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Uber Eats lança app e entra com tudo na disputa com Rappi e iFood

Com novo aplicativo que será lançado mundialmente, a empresa reforça a aposta no segmento de delivery. Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, o head global de produtos da divisão, Daniel Danker, detalha a estratégia do negócio que ganhou vida própria

 

Desde que abriu capital, em maio de 2019, a Uber não conseguiu entregar o que prometia antes de estar sob o escrutínio trimestral de Wall Street. A empresa acumula prejuízos de US$ 14,7 bilhões desde o ano passado. E as ruas praticamente desertas em função da Covid-19 só colocaram mais obstáculos no seu caminho rumo à lucratividade.

Na contramão da queda nas corridas, a pandemia deu tração ao Uber Eats, cuja receita cresceu 103% no segundo trimestre, para US$ 1,21 bilhão. Além de representar metade dos ganhos da Uber no período, o braço de delivery ajudou a reduzir os estragos do recuo de 67% do negócio principal.

O Uber Eats não é, porém, apenas uma válvula de escape da Uber na crise. E a prova mais recente de que o serviço tem sinal verde para ocupar mais espaço na companhia é o seu novo aplicativo, que será lançado mundialmente nas próximas semanas, cujos detalhes foram antecipados com exclusividade ao NeoFeed.

“Não são apenas mudanças visuais. É, de fato, o Uber Eats entrando em seu próximo capítulo de maturidade”, diz Daniel Danker, head global de produtos do Uber Eats, ao NeoFeed. “O delivery deixou de ser mais uma coisa nova que a Uber está trabalhando e hoje já é tão grande quanto era o nosso negócio de transporte em 2017.”

O movimento coloca mais tempero no disputado segmento de delivery, que movimentou US$ 107,4 bilhões em 2019, segundo a consultoria ResearchAndMarkets. Especialmente em países como o Brasil, um dos principais mercados da Uber e onde o Uber Eats tem como principais rivais o iFood e a Rappi.

Todas as mudanças seguem o mantra dos aplicativos de “melhorar a experiência do consumidor”. Mas sob a ótica de privilegiar o acesso aos negócios locais. Para facilitar a descoberta de estabelecimentos na vizinhança, uma função mostra os pedidos mais recentes feitos por consumidores próximos.

Daniel Danker, head global de produtos do Uber Eats

Em outro recurso, um mapa mostra os restaurantes nos quais é possível encomendar e retirar a comida, caso essa seja a escolha do usuário. Ao mesmo tempo, uma família, por exemplo, pode fazer pedidos em diferentes estabelecimentos e reuni-los em uma única entrega.

“Além da conveniência, isso racionaliza o frete para o consumidor”, diz Cristina Souza, CEO da Gouvêa Food Services, que também destaca o olhar para os negócios locais. “Essa é uma pegada dos superapps chineses e que cria um mix mais rentável, pois reduz o custo dos deslocamentos dos entregadores.”

O pacote também inclui “entregas” para os estabelecimentos. Entre elas, o acesso a ferramentas que facilitam a oferta de descontos e a gráficos que comparam o negócio com outros restaurantes similares, em áreas como preço e menu.

Menu ampliado

O principal ponto do aplicativo, no entanto, é o fato dele consolidar a busca do Uber Eats para ir além do delivery de comida. Todos os novos recursos valem também para a entrega de outras categorias que, pouco a pouco, estão sendo adicionadas no menu de ofertas do serviço.

“O Uber Eats vai ser a porta de entrada do consumidor para acessar todos os tipos de produtos”, afirma Danker. “Os restaurantes ainda são maioria, mas estamos colocando farmácias, pet shops, floriculturas e diversos outros segmentos no aplicativo.”

O app permite checar os pedidos mais recentes feitos na vizinhança

O passo mais relevante e recente nessa direção foi a entrada, em julho, nas entregas de supermercados, por meio da Cornershop. A startup chilena foi comprada pela Uber em 2019 e já atuava na América Latina. O Brasil e a região, ao lado do Canadá, foram os palcos de estreia do serviço, que começa a chegar agora também nos Estados Unidos.

No mercado brasileiro, os pedidos na categoria já podem ser feitos em 11 cidades e inclui o acesso às “prateleiras” de redes como Carrefour, BIG e Cobasi. O Uber Eats, por sua vez, está disponível em mais de 150 municípios do País.

