EXPERTSALÉM DO CARBONO

O que as empresas aprendem em um mundo radicalmente VUCA

Elas precisam ser mais ágeis, digitais, corajosas na defesa do que é cientificamente comprovado, colaborativas e, sobretudo, agir com mais humanidade nas relações de trabalho e tomada de decisão

 

Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo. Essa é a definição de mundo que o acrônimo em inglês VUCA sintetizou já há bastante tempo, no final dos anos 80. Foi adotado pela Escola de Guerra do Exército Americano para explicar o mundo após a Guerra Fria. De tão certeira, passou a ser largamente empregada depois dos anos 2000 e é absolutamente válida para o mundo atual. Com um ajuste: vivemos em um mundo radicalmente VUCA.

Radical porque tornou todas as dimensões mais extremas. A Volatilidade se amplia com a assustadora velocidade das mudanças. A Incerteza se acentua pela imprevisibilidade em quase todos as dimensões da vida em sociedade. A Complexidade torna-se maior quando percebemos a interconectividade entre tantos fatores e a nossa impossibilidade de controlá-los. A Ambiguidade fica mais evidente na dificuldade de identificarmos relações de causa e efeito ou quando percebemos a fragilidade de nossas conclusões apressadas numa análise mais acurada.

Nesse cenário que, embora conhecido, é absolutamente novo como vivência, as empresas têm experimentado uma grande quantidade de aprendizados. O primeiro é que agilidade não é apenas para os moderninhos e inovadores. É para todos e tornou-se condição de sobrevivência. Empresas têm acelerado dramaticamente seu tempo de resposta e de implantação de novos procedimentos, práticas e até produtos.

Uma das marcas mais visíveis nestes tempos de pandemia no Brasil, o Magazine Luiza encurtou de cinco meses para apenas cinco dias o plano original de lançamento da plataforma “Parceiro Magalu”, na qual micro, pequenas empresas e autônomos podem vender suas mercadorias. “Em poucos dias, mais de 10 mil varejistas e 100 mil pessoas físicas se cadastraram na plataforma, que é acessada por mais de 500 mil clientes”, completou Julio Rodrigues, diretor executivo de e-commerce, em entrevista ao Mercado&Consumo.

Mais recentemente a marca fez acordos com o Sebrae em São Paulo e Pernambuco para atender sua base de pequenos comerciantes. A plataforma digital já fazia parte da estratégia da companhia, mas se mostrou altamente necessária para absorver as vendas interrompidas com o fechamento das lojas físicas em várias metrópoles. E, indo além, tornou-se um importante canal de colaboração e de ação social da companhia. Resultado: resiliência à crise e expressivo ganho de valor de marca.

As empresas de bens de consumo que já percorriam um caminho de digitalização estavam mais preparadas para enfrentar a crise. É o caso da Natura, que há cinco anos realiza essa transformação e já tinha 90% de suas consultoras usando os meios digitais. Teve um crescimento de 240% das vendas do online no Brasil em abril comparado com o mesmo período de 2019. Isso cristaliza o aprendizado de como é importante identificar as tendências e construir o quanto antes as bases dessa transformação, pois no mundo VUCA é impossível prever quando elas se tornarão o “novo comum”.

É importante identificar as tendências e construir o quanto antes as bases dessa transformação, pois no mundo VUCA é impossível prever quando elas se tornarão o “novo comum”

Magalu e Natura têm muito em comum neste momento. Ambas estão entre as marcas mais reconhecidas como relevantes na crise. Ambas são muito vocais. Seja por meio de seus espaços de comunicação, seja por meio de suas lideranças. Esse momento traz mais uma lição para as demais organizações. Sim, é possível sustentar um ponto de vista que pode ser diferente do defendido pelo governo central, como o #ficaemcasa, desde que apoiado pelo consenso da ciência e dos valores universais. Ao final, no balanço entre “lovers e haters”, o bom senso trará frutos.

Este momento radicalmente VUCA também tem ensinado às empresas que a colaboração é o único caminho possível. É impensável resolver tamanha complexidade sem a participação de outros atores da sociedade. A mídia mostra atualmente à exaustão as iniciativas das empresas. Sem tirar o mérito das necessárias doações, as mais impressionantes são as que mobilizam concorrentes de um mesmo setor, ou empresas de setores totalmente diferentes, ou ainda empresas, organizações da sociedade civil e governos que atuam de forma combinada.

Uma iniciativa marcante foi o novo Centro de Tratamento de combate ao coronavírus, anexo ao Hospital Municipal do M’Boi Mirim, em São Paulo, com 100 leitos, construído em 33 dias e entregue em 27 de abril. O feito só foi possível graças ao investimento de R$ 10 milhões e a combinação do fornecimento de aço da Gerdau, do sistema construtivo modular da construtech Brasil ao Cubo, do planejamento em processos ágeis da Ambev e da expertise em gestão de saúde do Hospital Albert Einstein. O modelo está sendo replicado pela Gerdau e a Brasil ao Cubo em Porto Alegre com outros atores locais.

A colaboração é o único caminho possível. É impensável resolver tamanha complexidade sem a participação de outros atores da sociedade

A impulsionar todos esses movimentos, há uma clara tendência de humanização das relações nas empresas. As líderes já haviam se movido nesta direção. No entanto, a crise social e econômica tornou esta necessidade premente e evidente para muitas outras companhias. Aquelas que não souberam se posicionar neste momento, já estão pagando um alto preço de reputação.

Portanto, se de um lado o mundo nos pressiona com uma realidade radicalmente volátil, incerta, complexa e ambígua, de outro, respondemos sendo mais ágeis, digitais, corajosos na defesa do que é cientificamente comprovado, colaborativos e, sobretudo, mais humanos em nossas relações de trabalho e tomada de decisão. Importantes aprendizados já assimilados por muitos líderes de negócios.

Álvaro Almeida é jornalista especializado em sustentabilidade. Diretor no Brasil da consultoria internacional GlobeScan, sócio-fundador da Report Sustentabilidade, agência que atua há 17 anos na inserção do tema aos negócios. É também organizador e curador da Sustainable Brands São Paulo, integra o Conselho Consultivo Global desta rede de conferências e participa da Comissão de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

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