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O X da questão: como um outsider criou um vinho cult na tradicional Toscana

A história por trás da inovadora vinícola Podere Il Carnasciale, que produz vinhos elaborados com a escassa variedade caberlot, cruzamento da merlot com a cabernet franc. Um badalado tinto italiano produzido por uma família alemã

 

Cada garrafa do Il Caberlot custa mais de R$ 3 mil no Brasil

Você investiria sua poupança em um vinhedo com uma uva desconhecida no coração da Toscana, terra dos grandes sangioveses, ainda mais sendo um outsider no setor? O alemão Wolf Rogosky talvez tenha sido um dos poucos a responder sim a esta questão. E, assim, dar origem à hoje prestigiada Podere Il Carnasciale, vinícola com 4,5 hectares plantados com a variedade caberlot, um cruzamento espontâneo da merlot com a cabernet franc em solo italiano.

A história começou em 1986, quando o casal de alemães Bettina e Wolf Rogosky decidiu seguir a recomendação do enólogo Vittorio Fiore e plantar os primeiros 0,3 hectare de caberlot. A variedade havia sido descoberta acidentalmente na década de 1960 pelo agrônomo Remigio Bordini que, além de reproduzi-la em seu berçário de vinhas, apresentou a uva para Fiori.

Rogosky, conta seu filho Moritz, em recente passagem pelo Brasil, não gostava muito da sangiovese, a tinta que reina na Toscana, e decidiu arriscar em seu pequeno projeto vitivinícola, de terreno íngreme e rochoso. Bordini, acrescenta Moritz, permitiu o plantio da variedade apenas no Podere Il Carnasciale, tornando os vinhos elaborados com esta variedade até hoje tão escassos.

O início de tudo: Da esq à dir., Phillip, Moritz, Wolf e Bettina

Antes de iniciar o plantio, Wolf e Bettina enterraram uma garrafa do tinto Sassicaia no terreno para dar sorte (elaborado desde a década de 1960, o Sassicaia foi o primeiro tinto ícone elaborado na Toscana com as uvas cabernet sauvignon, principalmente, e cabernet franc). Seu vinho, na certa pensou Wolf, deveria ter características semelhantes, por ter uma variedade também de origem bordalesa.

Desde o início, a família apostou no cultivo orgânico, sem agrotóxicos, na colheita manual e na vinificação cuidadosa, com cada vinhedo fermentado separadamente, e com o longo envelhecimento, ao redor de 22 meses, em barricas de carvalho francês.

Mas o alemão, que antes de se aventurar pelo mundo dos vinhos atuava na publicidade, foi além. Sua vinícola não apenas elabora um tinto de qualidade – como mostrou a degustação das safras de 2012, 2013, 2014 e 2016, conduzida por Moritz, durante o International Tasting, em São Paulo –, como ele planejou muito bem o lançamento do vinho.

Primeiro, criou um rótulo com um grande “X”, com cores que mudam a cada safra e que são numeradas a mão por Bettina desde a primeira safra. Depois decidiu que só colocaria o tinto em garrafas de formato magnum (com capacidade para 1,5 litro). A exceção é o reparte para o restaurante parisiense L’Ambroisie, cujos donos são amigos do casal.

Não demorou para o vinho se tornar um cult wine, com notas altas dos grandes críticos internacionais. Robert Parker, por exemplo, já lhe deu 95 pontos; Antonio Galloni, 97; o Gambero Rosso, o mais prestigiado guia de vinhos italiano, lhe confere 3 bichiere, a pontuação máxima.

A idílica vinícola na Toscana

Depois da morte de Wolf, Bettina e os filhos Phillip e Moritz assumiram o comando da vinícola. Desde então, novos vinhedos foram plantados. Atualmente são cinco parcelas de caberlot, somando os 4,5 hectares, mas o cultivo segue limitado. A quantidade de garrafas varia de 2.200 a 3.100 unidades, conforme o rendimento de cada safra.

O projeto cresceu um pouco nos últimos anos com o lançamento do Carnasciale, elaborado com uvas dos vinhedos mais jovens, e o Ottantadue, o primeiro da vinícola elaborado com a sangiovese. Uma garrafa do Il Caberlot 2008 é vendida por R$ 3,4 mil na importadora Mistral. É o preço que se paga por um tinto cultuado como obra de arte inovadora.

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