Sem a Caixa, crédito deve ser a próxima fronteira da Wiz

A corretora de seguros Wiz perdeu o contrato com a Caixa. Mas uma estratégia de diversificação com outros bancos aliviou o baque. O próximo passo é crescer em crédito, do imobiliário ao consignado

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Heverton Peixoto, CEO da Wiz

Quando o CEO da corretora de seguros Wiz, Heverton Peixoto, viu o acordo Nubank e Creditas, na qual o banco digital vai vender os produtos da startup de Sergio Furo e pode virar acionista na fintech, ele não teve dúvidas. “Eles estão se inspirando no meu modelo de negócio”, disse Peixoto, ao NeoFeed.

O executivo se referia ao modelo B2B2C, implantado desde que assumiu o comando da empresa, em 2018. Com o fim da exclusividade da Caixa, a Wiz fez parcerias ou joint ventures com bancos para vender seus produtos, como seguros e consórcios, para os consumidores finais, aproveitando de sua rede que atualmente soma quase 2 mil parceiros e mais de 23 mil pontos de venda.

Associações como as com Banco de Brasília (BRB), Banco Inter e Bmg e até com concessionárias de automóveis, a exemplo da Caoa, são exemplos dessa estratégia, que foi fundamental para que a Wiz enfrentasse a reação negativa do mercado, quando perdeu, em fevereiro deste ano, a renovação do contrato com a Caixa, uma parceria de 48 anos que se confunde com a própria história da Wiz. A Caixa Seguridade, inclusive, é acionista e está vendendo sua fatia de 25%.

Agora, a Wiz está se preparando para diversificar ainda mais sua atuação para além de seguros e consórcios, o seu principal ganha-pão. E a próxima fronteira vai ser a área de crédito, entrando na arena em que a Creditas atua. “Fizemos uma parceria forte em crédito imobiliário com o Itaú que vai estar operacional no quarto trimestre”, diz Peixoto. “E estamos de olho em crédito consignado público e privado.”

A parceria com o Itaú, anunciada em julho deste ano, não é a única da Wiz na área. Ela já atua em home equity com a Galápagos Capital, gestora de Carlos Fonseca (ex-BTG Pactual e C6 Bank), através da Wimo. Mas a ideia é reforçar a vertical de crédito, atuando no conceito de marketplace, oferecendo os produtos de diversos parceiros.

Peixoto não dá detalhes de como pretende crescer nessa área. Mas a expectativa é que o crédito passe a ser relevante na receita da Wiz a partir de 2023. Outros negócios nessa área, como crédito para pessoa jurídica e antecipação de recebíveis, estão também na mira da Wiz no curto prazo.

Esse movimento se soma a outros feitos pela Wiz para mostrar ao mercado que a saída da Caixa não vai causar um grande impacto nos negócios da corretora. No primeiro semestre, 60% da receita da companhia estava ligada à Caixa. Atualmente, está em 50%. E, em 2022, será de 25%, segundo as estimativas de Peixoto.

De acordo com o CEO, essa redução acontece ao mesmo tempo em que a Wiz seguirá crescendo. No segundo trimestre de 2021, a receita líquida atingiu R$ 220,3 milhões, alta de 47,3%. E Peixoto assegura que a Wiz será maior em 2022 do que neste ano, mesmo com a redução da participação da Caixa.

“São duas companhias: uma que é um run off da Caixa”, diz Peixoto, explicando que há receitas recorrentes de apólices de seguro imobiliário e de vida da Caixa, que devem garantir de 20% a 30% do faturamento por alguns anos. “E a outra é uma startup que está nascendo a partir dela.”

A consultoria RD, a pedido do NeoFeed, fez uma análise da dependência da Wiz da Caixa. O critério usado foi o Ebitda, um indicativo da importância do negócio à companhia. No primeiro semestre de 2020, a Caixa representava 103% da geração de caixa. Nos seis primeiros meses deste ano, a fatia do banco estatal havia encolhido para 86%.

No primeiro semestre de 2020, a Caixa representava 103% da geração de caixa da Wiz. Agora, é 86%

“A Wiz está conseguindo reduzir a dependência da Caixa, mas os números mostram que há um longo caminho pela frente”, afirma Rafael Durer, fundador da RD, consultoria especializada em varejo financeiro.

A boa notícia para a Wiz é que as parcerias costuradas ao longo dos últimos anos começam a gerar caixa. A joint venture com o Bmg já representou 7% do Ebitda nos seis primeiros meses de 2021. A com o Banco Inter, 13%. Acordos com Itaú e Santander, na área de consórcios, já somam 6%.

Por esse motivo, há grande expectativa com a joint venture com o BRB, anunciada em junho deste ano, da qual a Wiz detém uma fatia de 50% – no caso de Bmg e Inter, a companhia é minoritária, em ambos os casos com uma fatia de 40%.

A Wiz está investindo R$ 585 milhões para criar uma nova companhia que vai vender seguros, consórcios, títulos de capitalização e previdência privada usando o balcão do BRB, dono de uma grande clientela de funcionários públicos.

Por conta dessa joint venture, o BTG Pactual subiu o preço-alvo da ação Wiz de R$ 15 para R$ 19, dizendo que o acordo com o BRB adiciona R$ 4 ao valor justo da companhia. Na terça-feira, 13 de setembro, o papel fechou cotado a R$ 13,02, patamar bem acima dos R$ 5,62, de fevereiro. Avaliada em R$ 2 bilhões, as ações da Wiz sobem 74% neste ano.

“A joint venture aumenta nossa estimativa para o lucro por ação de 2022 e 2023 em 20% e 27%, respectivamente”, escreveu o analista Eduardo Rosman, do BTG Pactual. “Esperamos que o BRB represente 35% a 45% do lucro da Wiz de 2022 a 2023.”

A mudança do acionista de referência pode também não ser exatamente uma má notícia. A CSH, a holding da Caixa Seguridade com os franceses da CNP, contratou o Bank of America (BofA) para vender a participação de 25% na distribuidora de seguros, avaliada em mais de R$ 500 milhões. O outro acionista relevante é a Fenae, a federação dos funcionários da Caixa, que detém uma fatia de 26%.

Peixoto enxerga nessa movimentação uma oportunidade para a Wiz se tornar uma “corporation” e para  “vender” um projeto que vem defendendo há tempos: a de transformar a Wiz em uma partnership. No mercado, comenta-se que dificilmente a fatia da Caixa vá parar nas mãos de outro banco, o que faz de fundos de private equity candidatos a olhar o ativo.

Desde que assumiu a Wiz, Peixoto trocou toda a diretoria da companhia em um processo de profissionalização e costurou três joint ventures. Agora, ele acredita que precisa criar incentivos para que os executivos mantenham um compromisso de longo prazo com a empresa. “Precisamos criar formas de atrair e reter talentos e uma forma de amarrá-los é dando uma participação.”

Nos próximos meses, o mercado saberá se Peixoto terá “crédito” para tocar esse projeto em conjunto com o novo acionista. Enquanto isso, ele segue sua cruzada para mostrar que a vida não acabou com o fim da longa parceria com a Caixa.

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