Por que a Gran Coffee quer que as empresas voltem a ocupar os escritórios

A Gran Coffee, do Pátria, empresa do segmento de café e alimentos fora do lar, investe no “honest market”, instalando 800 máquinas autônomas até 2024. Para isso, o setor corporativo precisa retomar o ritmo pré-pandemia

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Nos módulos de autosserviço cabem 250 itens, de bebidas a saladas e sanduíches

Você pode não conhecer a marca Gran Coffee, mas dificilmente não tomou uma xícara assinada por eles. É dela o café e as máquinas de alimentos e bebidas espalhadas pelo hospital Albert Einstein, os laboratórios Fleury, os coworkings da Regus ou WeWork e os corredores da Rede Globo, Itaú, Bradesco, Petrobrás, para citar alguns clientes. Além dos blends especiais (white label) servidos na Kopenhagen, Mc Café, Casa do Pão de Queijo ou Rei do Mate.

“Estamos em 60 das 100 maiores empresas do País. São 30 mil máquinas instaladas em mais de 10 mil companhias pelo Brasil”, diz o sócio-diretor Gustavo Gama, segunda geração à frente da empresa.

Fundada em 1998 pela família Gama, de Campinas, em 2015 a Gran Coffee entrou para o portfólio da gestora de private equity Pátria Investimentos, que passou a deter 75% do capital social da companhia.

A parceria foi fundamental para o crescimento exponencial de 500% nos últimos 5 anos com a verticalização do processo a partir da torrefação dos grãos, a compra de 16 empresas (entre elas as marcas Café do Centro, Spress e Astro, voltadas para o varejo).

Possibilitou também a ampliação da presença regional e um forte investimento em tecnologia, na qual se baseia a principal promessa de expansão para os próximos anos, as lojas autônomas.

Apoiada no conceito de “honest market”, a empresa vem ampliando sua presença dentro dos clientes corporativos – que respondem por 65% do faturamento total – com a substituição das máquinas de bebidas e snacks antigas, que comportavam até 40 itens, por um conjunto de módulos de autosserviço.

Neles cabem 250 itens diversos, do cafezinho ao chocolate quente, passando pelos sanduíches, saladas, salgados e doces diversos. Funcionam 24 horas por dia, sem a necessidade de ter um funcionário sempre presente.

O projeto iniciado em 2017 entrou na pandemia com 60 lojas instaladas e, mesmo com a adoção do home office nos dois últimos anos, fechou 2021 com 150 pontos. “Prevemos ter 800 unidades nesse modelo até 2024, com investimento de R$ 30 milhões”, afirma Gama.

Gustavo Gama, sócio-diretor da Gran Coffee

O potencial de aumento de faturamento está baseado na retomada plena do trabalho presencial. “Já tivemos casos em que o consumo na nova loja foi quatro vezes maior, sendo que não tiramos as máquinas de snacks que já estavam espalhadas pela planta”, diz.

“Elas são complementares. A loja vira um ponto mais completo e as outras, mais espalhadas, atuam como satélites para todas as horas”, exemplifica o executivo. Com maior oferta de itens, o tíquete médio também cresce, passando de R$ 4 a R$ 5 para R$ 8 a R$ 9.

Os clientes eram reticentes à implementação do modelo por uma questão de segurança, mas a taxa de perdas no faturamento por falta de pagamento não tem passado dos 5% previstos. Nos Estados Unidos, de onde vem o modelo, esse índice é de 2% a 3%.

“Foi difícil convencer as pessoas de que isso daria certo no Brasil. Desde o começo deixamos claro que assumiríamos qualquer perda. Mas os resultados têm sido surpreendentes”, garante o diretor, que também não dá ponto sem nó. As lojas só são instaladas em ambientes controlados (seja por câmeras ou pela presença constante de funcionários) e, ainda assim, uma unidade já teve de ser fechada por mau uso.

