Rodrigo Dantas, da Vindi, solta a voz e diz que, no mundo dos aportes, nem tudo são flores

Diferente de empreendedores que pintam um mundo colorido regado a muita liquidez, o empreendedor, que vendeu sua empresa por R$ 180 milhões para a Locaweb, afirma que contratar profissionais virou um jogo de rouba-monte, o Brasil terá um grande problema em cinco anos, o excesso de liquidez gerou anomalias e critica alguns investidores-anjo

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Rodrigo Dantas, fundador da Vindi

Rodrigo Dantas, 39 anos, fundou a startup de pagamentos recorrentes Vindi, que recebeu aportes que somaram US$ 9,9 milhões, desde 2013; vendeu a empresa para a Locaweb por R$ 180 milhões, no ano passado; continuou no comando da companhia que fundou; virou investidor-anjo de uma série de empresas como idwall, Conta Simples e Chatpay; e ainda é investidor de fundos de venture capital como Canary e Iporanga.

Dantas, portanto, tem uma visão privilegiada do ecossistema empresarial e de investimentos. Um olhar 360 graus para todos os elos da cadeia. E, para quem acha que tudo está as mil maravilhas, com liquidez abundante e dinheiro jorrando para as startups, ele faz um alerta.

“Se não formarmos profissionais de tecnologia, teremos um problema grave dentro de cinco anos. Com a aceleração do Brasil sendo mais digital, o País não vai crescer”, afirma ao NeoFeed.

O problema atual é que, na velocidade que os cheques milionários estão sendo feitos para as startups, o País não está formando a quantidade necessária de engenheiros de software, cientistas de dados e profissionais de produtos. “Então, virou um jogo de rouba-monte”, diz Dantas, explicando que há uma concorrência insana por talentos no mercado. “Tem juniores ganhando como seniores. Profissionais que ganhariam R$ 7 mil estão ganhando R$ 16 mil”, afirma.

A maioria não permanece cinco meses na cadeira e já troca de emprego. Outros passaram a trabalhar fora do Brasil. A Vindi, por exemplo, que conta com 175 funcionários, dos quais 75 são de tecnologia, passou a contratar fora de São Paulo, buscando em outros estados como Pernambuco, Paraná, Amazonas, entre outros. Mas não é o suficiente.

Na opinião de Dantas, as empresas não podem esperar o governo e as escolas. É necessário criar estruturas para a formação de profissionais dentro de casa. “Tem que formar júnior, contratar estagiários, tem que investir em cultura e gestão de pessoas para poder segurar”, afirma.

Na entrevista a seguir, o empresário também aponta para anomalias criadas pelo excesso de liquidez no mercado de venture capital. “Os cases dos patinetes são bem emblemáticos. Você via cheques astronômicos entrando em negócios em que você se perguntava: ‘caramba, será que essa tese para em pé?’”, indaga.

Dantas também faz ácidas críticas a investidores-anjo que não têm portfólio e pouco ajudam os empreendedores e afirma que este ano será de muitas saídas e de consolidação de companhias que vão comprar startups. “A Locaweb comprou nove empresas. Esse movimento tem de acontecer em outros lugares também. Se não tiver esse efeito de liquidez, é um problemão porque o family office e o investidor não vão confiar tanto no venture capital no longo prazo”, afirma. Acompanhe:

O mercado de startups e empresas de tecnologia está nadando em liquidez. Tem muito dinheiro para essas companhias. Como você observa esse ambiente?
A gente vive um momento único no Brasil e no mundo. É muito dinheiro, muita liquidez. De um ponto de vista global, isso é bom porque o dinheiro não está indo só para negócios tradicionais. Acho que nunca vimos na história da economia global tanto dinheiro indo para empresas de tecnologia. Por outro lado, sob o ponto de vista local, cria-se um ambiente esquisito nos curto e médio prazos. Muito dinheiro cria algumas anomalias no mercado.

