Rápida no cheque: fintech chilena é o segundo investimento da Sequoia na América Latina

Menos de um mês após dizer que voltaria a investir na região, a Sequoia participa de rodada de US$ 3,6 milhões liderada pelo Valor Capital na chilena Quansa. Seus fundadores contam os planos ao NeoFeed, que inclui o Brasil

0
87
Leia em 5 min

Gonzalo Blanco e Mafalda Barros, os fundadores da Quansa

Após cumprir a promessa de voltar a investir na América Latina, a Sequoia Capital, uma das mais importantes gestoras de venture capital do Vale do Silício, não esperou nem um mês para fazer o seu segundo aporte na região.

A escolhida foi a Quansa, uma startup chilena que começou a operar no Brasil há apenas um mês e que desenvolve aplicativos para que empresas ofereçam assessoria financeira e antecipação de salários aos seus funcionários.

A Sequoia, através da Sequoia Scouts (iniciativa na qual startups que fazem parte do portfólio do fundo indicam novos empreendedores), participou de uma rodada seed que levantou US$ 3,6 milhões para a startup e foi liderada pelo Valor Capital.

Entraram ainda na operação os fundos Pear VC, Canary, Norte e Magma. Empreendedores como Ariel Lambrecht (99), Mariana Dias e Bruna Guimarães (Gupy), Maurício Feldman (Volanty), e Mada Seghete (Branch Metrics) também investiram.

O último investimento da Sequoia na América Latina, de US$ 1 milhão, foi anunciado na semana passada e teve como destino a argentina Pomelo, que fornece infraestrutura para que grandes empresas construam as próprias fintechs e emitam os próprios cartões pré-pagos, de débito e de crédito.

Aposta mais recente, a Quansa foi fundada em 2020 pela portuguesa Mafalda Barros e pelo uruguaio Gonzalo Blanco, que se conheceram cinco anos antes, quando trabalhavam na consultoria americana McKinsey.

“Vamos usar os recursos principalmente para investir em tecnologia, não só para melhorar a experiência do usuário, como para aperfeiçoar a forma como usamos internamente nossos sistemas de informações”, afirma Mafalda, ao NeoFeed.

Os investimentos, diz ela, também servirão para dobrar a equipe da Quansa, que conta não só com profissionais de tecnologia, mas também com assessores financeiros. Hoje, o time tem 10 pessoas.

Basicamente, a startup desenvolve aplicativos para empresas que querem oferecer saúde financeira como um benefício a seus funcionários. A ferramenta, que pode ser acessada tanto no celular quanto no computador, tem funcionalidades que permitem que os profissionais gerenciem suas finanças, façam seus planejamentos e entrem em contato com assessores.

A principal vantagem é permitir que o empregado possa antecipar parte do seu salário por alguns dias, para pagar contas ou resolver emergências. A antecipação é possível porque, em geral, as empresas repassam aos bancos os valores das remunerações dias antes da data de depósito na conta dos funcionários.

Se um empregado pede a antecipação de uma determinada quantia, a Qansa banca o valor e depois é ressarcida pelo banco, quando o montante já estiver disponível. A receita vem de um valor mensal que a empresa contratante paga por cada funcionário, mas a startup não revela o quanto cobra.

“É cedo para divulgar a precificação, porque ainda estamos testando”, diz Blanco, um dos fundadores. “Mas os valores estão alinhados aos de outros benefícios.
Para a Valor Capital Group, que liderou o aporte, a Quansa chega em um momento de expansão do mercado de benefícios no Brasil. “Entretanto, até agora, não houve uma solução focada na segurança financeira dos funcionários”, afirma Antoine Colaço, managing partner do fundo.

O mercado brasileiro de benefícios com foco em finanças ainda é incipiente, mas a Quansa não será a primeira a explorar esse segmento. A Xerpa, por exemplo, uma fintech nascida em 2015, também antecipa parte dos vencimentos de funcionários. Mas impõe uma tarifa em cada transação, numa concorrência mais direta com instituições financeiras que atuam com crédito consignado.

A Quansa, por sua vez, não cobra nada do trabalhador. As antecipações são limitadas, porém, a uma fatia do salário, que pode variar. O mais comum, contudo, é que o limite seja de 30%.

Ainda engatinhando no mercado brasileiro, a startup não abre quem são os clientes e quantos usuários têm no País, mas afirma que as empresas que têm aderido são, majoritariamente, do setor de serviços, como hotéis, restaurantes e cafeterias.

“Vemos um impacto maior (do nosso benefício) em trabalhadores que ganham de um a três salários mínimos, que têm um celular, já fazem Pix, mas não estão na vanguarda (dos serviços financeiros digitais)”, conta Blanco. “Onde essas pessoas trabalham? Em serviços de mão de obra intensiva, no varejo, em call centers, em telecomunicações, por exemplo”.

Para a Quansa, a alta proporção de brasileiros que se enquadram nesse perfil se apresenta como uma oportunidade. Segundo o IBGE, 68 milhões de pessoas ganham até R$ 2,3 mil por mês (um pouco mais de dois salários mínimos), o equivalente a 80% da população ocupada.

“São pessoas que têm algum tipo de dificuldade financeira para pagarem suas contas e saírem de situações de endividamento”, afirma Mafalda. “Essas preocupações têm consequências expressivas na saúde mental dos funcionários, que se traduzem em maior dispersão, ausências e queda de performance no trabalho”, completa Blanco.

Para a consultora Ana Bavon, sócio-fundadora da consultoria B4People Cultura Inclusiva, as companhias brasileiras estão começando agora a entender que elas também têm um papel social que vai além da oferta de um emprego e que pode chegar a iniciativas como a educação financeira dos próprios funcionários.

“As demandas ESG, conectadas também à diversidade, estão exigindo novas posturas das empresas”, diz. “E a educação financeira ajuda as pessoas mais vulneráveis a encontrarem estabilidade e a trabalharem a própria renda, colocando-as em outro contexto social, de empoderamento.”

Leia também