O ícone da hotelaria que confirma a fama do novo “Triângulo Dourado” de Paris

Recém-inaugurado após nove anos de expectativa, o Madame Rêve traz uma imensa área verde para o centro de Paris, recria códigos na cena hoteleira local e aumenta holofotes sobre o chamado novo Triângulo Dourado da cidade

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O Madame Rêve fica em um prédio histórico, construído no fim do século XIX, e já abrigou a agência central dos Correios de Paris, La Poste du Louvre

Foram três anos de estudos e outros seis de trabalho pesado. E o novo hotel mais aguardado de Paris finalmente abriu as portas no fim de outubro, no coração do 1º arrondissement, região conhecida como Louvre-Rivoli.

Com área total de 35 mil m², o prédio histórico, construído no fim do século XIX, toma todo o quarteirão e já abrigou a agência central dos Correios de Paris, La Poste du Louvre, a maior do país. O lugar foi todo transformado a partir do projeto do arquiteto Dominique Perault, o mesmo da Biblioteca Nacional da França (BNF).

O desenvolvimento da parte hoteleira (7 mil m²) foi cofinanciado pela Novaxia Investissement e pelo Grupo Laurent Taïeb (GLT), que ganharam a concorrência lançada pela Poste Immo em 2014. Fica também a cargo do GLT as operações hoteleira e gastronômica locais.

Além do novo hotel, um cinco estrelas com 82 quartos – 19 deles suítes –, o endereço vai abrigar lojas, restaurantes, um bar na cobertura, creche, escritórios e uma agência menor para serviços postais.

Apesar de toda a história que envolve o prédio, o Madame Rêve lança um olhar futurista ao romper com a estrutura tradicional hoteleira parisiense. O projeto surpreende, por exemplo, ao distribuir, no mesmo andar, todos os quartos e suítes, além de restaurante com jardim de inverno e vista panorâmica, o La Plume, com influência asiática, que abre dia 25 de novembro.

Todo o conceito do novo hotel foi desenvolvido pelo empresário e restaurateur Laurent Taïeb, CEO do grupo que leva seu nome e diretor artístico do Madame Rêve, em parceria com um coletivo criativo.

“Este edifício foi inaugurado originalmente em 1888, período que corresponde ao fim do reinado de Napoleão III, à decoração de Luís XVI e aos primórdios da Art Noveau”, disse Taïeb, ao Le Figaro. “Queria mostrar como era Paris naquela época e ao mesmo tempo adicionar um toque contemporâneo.”

Quarto do Madame Rêve

Essa forma híbrida de abordar o endereço e toda a carga histórica em torno dele combina cenários dignos de postais e ambientes ultra contemporâneos. De acordo com Taïeb, que projetou cada item de mobiliário, todas as peças são históricas e foram recuperadas e reinterpretadas para se adaptar ao conforto dos dias de hoje.

O maior destaque é o terraço de 1.000 m² na cobertura, onde será inaugurado um bar, na primavera de 2022, que já promete ser um dos mais concorridos da cidade, com uma enorme área verde e vista de 360º para Paris, e vários de seus marcos: da Igreja de Santo Eustáquio à Sacré-Coeur e a Torre Eiffel.

A abertura do Madame Rêve acontece no momento em que o centro de Paris se encontra em plena transformação, a começar pela restrição do tráfego de automóveis, uma das bandeiras da prefeita Anne Hidalgo. Os novos contornos locais estão por toda parte.

A 200 metros do hotel, o belíssimo prédio que já abrigou a Bolsa do Comércio acaba de ser reinaugurado como o maior museu privado da França, o Bourse du Commerce – Pinault Collection. Totalmente reformado, o edifício abriga a coleção de arte contemporânea do bilionário François Pinault, fundador do grupo Kering, segundo maior conglomerado de luxo do mundo, atrás da LVMH, de Bernard Arnault.

Ironicamente, a rivalidade de duas das maiores fortunas do mundo vai além do luxo, já que a meia hora de metrô dali fica o museu de arte patrocinado pelo grupo LVMH, a Fundação Louis Vuitton, no Bois de Boulogne.

Outras inaugurações, como a da loja de departamentos Samaritaine e de outro hotel muito aguardado, o Cheval Blanc, ambos do grupo LVMH, ajudaram a renovar o bairro, agindo como catalisadores para a instalação de novas grifes.

Terraço do Madame Rêve

São fatos que tornaram comum ler e ouvir em Paris referências à região como “O Novo Triângulo Dourado” da cidade, alcunha historicamente direcionada ao maior reduto de luxo parisiense, da Porte Maillot à rotatória dos Champs-Élysées, passando pelas avenidas George-V e Montaigne, que concentra grifes como Yves Saint Laurent e Chanel.

O 1º arrondissement de Paris representa hoje uma das localizações mais promissoras do varejo de luxo, junto com as regiões do 2º e do 6º arrondissements. Esse deslocamento, de áreas do comércio de alto poder aquisitivo para outras, emergentes, também acontece em outras grandes capitais.

“Em Nova York, por exemplo, você observa a Madison Avenue se esvaziando e as lojas buscando outros lugares para se instalar”, diz Flávia Gemignani, diretora do Boston Consulting Group (BCG), que divulgou recentemente um estudo sobre o mercado de consumo de luxo em 2021.

“Esse movimento se intensificou com a abertura da Neiman Marcus, gigante, no West Side, mudando o eixo emblemático de luxo na cidade, que é o Upper East Side.” A pandemia também ajudou a alterar esse mapa, uma vez que boa parte dos próprios consumidores se mudaram para outras regiões em busca de fatores como maior qualidade de vida.

“O Real Estate nas antigas áreas de maior demanda está cada vez mais caro e escasso”, diz Gemignani. Ao criar esses novos centros de luxo, é possível contar com áreas maiores e oferecer experiências diferentes para os clientes mais exigentes. “Design, espaços diferenciados, restaurantes, novos ambientes que proporcionam uma vivência efetiva da marca.”

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