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O dia em que o Congresso americano colocou os titãs da tecnologia na parede

Mark Zuckerberg, Tim Cook, Sundar Pichai e Jeff Bezos passaram quase seis horas respondendo às perguntas de congressistas republicanos e democratas. Acusações de monopólio, abuso de poder e práticas antitruste foram trazidas à tona. O NeoFeed acompanhou tudo e traz os principais pontos discutidos

 

Em sentido horário, começando pelo topo, à direita: Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Tim Cook e Sundar Pichai

Se levássemos em consideração o salário/hora dos entrevistados, a audiência organizada pelo subcomitê antitruste do Congresso americano na última quarta-feira, 29 de julho, custaria mais de US$ 70 milhões aos cofres públicos. Mas a verdade é que a reunião (mesmo que virtual) de alguns dos maiores CEOs do mundo não tem preço – ainda. 

Por quase seis horas, 15 congressistas republicanos e democratas questionaram quase ininterruptamente Sundar Pichai, da Alphabet; Jeff Bezos, da Amazon; Tim Cook, da Apple; e Mark Zuckerberg, do Facebook.  

Munidos com o resultado de 13 meses de pesquisas e investigações independentes, os políticos americanos conduziram o que é, até agora, a maior ofensiva pública contra as chamadas big tech. Elas são acusadas de práticas antitruste, monopólio e abuso de poder. 

A dimensão do interrogatório foi tamanha que a imprensa americana comparou esse evento ao célebre caso das gigantes de tabaco, que, em 1994, foram convocadas pelo Congresso americano a depor sobre acusações de que o cigarro fazia mal à saúde.

Na ocasião, também quatro CEOs se apresentaram: os da RJ Reynolds, Phillip Morris, Brown & Williamson e Lollilard. Todos eles cumpriram os ritos, juraram solenemente falar a verdade, nada mais que a verdade… e mentiram. 

Os executivos disseram não acreditar nos estudos apresentados pelos congressistas. Poucos meses depois, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos deu início a uma investigação de perjúrio, que eventualmente culminou na demissão de todos os executivos.

Nenhum deles pode, contudo, ser processado por falso-testemunho porque, instruídos por seus advogados, eles disseram “não acreditar”, o que dá ao depoimento um caráter pessoal e irrefutável.

Apesar disso, a indústria foi penalizada. Em 1998, as principais companhias de tabaco assinaram o que ficou conhecido como Contrato Principal de Liquidação de Tabaco, que entre outras coisas estipulava regras para a indústria e o pagamento de US$ 365 bilhões ao departamento de saúde para cobrir os gastos provocados pelo vício do cigarro.   

Ainda que o cenário pareça diferente, dada a natureza dos negócios tecnológicos, vale lembrar da frase do fundador e CEO da Salesforce, Marc Benioff, que, em 2018, afirmou que “o Facebook é o novo cigarro”. Na época, o empresário usou a expressão para falar do vício gerado pela rede social e de como o setor carecia de regulamentação.

Embora a opinião de Benioff tenha conquistado as manchetes, esse tipo de pensamento e discussão já era popular – e ganhou ainda mais força com o tempo. Tanto que o Congresso já havia convocado Zuckerberg e Pichai a depor em outubro de 2019. Ambos tiveram de responder a perguntas relativas à conduta do Facebook e Google, respectivamente, durante a corrida presidencial americana.

Esse assunto custou “caro” ao Facebook, que foi condenado pela Federal Trade Commission (FTC) a pagar uma multa de US$ 5 bilhões por violação de privacidade. A penalidade aconteceu mediante comprovação do envolvimento do Facebook no escândalo da Cambridge Analytica, decisivo para o Brexit e a eleição de Donald Trump. 

O Google, anos antes, já havia sido condenado por questões de privacidade. Em 2012, a União Europeia aplicou uma multa de 1,49 bilhão de euros por concorrência desleal em publicidades e violação das leis antitruste. A entidade entendeu que a empresa californiana abusou de seu domínio de mercado ao impor uma série de cláusulas restritivas em contratos com sites terceiros, prejudicando a concorrência.

Essas repetidas acusações e penalizações inflamam o discurso que propõe a “quebra” das big tech, uma teses defendida pela senadora Elizabeth Warren, que tentava a vaga democrata na disputa pela presidência americana. Na proposta original de Warren, WhatsApp e Instagram, por exemplo, deveriam voltar a ser empresas independentes, e não mais parte do Facebook.

Com a crise do novo coronavírus, as big tech foram as maiores beneficiadas. O valor de mercado da Amazon, por exemplo, cresceu quase 61% desde quando a pandemia chegou aos EUA, em março. Hoje, ela vale US$ 1,5 trilhão.

Na mesma época, o Facebook avançou cerca de 60%, sendo avaliado em US$ 665 bilhões, enquanto a Apple cresceu mais de 50% e atingiu valor de mercado de US$ 1,6 trilhão. A Alphabet, por sua vez viu seus papéis subirem mais de 40% e sua capitalização ultrapassou US$ 1 trilhão. 