“Ficar restrito ao delivery de comida não faz sentido”, diz Cristina. Ela ressalta que o segmento já começa a reduzir sua participação nas vendas do food service. De uma fatia de 32% no pico da crise, a projeção é de que o setor feche o ano com um índice entre 15% e 17%. “E muitos restaurantes estão investindo em plataformas próprias para capturar parte dos pedidos e ter maior rentabilidade.”

Mesmo ampliando sua oferta, o Uber Eats vai encontrar um espaço cada vez mais concorrido. E a categoria de supermercados é uma boa amostra desse contexto. Nos Estados Unidos, a empresa tem pela frente nomes como a Amazon e a Instacart.

Já no Brasil, a competição passa por empresas como o Rappi, um dos principais expoentes locais do conceito de superapp, e serviços como James, aplicativo de entregas comprado no fim de 2018 pelo Grupo Pão de Açúcar e cuja expansão nas lojas da varejista vem sendo acelerada na Covid-19.

Outro rival nesse espaço é o iFood, que começou a testar o iFood Mercado em 2019. Hoje, o serviço está disponível em 2,1 mil estabelecimentos, de 200 cidades. E para reforçar essa aposta, a empresa comprou, em setembro, o SiteMercado, que desenvolve soluções de e-commerce para o setor.

Fidelidade

Para ganhar escala e se diferenciar, o Uber Eats também tem suas armas. Uma das principais é o volume de pessoas cadastradas nos serviços da empresa. No Brasil, por exemplo, os aplicativos de transporte e de delivery somam mais de 23 milhões de usuários, de acordo com a companhia.

A partir dessa base, a Uber investiu em um modelo para estimular o uso de todos os seus serviços. Na prática, a empresa quer ser mais “necessária” no dia a dia dos consumidores. E o Uber Eats, com seu leque mais amplo e de maior recorrência, tem um papel essencial para esse ecossistema. “O Uber Eats conecta muitas das coisas que a Uber faz como companhia”, diz Danker.

No Brasil, os aplicativos de transporte e de delivery da Uber somam mais de 23 milhões de usuários

Essa abordagem está concentrada no Uber Pass, espécie de programa de fidelidade lançado em agosto e que, no Brasil, é baseado em uma assinatura mensal de R$ 24,99. Por esse preço, o usuário tem acesso a descontos mensais ou taxas gratuitas em todos os serviços da empresa.

No campo do Uber Eats, o arsenal inclui outras estratégias, que só reforçam a relevância crescente da operação. Recentemente, a Uber contratou cerca de 100 funcionários para integrar o time voltado especificamente ao desenvolvimento do aplicativo de delivery.

Mesmo sob a crise, em julho, a companhia anunciou a compra da Postmates, empresa americana de delivery, por US$ 2,65 bilhões. A aquisição veio depois da negociação frustrada para adquirir a Grubhub, que acabou aceitando uma proposta de US$ 7,3 bilhões da europeia Just Eat Takeaway.

Depois de concluído, o acordo com a Postmates dará um bom impulso na perseguição à Door Dash, líder do segmento nos Estados Unidos, com uma fatia de 46%. Segundo a consultoria Second Measure, a Uber passará de uma participação de 24% para 32% no país.

A Uber está avaliada em US$ 63 bilhões e suas ações acumulam uma desvalorização de mais de 12%

Há quem duvide, porém, que o Uber Eats e a estratégia de entregar de tudo seja capaz de conduzir, enfim, a Uber, avaliada em US$ 63 bilhões e cujas ações acumulam uma desvalorização de mais de 12% no ano, ao caminho da lucratividade.

“É uma estratégia admirável, mas temo que não seja suficiente para repor o enorme buraco deixado pelas perdas do negócio de transporte pessoal”, diz Roger Kay, analista da consultoria americana Endpoint. “A Uber tem uma série de problemas estruturais de longo prazo, incluindo o fato de estar supervalorizada e de ter alcançado seu sucesso inicial nas costas da sua força de trabalho.”

Danker, por sua vez, contrapõe essa visão. “Há seis meses, o Uber Eats era um negócio de nicho”, afirma. “Hoje, já é um serviço mainstream e será uma boa parte do nosso futuro.”

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