Para ajudar nos pagamentos, uma carteira virtual também foi desenvolvida no app Gran Coffee Digital. Com ele é possível usar o próprio celular para escanear o produto a ser consumido e pagar com o cartão de crédito cadastrado, sem a intermediação de totens ou maquininhas. Por ele se tem acesso ainda aos programas de cashback, promoções e descontos. “Ano passado investimos R$ 3 milhões em nossa transformação digital”, aponta Gama, sendo grande para o relançamento do app.

“É uma ferramenta muito poderosa para mapear toda a jornada de compra e hábitos de consumo dentro de ambientes e em momentos que nenhuma outra marca tem acesso”, completa. Por enquanto, mais de 100 mil downloads do app foram feitos, mas apenas 20% estão ativos com compras recorrentes. “De novo, isso deve crescer quando as pessoas voltarem para as empresas regularmente”, acredita o executivo.

Com 90% do faturamento vindo do consumo fora de casa, a Gran Coffee sofreu uma dura queda durante a pandemia e o faturamento chegou a cair para 20% do original em alguns clientes grandes, como o Itaú, por exemplo, onde ainda hoje apenas 30% das vendas foram retomadas.

Novos clientes corporativos também foram anexados ao portfólio nesse período, com destaque para os da área de saúde, com a entrada da rede Prevent Senior, Hospital São Camilo e lojas Dulca em hospitais como Oswaldo Cruz, Sírio Libanês, Samaritano e Pro Matre, além da entrada nos setores de hotelaria e turismo, com contratos assinados com Hyatt, Hilton, Royal Palm Plaza, Windsor, Ibis, Mercure e Azul Linhas Aérea.

Entretanto, Gustavo Gama é categórico ao afirmar que o principal foco, no momento, está em garantir um atendimento premium para os clientes pré-existentes. “Ainda falta uma bela caminhada para retomarmos o crescimento dentro da nossa própria base, onde já temos um grande parque de máquinas instaladas”, diz.

A empresa encerrou 2021 com faturamento total de R$ 225 milhões e só nos últimos nove meses, com o fim da segunda onda de Covid, conseguiu aumentar em 50% o montante acumulado. A expectativa para 2022 é chegar a R$ 304 milhões.

Cápsulas para o varejo

Café do Centro foi a marca de melhor desempenho no varejo

Responsável por apenas 10% desse montante, a área de varejo, onde estão posicionadas as marcas Astro, Café do Centro e Spress, foi a que compensou parte das perdas com a pandemia. Com o público dentro de casa, o consumo migrou para os cafés disponíveis nas gôndolas dos supermercados.

“Crescemos 20% nesse segmento, principalmente com Café do Centro graças à grande vitrine que são as máquinas. E com os novos investimentos que estamos fazendo nessa área, a expectativa é que em três anos o varejo represente 15% do faturamento total”, aponta Gama.

“Pode parecer pouco, mas é preciso lembrar que o foco da empresa sempre será o corporativo e o food service. Então, o pessoal terá de pedalar muito quando o consumo represado nas empresas voltar”, pontua.

Presente hoje em 1.220 lojas pelo Brasil, as marcas ganharam um canal de vendas extra com o lançamento do e-commerce e, a partir dos próximos meses, a linha premium (Astro Café) contará com cápsulas em alumínio, compatível com máquinas Nespresso, e dois novos blends (Supremo, feito com método de cereja descascada e Ristretto, mais encorpado).

Enquanto o consumo do café comum sofre com o aumento do valor das sacas, apresentando queda de 4% segundo a empresa de dados Scanntech, no nicho dos premium a subida foi de 18% entre 2020 e 2021.

Entre as três marcas da empresa, Café do Centro é a líder, com 80% de representatividade, já que é ela que vai para as máquinas e cafeterias. Mas, já para o próximo ano, a expetativa é que Astro passe de 8% para 12% do montante faturado.

Mensalmente, a empresa processa 200 toneladas de café, sendo que quase metade disso vai para os 180 blends produzidos com exclusividade para outras marcas como Carrefour, Kopenhagen, Lindt e McDonald’s.

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