Essa disparada “histórica”, contrastando com toda a lógica (e experiência) do mercado, dá fôlego à teoria de que o índice S&P 500 também deveria “quebrado” para se tornar o índice S&P 495. Assim, o “Big 5”, como é chamado o grupo de Alphabet, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft, teria um índice próprio, que flutue de acordo com o desempenho extraordinário das companhias.  

O presidente do comitê que investiga as big tech, David Cicilline, indicou que as coisas vão mesmo mudar. “A audiência deixou uma coisa bastante clara: essas companhias, da forma como existem, têm poder de monopólio. Algumas precisam ser quebradas e todas precisam ser regulamentadas e cobradas de acordo com sua atuação. Precisamos garantir que as leis antitruste, escritas mais de um século atrás, funcionem na era digital”, disse.

O NeoFeed acompanhou as seis horas de depoimento dos maiores titãs da indústria e selecionou os principais trechos. Acompanhe:

Ctrl C + Ctrl V: Copiar e matar

As empresas Yelp e Genius atuam em segmentos completamente diferentes: a primeira foca no acúmulo de reviews de serviços e estabelecimentos, enquanto a outra é uma plataforma de letras de música. Em comum, elas têm uma única coisa: se queixam do Google.

Ambas as empresas alegam que a companhia do grupo Alphabet roubou parte de seu conteúdo sem autorização e apresentaram provas de suas reclamações. A Yelp foi além, alegando que, quando confrontou o Google, obteve como resposta um ultimato – ou ela se deixava copiar ou seria banida do buscador. 

Sobre as acusações, trazidas mais uma vez à tona pelo congressista David Cicilline, presidente da audiência, Pichai foi evasivo – e seguiu à risca a estratégia das empresas de cigarro:

“Não acredito que isso tenha acontecido”.

Para lavar a roupa (e a fralda) suja…

Com a palavra, a advogada Mary Gay Scanlon voltou a tocar em uma “ferida” da Amazon: a diapers.com, um comércio eletrônico especializado em fraldas. Depois de ter sua proposta de compra negada pela Quidsi, controladora da diapers.com, a gigante de Bezos teria dado início a uma guerra de preço ilegal.

A congressista apresentou e-mails vazados pela equipe da Amazon, em que a companhia afirma poder perder até US$ 200 milhões para “virar o jogo”. A Amazon comprou a diapers.com, em 2010, por US$ 545 milhões, e encerrou suas atividades em 2017. 

Questionado sobre essa prática, no mínimo duvidosa, Bezos foi sucinto:

“Não me lembro disso”. 

Monopólio do Facebook? Zuckerberg diz que não 

Desde o começo dos questionamentos, o criador da maior rede social do mundo aponta para seus competidores, para justificar seu ponto de vista de que não existe um monopólio no setor de mídias sociais. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro quando o Congresso exibiu um gráfico criado e explorado pelo próprio Facebook, em 2012, em que mostra a rede social “dominando” 95% de todas as mídias sociais nos Estados Unidos.

Sem inovar, Zuckerberg voltou a apontar dedos para dizer que não, não pratica monopólio. “O serviço de mensagens mais popular no país é o iMessage, e o aplicativo que mais cresce é o TikTok. O app mais popular para vídeos é o Youtube, e a plataforma de anúncio que mais cresce é a Amazon, sendo que a maior delas é o Google. Para cada dólar gasto com publicidade nos Estados Unidos, menos de US$ 0,10 são dedicados ao Facebook”.  

Facebook tinha planos de comprar o Google?

O congressista Joe Neguse queria abordar a prática de aquisições do Facebook, que parecia ter como alvo possíveis concorrentes. Na fala do político, ele relembrou os casos do Instagram e do WhatsApp.

Citando trechos de emails vazados, Neguse afirma que a rede social entendia essas duas empresas como possíveis “ameaças” e que, portanto, a oferta de compra parecia ferir as práticas dos negócios americanos. “Em vez de competir com eles, o Facebook os comprou. É exatamente o tipo de aquisição predatória que temos que prevenir”, disse o congressista.

Em sua réplica, Zuckerberg defendeu a movimentação, chegando a citar inclusive a aprovação do FTC, que “provavelmente tinha esses documentos”.

Apesar da discussão polêmica o que chamou mais atenção foi um trecho de um e-mail assinado pelo próprio Zuckerberg, e lido em alto e bom tom por Neguse: “Uma razão pela qual as pessoas subestimam a importância de observar o Google é que provavelmente podemos comprar qualquer startup que seja competitiva. Mas levará um tempo até que possamos comprar o Google”.

O fundador do Facebook não rebateu essa passagem exposta pelo congressista. 

Uma família contra a Amazon

Para deixar a discussão mais humanizada, a democrata Lucy McBath cedeu parte de seu tempo para a reprodução de uma gravação em que uma mulher não identificada conta sua experiência com a Amazon.

