de 48,5% em comparação a 2020, quando aconteceram 29 IPOs. A maior abertura de capital deste ano foi a da empresa de combustíveis Raízen, que captou R$ 6,7 bilhões. Ela é seguida pela CSN Mineração, que levantou R$ 4,9 bilhões e pela Caixa Seguridade, com R$ 4,3 bilhões.

Apenas 10 empresas estão sendo negociados acima do preço da oferta em 2021, o que representa 22% do total dos 45 IPOs. O melhor desempenho entre as empresas que abriram o capital é o da fabricante de câmeras e equipamentos de segurança eletrônica Intelbras, que vale R$ 8,7 bilhões. A companhia fez sua estreia na bolsa de valores em fevereiro, quando captou R$ 1,3 bilhão. Seus papéis acumulam alta de 74,7% desde então.

Em segundo lugar vem a empresa de sementes agrícolas Boa Safra (alta de 59,6%), a de locações de equipamentos pesados Armac (58,7%) e de fertilizantes e defensivos Vittia (57%).

Na ponta inversa, as companhias de tecnologia estão liderando as maiores perdas entre aquelas que estrearam na B3 em 2021. Dos cinco piores desempenhos, quatro são dessa área.

O pior desempenho é da companhia de fidelidade Dotz, cujas ações se desvalorizam-se 78,3% desde o IPO no fim de maio. Na ocasião, a empresa, que tenta mudar seu modelo para o de uma fintech, captou R$ 390,7 milhões e contou com âncoras de peso, como Softbank e Ant Financial, a fintech chinesa controlada pelo Alibaba. Atualmente, vale R$ 362 milhões.

Neste ano, as ofertas iniciais de ações movimentaram R$ 65,2 bilhões, uma alta de 48,5% em comparação a 2020

Na sequência vem a Mobly, um e-commerce de móveis e de decoração, que viu seus papéis perderem 76,7% do valor desde a abertura de capital em fevereiro. Hoje, a companhia é avaliada em R$ 500 milhões.

Fecham a lista das empresas que mais se desvalorizaram desde o IPO a OceanPact, de serviços marítimos, cujas ações caíram 74,9%; o marketplace de serviços domésticos GetNinjas (- 71,8%) e o e-commerce Westwing (- 71,5%). Em 2021, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, acumulava uma queda de 12,10% até 28 de dezembro.

O cenário brasileiro não difere tanto assim do americano. Lá, das quase 400 empresas que abriram o capital, 255 estão sendo negociadas abaixo do preço abaixo do IPO, o que representa aproximadamente dois terços das companhias que se tornaram públicas em 2021.

O que explica esse desempenho dos IPOs? Para dois gestores ouvidos pelo NeoFeed, o processo de subida dos juros, que saíram de 2% e devem alcançar um patamar de 12% em 2022, somado a questões políticas, fiscais e de inflação estão por trás desse resultado ruim.

“Não tem jeito: se a gente convive com um cenário de subida de juros, o custo do capital é maior”, diz Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos. “Com isso, as empresas sem histórico na bolsa acabam sofrendo mais.”

Esse cenário faz com que os investidores busquem alternativas mais seguras e de maior liquidez, fugindo das chamadas small caps. “É o chamado ‘fly to quality’, em que o investidor busca ativos de maior qualidade e menos suscetíveis aos movimentos econômicos”, afirma Alexandre Brito, sócio da gestora Finacap, de Recife, que tem R$ 1,2 bilhão de ativos sob gestão.

As empresas de tecnologia, que acabaram de abrir o capital, sofrem mais do que as demais. O motivo? De acordo com Villegas, muitos dos IPOs das empresas de tecnologia na B3 saíram com precificações, em termos de múltiplos, próximos de pares globais. Mas a mudança do cenário, com a subida de juros, afetaram as suas avaliações.

“Elas têm um fluxo de caixa concentrado no futuro e geram pouca receita frente ao nível de investimento atual”, diz Villegas. O sócio da Finacap complementa: “Elas são mais suscetíveis ao aumento de juros e têm um valor grande a capturar no futuro”, afirma Freitas.

Em 2022, a expectativa é de menos IPOs e mais follow ons. Até agora, pelo menos seis empresas já indicaram que devem tentar estrear na bolsa no começo do próximo ano, se o ambiente estiver favorável – no segundo semestre, próximo às eleições, o mercado deve estar com a janela fechada para captações.

Entra elas estão a CSN Cimentos, a estatal gaúcha de saneamento Corsan, a empresa de leilões Superbid, a de segurança Verzani & Sandrini, a atacadista Tambasa, a companhia de pneus Cantu Store e a rede de academias Self It. O mercado espera também alguns follow ons que devem movimentar muitos bilhões de reais, como os da BRF, Braskem e Eletrobras.

Outra tendência que deve ser observada ao longo de 2022 é o de fusões e aquisições. As empresas que captaram neste ano estão com o caixa cheio e devem intensificar os M&As em um momento em que o preço das ações está baixo.

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