Quase um bilhão de famintos e um monte de clichês que deveríamos repensar

Os ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 2019, Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, propõem no livro “A Economia dos Pobres” uma mudança radical na forma de ver o combate à miséria e à desigualdade

0
277
Leia em 6 min

O mundo contava com 811 milhões de pessoas com fome em 2020, número que deve ter crescido em 2021

Nos últimos 15 anos, o que os economistas Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo mais se dedicaram a fazer foi rever uma série de clichês ou mitos sobre pobreza extrema no mundo para que pudessem apresentar propostas de soluções que amenizassem ao menos o problema.

Tanto fizeram que, em 2019, por sua abordagem experimental para reduzir a pobreza, receberam (juntamente com Michael Kremer) o Nobel de Economia. Os dois são professores de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e cofundadores do Laboratório de Ação Contra a Pobreza Abdul Latif Jameel (J-Pal), no qual desenvolvem trabalhos de campo para medir cientificamente a eficácia de programas de ajuda ao desenvolvimento.

Ambos não concordam com o que é dito tanto na teoria social quanto na literatura de que os pobres são “preguiçosos ou empreendedores, nobres ou ladrões, agressivos ou passivos, indefesos ou autossuficientes”.

Os economistas são autores do conceituado Boa economia para tempos difíceis, publicado no Brasil pela Zahar, a mesma editora que também lança agora no país A economia dos pobres: Uma nova visão sobre a desigualdade.

A obra chega às livrarias no momento que os efeitos da pandemia sobre os países e segmentos mais carentes da população é o mais crítico nos últimos 100 anos, quando o planeta nunca esteve em uma situação de vulnerabilidade e miséria tão grave.

A pandemia levou 118 milhões de pessoas a passar fome em 2020, segundo a FAO, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura. No total, eram 811 milhões de pessoas que estavam subalimentadas no ano passado – número que dvve ter crescido ainda mais em 2011.

Previsões do Banco Mundial divulgadas em outubro apontam que o número de pessoas em situação de pobreza extrema vai aumentar em 150 milhões em 2021 devido à Covid-19. Será o primeiro crescimento negativo desse índice em mais de 20 anos, já que à onda do vírus se associam as alterações climáticas e os conflitos em vários pontos do globo.

A onda pandêmica e a recessão global podem levar mais de 1,4% da população mundial à extrema pobreza – aqueles que vivem com menos de 1,90 dólares (1,61 euros) por dia. Nada menos que entre 9,1% e 9,4% da população mundial foram afetados nessas condições de se tornarem mais pobres em 2020.

Os números representariam um regresso à taxa de 9,2% de 2017, e, segundo o Banco Mundial, caso não tivesse existido a pandemia, a taxa teria baixado para 7,9%. É um problema sem precedentes que as nações ricas também terão de dar atenção urgentemente, pois disso dependerá o controle do vírus.

Para os autores, não é nenhuma surpresa que as posturas políticas que correspondem a essas visões a respeito dos pobres também tendam a se resumir em fórmulas simples: “livre mercado para os pobres”, “reforçar os direitos humanos”, “cuidar primeiro do conflito”, “dar mais dinheiro aos mais pobres”, “a ajuda externa mata o desenvolvimento” e assim por diante.

“Todas essas ideias contêm importantes elementos de verdade, mas raramente deixam espaço para as mulheres ou os homens pobres comuns, com suas esperanças e dúvidas, limitações e aspirações, crenças e confusões.”

Quando os pobres chegam a ser mencionados, afirmam os economistas, em geral é como a dramatis personae de alguma história edificante ou episódio trágico, para serem admirados ou lamentados. “Mas não como uma fonte de conhecimento, não como pessoas a serem consultadas sobre o que pensam, desejam ou fazem.”

Por isso, com frequência, confunde-se economia da pobreza com economia dos pobres: como estes têm muito pouco, presume-se que não haja nada de interessante em sua existência econômica. Banerjee e Duflo afirmam que, infelizmente, esse mal-entendido prejudica a luta contra a pobreza global de modo grave: problemas simples engendram soluções simples.

“O campo da política contra a pobreza está repleto de detritos de milagres instantâneos que se mostraram nada milagrosos. Para progredir, temos de abandonar o hábito de reduzir os pobres a personagens de desenho animado e dedicar um tempo para de fato compreender suas vidas, em toda a sua complexidade e riqueza.”

Os dois autores focam seu estudo na economia que emerge da compreensão da vida dos pobres, em um retrato da realidade e das aspirações de quem vive com menos de dois dólares por dia.

O livro “A Economia dos Pobres”

A dupla propõe uma nova maneira de pensar a luta contra a desigualdade, com questões interessantes sobre porque, por exemplo, alguém que não tem dinheiro suficiente para comer, decide comprar uma televisão. Ou por que é tão difícil para a criança pobre aprender, mesmo frequentando a escola?

Ao sugerir uma nova maneira de encarar o problema da fome, os economistas afirmam que em vez de tratar esse combate como algo avassalador, restrito apenas ao âmbito da macroeconomia, os governos tratem a questão como um conjunto de casos concretos que, se devidamente identificados, podem ser resolvidos com pequenas intervenções.

O foco do livro são os segmentos mais pobres do mundo. Mas os economistas ressaltam que tanto os que têm quanto os que nada possuem alimentam os mesmos desejos e fraquezas, só que com suas peculiaridades.

“Viver com 99 centavos por dia significa ter acesso limitado a informação, porque isso custa dinheiro”

“Os pobres não são menos racionais do que ninguém — muito pelo contrário. Exatamente porque têm tão pouco, muitas vezes têm de pesar muito cuidadosamente suas escolhas: eles precisam ser economistas sofisticados apenas para sobreviver. No entanto, nossas vidas são tão diferentes quanto água e vinho.”

Os pobres têm preocupações que não fazem parte da vida dos ricos. Exemplos? “Viver com 99 centavos por dia significa ter acesso limitado a informação, porque isso custa dinheiro.” Portanto, o pobre desconhece certos fatos que o restante do mundo considera óbvios, como vacinas que podem impedir seu filho de pegar sarampo.

“Significa viver em um mundo cujas instituições não foram feitas para alguém como você. A maioria dos pobres não tem salário, muito menos um plano de saúde ou aposentadoria. Significa tomar decisões sobre coisas que vêm com muitas letras miúdas, quando você mal sabe ler as letras grandes.”

Isso implica que aproveitar seu talento ao máximo para garantir o futuro de sua família. Precisa ter mais habilidade, força de vontade e dedicação. Assim, A economia dos pobres trata da “economia muito rica que emerge da compreensão da vida econômica dos pobres, sobre os tipos de teorias que ajudam a entender o que os pobres são capazes de realizar e onde e por qual motivo precisam de um empurrão”.

Nesse sentido, surgem várias questões: o que os impede de fazerem isso? “É o custo de começar, ou é fácil começar, mas é mais difícil continuar? O que torna isso caro? As pessoas percebem a natureza dos benefícios? Se não, o que dificulta essa compreensão?”

Em última análise, as vidas e as escolhas dos pobres dizem sobre como combater a pobreza global. Acima de tudo, deixa claro porque a esperança é vital e o conhecimento é fundamental, “porque temos de continuar tentando, mesmo quando o desafio parece esmagador. O sucesso nem sempre está tão longe quanto parece”.

Leia também

Brand Stories