O fim do mistério: o “MIT” dos sócios do BTG Pactual será erguido no IPT, no Butantã

A universidade de tecnologia criada pelos sócios do BTG Pactual ficará no Instituto de Pesquisas Tecnólógicas (IPT), no Butantã. Em entrevista ao NeoFeed, os idealizadores do projeto contam novos detalhes e explicam como ela será

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No começo de abril, quando André Esteves e Roberto Sallouti, do BTG Pactual, anunciaram um investimento de R$ 200 milhões para a criação do Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), com o objetivo de formar os profissionais e líderes em tecnologia no Brasil, ficou uma grande dúvida no ar: onde ele seria erguido?

Passado um mês do anúncio, o mistério acaba de ser revelado. A sede será no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), do governo do estado de São Paulo, no bairro do Butantã. “O IPT é um tesouro perdido no meio de São Paulo”, diz Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual e um dos idealizadores do Inteli, ao NeoFeed. O contrato tem duração de 15 anos.

Sallouti contou que a escolha do lugar aconteceu aos 45 minutos do segundo tempo. “Estávamos praticamente fechados em montar o Inteli em um prédio em Pinheiros”, diz ele sobre o descolado bairro na Zona Oeste de São Paulo. Mas, ao saber do projeto, a secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado, Patrícia Ellen convidou Sallouti para conhecer o IPT.

“Cheguei lá e fiquei apaixonado. É um campus ao estilo de Harvard ou MIT, no meio de São Paulo, com uma Mata Atlântica nativa, preservada”, afirma Sallouti. O Inteli vai ocupar dois prédios, um deles é um galpão de 1910 que terá sua fachada histórica mantida e a área interna renovada.

“Teremos uma área de campus arborizada, uma entrada pela Cidade Universitária, com uma entrada nossa”, afirma Sallouti. O projeto será tocado pela Pitá Arquitetura, que fez os escritórios do Spotify e do LinkedIn. Um dos edifícios, o galpão construído em 1910, que hoje tem 1,8 mil metros quadrados, vai mais que dobrar para 3,7 mil metros quadrados, com a construção de mezaninos.

Esse prédio vai abrigar a equipe de gestão e o corpo acadêmico, 1 mil alunos de graduação e alunos de cursos livres e pós-graduação. “Em 2025, chegaremos a uma capacidade de 1,8 mil alunos presenciais”, diz Maíra Habimorad, CEO do Inteli.

O outro edifício será convertido no que a equipe do Inteli está chamando de prédio de convivência. Ali, haverá restaurante, cafeteria, academia, enfermaria e um centro de apoio emocional para os alunos. O campus ainda terá auditório, biblioteca, laboratórios e um centro de desenvolvimento de lideranças.

Uma das áreas do Inteli, desenvolvido pelo escritório de arquitetura Pitá

Por último, uma área chamada de escritórios de projetos. No terceiro ano, a Inteli terá potencial de rodar 180 projetos ao mesmo tempo. “Temos que ter uma área que se dedique a fazer a gestão, captação e estruturação desses projetos”, diz Maíra. “E a ideia é que sejam projetos de código aberto para que a sociedade possa usar e se beneficiar deles.”

Os dois prédios, que ficam um de frente ao outro, estão pousados em uma área total de 9,7 mil metros quadrados – que será totalmente revitalizada com paisagismo. E, ao seu lado, estão empresas que montaram escritórios no chamado hub de inovação do IPT como a GranBio, o Fórum Econômico Mundial e outras quatro que serão anunciadas em breve.

Vale do Silício da América Latina

O IPT é a ponta de lança para a formação de um cinturão de empresas de tecnologia a inovação que, futuramente, vai se estender até o Ceasa, onde o governador de São Paulo, João Doria, pretende criar uma espécie de Vale do Silício da América Latina, batizado de Centro Internacional de Tecnologia e Inovação (Citi).

“Ali teremos um Vale do Silício urbano, verticalizado e totalmente focado para um mundo digital”, disse Doria em uma entrevista na qual explicou o projeto ao NeoFeed. Diante das transformações na economia, um protejo como um Citi e o Inteli são cruciais para o desenvolvimento do País que necessita de mais profissionais qualificados.

De acordo com um relatório da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, o Brasil terá um déficit de profissionais de tecnologia que pode chegar a 260 mil até 2024.

O efeito disso é devastador. Em recente entrevista ao NeoFeed, o empresário Rodrigo Dantas, que vendeu sua startup Vindi para a Locaweb por R$180 milhões, deu o seu diagnóstico sobre o problema. “Se não formarmos profissionais de tecnologia, teremos um problema grave dentro de cinco anos. Com a aceleração do Brasil sendo mais digital, o País não vai crescer”, afirmou.

