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Thomas Piketty, autor de “O Capital no Século XXI”, leva crítica ao capitalismo à tela grande

O economista francês Thomas Piketty assina a adaptação cinematográfica da obra que vendeu mais de 2,5 milhões de cópias, ao defender a taxação sobre a riqueza

 

O economista francês Thomas Piketty

Quando publicou o livro “O Capital no Século XXI”, em 2013, o francês Thomas Piketty não só injetou novo fôlego à literatura econômica como se tornou uma celebridade mundial.

Sete anos depois de incitar um debate sobre a desigualdade e a concentração de patrimônio, o economista leva a sua crítica ao sistema capitalista aos cinemas.

Em parceria com o neozelandês Justin Pemberton, Piketty transformou o livro de quase mil páginas no documentário homônimo de uma hora e 40 minutos de duração.

A versão resumida, mas ainda eficaz, é um dos destaques da programação do Festival Varilux de Cinema Francês. O evento será realizado com sessões presenciais em mais de 40 cidades brasileiras, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, a partir do dia 19 de novembro.

A essência do livro, que vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares e foi traduzido em mais de 40 idiomas, permanece intacta. Em poucas palavras, o capitalismo seria uma máquina que gera desigualdades crescentes.

E, para compensar o desequilíbrio em virtude da concentração da renda nas mãos de poucos, uma solução apontada pelo economista seria uma taxação sobre a riqueza.

A teoria é apresentada aos espectadores pelo próprio Piketty, que já figurou na lista das 100 pessoas mais influentes da revista “Time”. Outros economistas e alguns historiadores que compartilham a sua visão também dão depoimentos no documentário.

“Quando a fraude da promessa comunista foi descoberta e desmoronou, o argumento capitalista foi bastante fortalecido. O problema é que ele foi longe demais”, diz Piketty, de 49 anos, logo no início do filme.

Cartaz do documentário

“A queda da União Soviética levou a uma fé infinita na desregulamentação do mercado, acompanhada por uma glorificação da propriedade privada”, conta Piketty, formado em Matemática e Economia na Escola Normal Superior de Paris.

“Como consequência, enfrentamos os desafios da desigualdade incessante e o crescimento do nacionalismo e das tensões xenofóbicas, como víamos naquele mundo antes da Primeira Guerra Mundial. Temo muito pelo século 21”, completa ele.

Presidente da Escola de Economia de Paris e professor na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais em Paris, Piketty reconstitui no documentário a história econômica mundial desde o século 18.

Na época, os proprietários de terras da Europa passavam tudo o que tinham de uma geração à outra. Os mais jovens herdavam todos os bens e privilégios, muitas vezes, sem que precisassem trabalhar.

Como a aristocracia representava apenas 1% da população, os ricos monopolizavam o capital, não permitindo qualquer mobilidade social. Como os mais abastados também aprovavam as leis, eles ainda exerciam poder político.

Trechos de filmes épicos, como “Orgulho e Preconceito” (2005), baseado na obra de Jane Austen (1775-1817), ajudam a ilustrar a discrepância social no período.

“Austen criou aqui uma fantasia em que era possível colocar as mãos na riqueza sendo divertida e sagaz. Mas a realidade é que o sr. Darcy jamais se casaria com garotas como Lizzie Bennet, que não tinham um tostão. O dinheiro se casava com o dinheiro”, diz a historiadora Kate Williams, no documentário.

A narrativa passa pela Revolução Francesa, pela Revolução Industrial e pelas guerras mundiais, sem que nada mude quanto à alta desigualdade.

A narrativa passa pela Revolução Francesa, pela Revolução Industrial e pelas guerras mundiais, sem que nada mude quanto à alta desigualdade

O que se vê ao longo da análise histórica, que atravessa períodos de crise e mesmo de prosperidade, é a classe alta fazendo de tudo para não distribuir a riqueza. Até porque, em geral, eles têm o suporte das políticas econômicas, sempre a favor dos privilegiados.

O documentário reforça que a história simplesmente se repete. No século 21, o mundo estaria correndo o risco de voltar a um sistema capitalista similar aos níveis de disparidade nas democracias ocidentais dos séculos 18 e 19.

Isso significaria que os ricos ficariam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mesmo em tempos de crescimento nas taxas de emprego, os postos abertos seriam para funções inferiores, com trabalhos mal remunerados, o que impediria a escalada social.

Para a analista econômica Rana Foroohar, entrevistada no documentário, o pai do capitalismo moderno Adam Smith (1723-1790) pensou na ideia do sistema de livre mercado “para um mundo diferente”.

“Ele acreditava que os mercados financeiros eram apenas intermediários. Eles pegariam as economias de todos, as guardariam como depósitos e as emprestariam a pequenos e médios negócios familiares”, diz ela.

A analista lembra que as estatísticas de hoje mostram que apenas 15% do dinheiro que sai das maiores instituições financeiras é aplicado em “empréstimos produtivos”.

E para onde vão os 85% restantes? “Ficam passeando no ciclo fechado do sistema financeiro. As ações são compradas e vendidas pelas mesmas pessoas”, afirma ela.

Tanto no livro quanto no filme, o que Piketty propõe para reverter o quadro é uma tributação progressiva sobre o capital. Os direitos de propriedade também não poderiam ser eternos.

“Se você tem muito capital, precisaria devolver à comunidade 1%, 2%, 3% ou até 5% ou 10% por ano. Por que não, se você possui bilhões?”, pergunta Piketty, diante da câmera.

Quem investir o seu capital de forma útil, poderá continuar prosperando, na visão do economista. “O que não dá mais é o mercado financeiro continuar permitindo que a classe alta tenha lucros elevados sem fazer nada”, diz ele.

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