Que anomalias?
Especificamente no Brasil e na América Latina, não estamos acompanhando os ritmos dos investimentos que vêm acontecendo. Exemplificando melhor, há muito dinheiro no mercado, as apostas em startups aumentando, só que temos um gap muito grande de profissionais de tecnologia. No Brasil, quando uma empresa levanta uma rodada série C ou série D, ela tem que achar dentro de casa ou fazer um movimento predatório para encontrar engenheiro de software, designer de produtos, até gente de marketing. Isso não estaria acontecendo se tivéssemos uma velocidade de formação de gente de tecnologia mais estruturada.

Então há dinheiro e, ao mesmo tempo, um grande problema…
É ótimo ter liquidez no mercado, mas o que está acontecendo no jogo real é que não estamos formando a quantidade de gente de tecnologia que precisamos para que essa liquidez tenha um efeito positivo. Não estamos formando engenheiro de software, cientistas de dados e gente de produtos na velocidade que os cheques estão acontecendo no Brasil. Então, virou um jogo de rouba montes.

“Muito dinheiro cria algumas anomalias no mercado”

Que jogo de rouba-monte?
O cara que fez uma série D vai pescar no aquário de quem fez uma série B. O que fez uma série B indo pescar no do que fez uma série A. Portanto, cria-se uma anomalia no mercado. Quem está indo bem são os que realmente têm uma cultura muito forte dentro de casa, que têm plano de carreira para essas pessoas novas, mas ainda assim é muito pouco.

Por quê?
Tenho visto casos de salários muito inflados. Tem profissionais juniores ganhando como seniores. Profissionais que ganhariam R$ 7 mil estão ganhando R$ 16 mil. Isso vai ter um efeito no longo prazo. O que é positivo nesse cenário é que temos a chance de trazer esse problema para dentro de casa.

Como assim?
Cada empresa terá de resolver o problema da educação meio que sozinha. Não dá para depender de governo e de escola. Teremos de criar uma estrutura dentro das empresas para poder acelerar o desenvolvimento dessas pessoas. Hoje, é um limitador de crescimento não ter engenheiro de software, cientista de dados e designer de produtos. E, por conta disso, você vê anomalias como um profissional júnior ganhando como sênior, um sênior ganhando como vice-presidente, e vê muitas coisas ruins acontecendo.

“Você vê anomalias como um profissional júnior ganhando como sênior, um sênior ganhando como vice-presidente, e vê muitas coisas ruins acontecendo”

Que coisas ruins?
Produtividade indo para o saco, leilão no mercado e muita gente pulando de emprego muito rápido sem esquentar a cadeira.

Quanto tempo?
Cinco meses, seis meses. E na pandemia ficou mais evidente porque as fronteiras foram meio que quebradas. O pessoal do Brasil está trabalhando para qualquer empresa de qualquer lugar do mundo. Com a moeda fraca do Brasil, não dá para concorrer com o dólar e com o euro. Um júnior que ganhava aqui seus R$ 10 mil está arrumando um trabalho com os mesmos desafios e dificuldades por US$ 7 mil.

E está acontecendo isso? Estrangeiros buscando esses brasileiros?
Está acontecendo muito. É um problema global, não tem mão de obra qualificada para tecnologia no mundo. As fronteiras caíram e o recado que fica para os empreendedores é que temos de criar escolas em casa. Tem que formar júnior, contratar estagiários, tem que investir em cultura e gestão de pessoas para poder segurar. Se não fizermos isso, teremos um problema grave dentro de cinco anos. Com a aceleração do Brasil sendo mais digital, o País não vai crescer.

Mas, pelo que você está falando, depois que você formar esse profissional, ele vai receber uma proposta e vai embora…
Esse é um risco bom de se correr. O grande problema é que há, no mercado, muito dinheiro e pouca aceleração no desenvolvimento. Não vai dar para competir no futuro dessa forma. Vejo poucas empresas realmente fazendo um processo de base de formação dentro de casa. ‘Vamos trazer 30 juniores e fazer um plano de carreira para subirem para sênior? Vamos mostrar o que é ser sênior e o que é ser pleno? Quais são as responsabilidades de cada etapa? Vamos dar autonomia para eles baterem cabeça?’ É raro isso. Normalmente, o RH vai lá e diz ‘preciso de trinta seniores e vai no mercado’.

