Via vai levar logística e crediário para fora de seu ecossistema

A dona da Casas Bahia e Ponto começa a oferecer serviços logísticos para empresas fora de seu marketplace. E, no segundo trimestre, vai plugar o seu motor de crediário em qualquer companhia no modelo de ‘crédito as a service”

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O CEO da Via, Roberto Fulcherberguer

O CEO da Via, Roberto Fulcherberguer, dá uma leve risada quando o assunto é a nova tendência do setor de varejo: o buy now, pay later. O termo em inglês, adotado por muitas startups ao redor do mundo e no Brasil, refere-se ao bom e velho crediário, mas agora no modelo digital.

“O mercado descobriu agora o ‘buy now, pay later’, mas já temos mais de 60 anos de experiência nessa área, fornecendo crédito nas lojas físicas e online”, diz Fulcherberguer, ao NeoFeed.

A partir do segundo trimestre de 2022, a Via, dona das marcas Casas Bahia e Ponto, vai ser mais um competidor neste ambiente, levando o seu crediário digital para fora de seu ecossistema, que inclui as lojas próprias e as vendas online dos parceiros de seu marketplace.

A ideia é plugar o motor do crediário digital, através da conta digital banQi, em qualquer empresa no modelo de “crédito as a service”. “Vamos levar nosso motor de crédito para outros varejistas”, afirma Fulcherberguer. “A aprovação e a gestão do crédito ficará conosco.”

A Via também vai fornecer o funding para o crédito. Questionado a respeito dos recursos, Fulcherberguer diz que isso pode ser feito via o balanço (a Via tem R$ 6,7 bilhões em caixa, incluindo os recebíveis de cartão de crédito) ou por meio de outros veículos, como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

O crédito não será a única estratégia da Via para ir além de seu ecossistema. A companhia também vai começar a oferecer, ainda no primeiro trimestre desse ano, todo o seu serviço de logística para empresas que não fazem parte de seu marketplace.

Essa oferta vai acontecer através da CNT, comprada em janeiro deste ano pela companhia. A ideia é ser um operador logístico para empresas que não fazem parte de seu marketplace. “Vamos fazer a entrega deste seller para qualquer plataforma que ele vende”, diz Fulcherberguer. “Não estamos olhando para quem é concorrente.”

A CNT, que atua há 11 anos no mercado com soluções logísticas para operações de e-commerce e marketplace, possui dois centros de distribuição (CDs), um em Barueri, em São Paulo, e outro em Serra, no Espírito Santo. Entre seus clientes estão marcas como Café Pilão, Goodyear, Cimed, Jafra, Santa Lolla e Kraft Heinz.

Agora, a CNT passará a usar todos os CDs da Via, passando a dispor de mais de 2 milhões de metros quadrados, bem como das lojas físicas da Casas Bahia e Ponto, que são usadas também como mini-CDs em alguns casos. De acordo com Fulcherberguer, sob a gestão da Via, vários novos clientes estão sendo negociados.

“Temos muitos clientes para adicionar, seja do nosso marketplace, ou em mar aberto. Não precisamos construir a infraestrutura logística para fazer isso”, diz o CEO da Via. “Essa é uma vertical que já nasceu operacional. Vamos dar ainda mais produtividade e monetizar ainda mais a nossa infraestrutura logística.”

Nos dois casos – crediário digital e logística – Fulcherberguer diz que não iria fornecer guidance ao mercado, mas que a estratégia faz parte do plano da Via de vender cada vez mais serviços, acrescentando novas avenidas de crescimento e fontes de receita além da venda de produtos, o ganha-pão da companhia.

Na visão de Fulcherberguer, a Via colhe agora os frutos dos últimos dois anos de reestruturação, desde a sua chegada ao comando da empresa, em junho de 2019.

Quando assumiu a empresa, o GMV (Gross merchandise volume, ou valor bruto de mercadoria) da Via era de R$ 32 bilhões. Em 2021, foi de R$ 45 bilhões. No marketplace, a movimentação dos sellers somava R$ 1,7 bilhão. No ano passado, atingiu R$ 6,4 bilhões.

As vendas digitais, que sempre foram um dos calcanhares de Aquiles da Via, que focava na lojas físicas, também deu um salto nesses mais de dois anos e passaram de R$ 8 bilhões, em 2019, para R$ 26 bilhões, em 2021.

Mas isso não significa que a Via vai tirar o pé do acelerador no caso das lojas físicas. No ano passado, foram abertas 101 lojas, sendo que 73 delas em praças em que a varejista não tinha presença.

Neste ano, a expectativa é abrir de 80 a 100 novas lojas. “Vamos seguir ocupando o Norte, Nordeste e Centro-Oeste, além de algumas praças no Sul”, afirma Fulcherberguer.

Resultado

Em 2021, a Via teve uma receita líquida de R$ 30,8 bilhões, um crescimento de 6,9% em comparação ao ano anterior. O lucro líquido ajustado foi de R$ 538 milhões, alta de 32,2%.

No quarto trimestre do ano passado, a receita líquida atingiu R$ 8,1 bilhões, uma queda de 14,2%. O lucro líquido ajustado de R$ 125 milhões foi 73,4% menor do que o mesmo período de 2020.

As vendas online seguiram em alta nos últimos três meses de 2021. Em especial no marketplace, quando atingiram R$ 1,7 bilhão, um crescimento de 68%. No 1P (vendas próprias), elas somaram R$ 4,2 bilhão, mas avançaram apenas 7,7%.

No quarto trimestre, a Via começou a arcar com custos de contingências trabalhistas. No período, o desembolso real ficou 7,5% acima do intervalo superior totalizando R$ 430 milhões.

Em 2022, as ações se desvalorizam mais de 30%. Na B3, a Via vale R$ 5,6 bilhões.

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