Segundo a moça, ela e sua família começaram a vender livros na plataforma de Bezos e trabalharam duro para honrar todas as avaliações positivas que tinham. Em três anos, o negócio cresceu cinco vezes, o suficiente para sustentar uma família de 14 pessoas.

Mas o sucesso da pequena empresa começou a incomodar a própria Amazon e, segundo o depoimento da empreendedora, eles foram penalizados. “Primeiro tivemos alguns títulos censurados, mas agora faz 10 meses que não vendemos um único livro”. A congressista americana disse que outras experiências semelhantes foram levadas até ela.

Confrontado por essa história, Bezos se mostrou estarrecido: “Estou surpreso, não é o approach sistemático que temos. Quero falar com ela e entender melhor a situação.”

Trabalho escravo

Todos os quatro CEO foram convocados pelo republicano Ken Buck a prometer que não tolerariam o uso de mão-de-obra escrava ou em condições análogas à escravidão.

A fala de Buck ecoa a notícia de que a China estaria explorando a minoria muçulmana Uigur para a confecção de produtos. A Apple, que já se viu em meio a essa discussão por conta das práticas de sua parceira chinesa Foxconn, foi mais enfática na fala.

Tim Cook, além de se comprometer aos termos, acrescentou: “Deixe-me ser claro: o trabalho forçado é abominável e não toleramos isso na Apple.”

Alexa, a voz que tudo sabe

De volta à Amazon, os congressistas jogaram luz nas acusações de que a empresa estaria vendendo suas caixas de som inteligentes, Echo, por um preço abaixo do custo de produção, ferindo a concorrência. Bezos disse que essa prática não acontece, “a não ser que seja uma promoção”. 

Embora o Echo possa abrigar outros assistentes virtuais, ele é mais comum por ser a “casa” da Alexa. E aí entra outra preocupação para os reguladores americanos, que afirmam que a assistente da Amazon privilegia os produtos da marca, quando solicitadas para fazer uma compra online.

“Não me surpreenderia se a Alexa comprasse alguns dos nossos produtos”, foi tudo o que Bezos disse sobre o assunto. 

Guerra às Fake News 

Um dos pontos mais aguardados do dia talvez fosse a questão do mecanismo de controle do Facebook para evitar a disseminação das notícias falsas. O problema é que republicanos e democratas, às vezes, têm visões diferentes sobre o tema.

Durante a audiência, diversos congressistas republicanos, aliados de Donald Trump, indicaram que são perseguidos pelas grandes empresas de tecnologia, inclusive o Facebook, enquanto os democratas apontam demora na ação da rede social para “derrubar” conteúdo inverídico.

Um dos políticos chegou a citar que um vídeo chegou a ser visto por 200 milhões de usuários no Facebook antes de ser tirado do ar por se tratar de uma fake news.

Ao explicar o que faz neste sentido, Zuckerberg afirmou apenas que “o Facebook conta com 75 parceiros externos ao redor do mundo para verificar as informações. Porque não acha certo que a rede social seja quem diga o que é verdade e o que é mentira”.

Ou seja, não trouxe nenhuma novidade ou uma ação efetiva para conter o problema que cresce na rede.

O “roubo” chinês e o isolamento de Zuckerberg

Bastante direto, um congressista republicano dirigiu uma única pergunta a todos os entrevistados: você acredita que o governo chinês rouba tecnologia ou propriedade intelectual de empresas americanas?

Tanto Bezos, quanto Pichai e Cook afirmaram terem lido a respeito das acusações, mas que não tiveram nenhuma experiência pessoal que comprove as suspeitas.

Zuckerberg, neste caso, se isolou dos colegas e foi mais categórico. “Está documentado que a China se apropria da tecnologia de empresas americanas.” 

A maçã do pecado

Tim Cook defendeu, em diferentes momentos, a App Store, sempre com os mesmos números. “Começamos com 500 aplicativos, hoje são mais de 1,7 milhão.” Mas não consta na lista alguns dos apps que competiam diretamente com certos serviços da empresa da maçã.

Uma congressista democrata lembrou que, depois que a Apple levou ao ar o aplicativo Screen Time, que tem finalidades organizacionais de tempo, a empresa “coincidentemente” removeu de sua loja os dois principais concorrentes. 

Cook defendeu que a medida se deu para “proteger a privacidade de seus usuários” e não se estendeu no assunto.

O executivo também garantiu que a Apple não aumentou o preço de sua comissão durante a pandemia e que continua cobrando 15% ou 30% dos apps de inscrição, como sempre fez. Testemunhos e evidências apresentadas pelos congressistas mostram o contrário.

Regulamentação à vista

No discurso final da audiência, o presidente do comitê, David Cicilline, indicou que as coisas vão mudar: “A audiência deixou uma coisa bastante clara: essas companhias, da forma como existem, têm poder de monopólio. Algumas precisam ser quebradas e todas precisam ser regulamentadas e cobradas de acordo com sua atuação. Precisamos garantir que as leis antitruste, escritas mais de um século atrás, funcione na era digital”. 

Ainda não há prazo para que o comitê proponha as mudanças sugeridas. 

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