E contratar fora do Brasil?
Agora o movimento que tem acontecido é local fora do eixo São Paulo. A Vindi, por exemplo, contratou em Fortaleza, em Pernambuco, no Rio de Janeiro. Tem muita gente boa em Manaus, em Curitiba. Isso tem funcionado muito bem e acho que vai ser uma coisa muito boa para o mercado.

Agora, falando novamente em liquidez, sem olhar para mão de obra. Não tem muita startup recebendo muito dinheiro sem ter consistência? Tem muito ativo ruim no mercado?
Por ter muito dinheiro no mercado, cria-se também uma grande competição entre os fundos de ventures capital. ‘Está vindo boas oportunidades para mim? Estou chegando primeiro nelas?’ Você conhece os cases que estão crescendo e são bons. Acho que tem coisas esquisitas acontecendo no Brasil, menos do que acontecia, mas tem. Como faltam bons cases para cheques de série A e B, os fundos têm descido muito para seed. Até o ano passado, séries B e C eram raras no Brasil. Mas tem cheques indo para negócios ruins.

Quais?
Os cases dos patinetes são bem emblemáticos. Você via cheques astronômicos entrando em negócios em que você se perguntava: ‘caramba, será que essa tese para em pé?’

Por que, então, destinaram cheques tão altos para negócios cujas teses não paravam em pé?
Acho que pelo excesso de liquidez. Quando você tem pouca liquidez, você vai escolher nos mínimos detalhes. Se tivesse menos dinheiro, os investidores estariam fazendo menos apostas no mercado. Tem muita aposta hoje e o fundo tem que apostar mesmo, está no DNA de um venture capital.

Mas as apostas poderiam ser mais criteriosas…
Com menos liquidez, eles escolheriam melhor, seriam mais diligentes em alguns cases exóticos. Mas, com muito dinheiro, podem testar mais, apostar mais no mercado.

Com isso você não pode criar um problema de confiança? Por que o dinheiro é do investidor, de um family office que acredita no fundo de venture capital e bota capital lá…
Pode, mas tem uma coisa acontecendo agora. É a primeira vez que temos tantas saídas e aberturas de capital. Acho que agora começa a vir um pouco do retorno. Posso citar três cases que estão entregando retorno para cotistas e para os family offices que investiram lá atrás. A Monashees é um caso emblemático. Fez Viva Real, 99, Méliuz, Enjoei. Ali tem case de saída e retorno. Outros fundos como Crescera e General Atlantic também tiveram baitas retornos. Esse excesso de liquidez agora tem de se provar com retorno. As startups têm de ser compradas, têm de ir para a bolsa, os corporate ventures têm de funcionar.

“As startups têm de ser compradas, têm de ir para a bolsa, os corporate ventures têm de funcionar”

A Vindi foi comprada pela Locaweb…
A Locaweb comprou nove empresas. Esse movimento tem de acontecer em outros lugares também. Se não tiver esse efeito de liquidez, é um problemão porque o family office e o investidor não vão confiar tanto no venture capital no longo prazo. Neste ano, acredito que veremos cases mais legais e em mais volumes do que no ano passado.

Você acha que a gente vai ver mais aberturas de capital ou fusões e aquisições?
São poucas as empresas de tecnologia que ainda não abriram capital e podem abrir, é uma dezena de casos. VTex, Conductor, Matera e Tembici são algumas que estão no caminho de fazer. Mas tem empresas que estão crescendo e que vão fazer saídas vendendo para grandes grupos. A Stone comprou muita empresa, a Linx também, a Totvs, a Locaweb. Há um movimento claro de consolidação no mercado e consolidação é basicamente M&A.