A criação do Inteli tenta amenizar esse problema e a vantagem de estar no IPT é que alguns projetos dos alunos serão desenvolvidos em parceria com o próprio instituto e com as empresas do hub. Sallouti afirma que as mensalidades do Inteli, que ficará pronto em janeiro de 2022, serão equivalentes as de universidades como o Insper, mas a ideia é que 70% dos alunos sejam bolsistas. “Estamos positivamente surpresos como os empresários vão adotar e fazer parte”, diz Sallouti.

A nova universidade, que terá cursos como engenharia da computação, engenharia de software, ciência da computação e sistemas de informação, deverá fazer convênios com universidades tradicionais americanas e também com outras fora do eixo. “Tem coisas interessantíssimas acontecendo na Estônia e também em universidades como a Tec de Monterrey, do México”, diz Maíra

Os cursos vão durar quatro anos e a ideia é incentivar o empreendedorismo, a exemplo do que acontece em universidades americanas como Stanford, Harvard e Wharton, de onde nascem as ideias que se transformaram em grandes negócios. Facebook, Google e Mercado Livre, por exemplo, foram gestadas nessas universidades.

“Todo projeto será feito ou como uma empresa, ou com uma Ong ou com o próprio IPT”, diz Sallouti. Empresários como o próprio André Esteves e de fundadores de startups serão convidados a dar aulas. “O nosso sonho é que, no último ano, o projeto do aluno já seja a startup dele”, diz Sallouti. Maíra complementa explicando que o último ano será chamado de projeto de aceleração de carreira, no qual os alunos terão autonomia para propor os projetos que eles quiserem fazer.

A fachada do Inteli, cuja sede será em um galpão de 1910

A ideia é ter uma faculdade de tecnologia que não forme só engenheiro, mas que forme o engenheiro com habilidades de liderança, empreendedorismo e negócios. “Foi tudo feito ao redor disso com os valores que acreditamos: estado de direito, economia de mercado, sustentabilidade. Pessoas que vão se tornar bons líderes públicos, privados e empreendedores para justamente entender de tecnologia e transformar a vida das pessoas no Brasil para melhor.”

O currículo ficou a cargo de Maurício Garcia, ex-vice-presidente acadêmico e de inovação da Adtalem, que desenhou um modelo para, como diz Sallouti, “disruptar o ensino”. Antes de colocar o projeto para rodar, os executivos do Inteli visitaram as principais universidades americanas: desde as tradicionais como Harvard, MIT e Stanford até o que tem de mais moderno, que é o Minerva.

“Estudamos tudo o que tinha e chegamos à conclusão de um modelo que funciona, que é o project based learning, competency based learning e flipped classroom”, diz Sallouti. Aulas e palestras serão gravadas e trilhas digitais serão disponibilizadas aos alunos.

O objetivo é fazer com que o aluno vá para a faculdade para tirar dúvida, fazer projeto em grupo e trabalhos. Todo trimestre vai ter um projeto. No ano passado, um primeiro piloto, com 25 estudantes, foi desenvolvido para sentir essa dinâmica. O Inteli pediu para eles desenvolverem um sistema de inteligência artificial para monitoração de aglomeração.

Eles tiveram aula de inteligência artificial, de como fazer um plano básico de marketing, de entender a viabilidade financeira. Aprenderam várias competências de engenharia, de liderança e de negócio dentro de um mesmo projeto. “Isso é tudo bonito falado. Mas você precisa de um gênio como o Maurício para desenvolver um framework que o Mac aceita”, diz Sallouti.

Da ideia ao plano

A faísca para lançar o Inteli surgiu há dois anos, quando Sallouti e Esteves estavam no Brazil at Silicon Valley, organizado por alunos de Stanford, e, em uma conversa com Doug Leone, sócio do Sequoia, um dos principais fundos de venture capital dos Estados Unidos, descobriram que ele não investia no Brasil porque o País não formava engenheiros o suficiente.

“Na hora falei para o Esteves: ‘esse é o legado que podemos deixar para o País’”, diz Sallouti. Nos nove meses seguintes, fizeram um estudo de viabilidade, desenharam os planos para ver se o Inteli ficava em pé e resolveram implementar. O próximo passo era contratar uma pessoa para liderar o projeto. E a escolhida foi Maíra Habimorad, ex-CEO da Cia de Talentos e ex-diretora acadêmica e de inovação do Ibmec.

Quando Sallouti convidou a Maíra para o projeto ela disse na lata: “Não gosto de banqueiro”. Na época, ela estava envolvida no processo de venda da Adtalem, dona do Ibmec, para a Yduqs e falava com banqueiro a semana inteira. “Eu dizia que precisava trabalhar, não dava para falar com banqueiro o tempo todo”, brinca. Resultado: completou um ano à frente da Inteli, na quarta-feira, 5 de maio, e falar com banqueiro acabou se tornando sua rotina diária.

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