E esse fenômeno de empresas de tecnologia ganhando espaço na bolsa?
O que está acontecendo na Bolsa é uma aposta meio que certa. Se você olhar para as empresas do futuro, coloco dinheiro em tech ou em petróleo? Acho que é uma janela importante para empreendedores que podem dar esse salto. Para que fazer uma série D ou E se eu posso listar na Bolsa? Mas há também uma questão que o jogo para o fundador na Bolsa é outro. É resultado, preto no branco. É diferente de um private equity ou de um venture capital.

O empreendedor de tech está preparado para comandar uma empresa na Bolsa?
Sempre me perguntei se eles estavam preparados para uma jornada de RI, de negociar com investidores, de mostrar as métricas. Mas acho que formamos tantos empreendedores bons na última safra. Os que estão na Bolsa agora pegaram o rabo do foguete de uma XP e de uma Stone e estão bem preparados para fazer essa jornada. Óbvio que alguns deles precisam aprender o linguajar dos banqueiros, do mercado, mas, do ponto de vista de gestão, vejo muita gente bem preparada.

“Os (empreendedores) que estão na Bolsa agora pegaram o rabo do foguete de uma XP e de uma Stone e estão bem preparados para fazer essa jornada”

E a qualidade do investidor que coloca dinheiro em startups, é boa?
Os primeiros investimentos-anjo no Brasil foram ruins, há várias histórias catastróficas para quem pegou dinheiro de investidor-anjo há sete anos. Era investidor que tomava muito equity, que se intrometia muito nas empresas. Depois, veio uma segunda onda de empreendedores que venderam suas empresas e começaram a investir. O pessoal do Mercado Livre, do Buscapé, do Peixe Urbano. Eles vieram com a cabeça de que a participação tem de ser pequena, de ajudar a não bater cabeça, de abrir a porta para novas rodadas. Mas sou crítico a outros investidores.

Que tipo de investidor?
O que chamamos de investidor de palco. O tipo do cara que fala que é o melhor investidor do Brasil, que ganha prêmio, e normalmente não tem case. O melhor investidor-anjo que existe é o empreendedor.

Mas, com o crescimento das startups, não passou a ter muito investidor-anjo ruim? Gente querendo surfar nessa onda?
Tem muita gente que fala que é investidor-anjo, mas, muitas vezes, o cara não tem nem portfólio. A dica para o empreendedor é procurar saber mais sobre o investidor, se ele já fez investimento-anjo, em quais empresas investiu. Às vezes, você, no desespero, empreendendo, não faz análise, coloca o cara para dentro, aí vira uma curva de rio em que não consegue sair. Tem outra coisa também, os fundos olham quem são os investidores-anjo antes de investir numa startup.

Tem isso?
Acho que sim. Não é confirmado, é uma coisa velada. Mas os bons fundos olham quem são os investidores-anjos das primeiras rodadas.

Quais são os bons investidores-anjo no Brasil?
É raro ver quem fez dinheiro com investimento-anjo no Brasil. Mas temos ótimos exemplos no País. O Brian (Brian Requarth, fundador da Viva Real) é bom investidor-anjo, investiu no QuintoAndar. O Florian e o Mate (Florian Hagenbuch e Mate Pencz, fundadores da Loft) fizeram investimentos em Méliuz, 99; o pessoal da OneVC, da Canary. É só analisar a carteira deles. Esse é o ponto. Separar o joio do trigo. Há muito investidor-anjo no Brasil, mas os bons são minoria. Os bons são empreendedores. Também conheço bons investidores-anjo fazendo investimentos nos segmentos em que atuam.

Por exemplo?
Por exemplo, tem um aplicativo de booking de consulta da área médica. Tem muito cara bom, C-Level de Dasa, Fleury e Einstein, fazendo investimento-anjo. Esses caras são muito bons. Para um setor que eles dominam, acabam sendo excepcionais.

O que, na sua definição, é ser um bom investidor-anjo?
Primeiro de tudo, não dar trabalho. Não encher o saco do empreendedor. O cara já tem tanto desafio, que o investidor fica pedindo report, dados. Outra coisa, se for dar palpite não solicitado, tenta entender o momento da empresa. Já vi caso de investidor-anjo investir com nota promissória. Não faz sentido.

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