Há sete anos, a Standard & Poor’s revogou o “grau de investimento” do Brasil. De lá para cá, o País passou por mudanças econômicas e políticas profundas. Mudou duas vezes de governo e encaminha-se para um terceiro que sairá das urnas em outubro.
Nesse longo período – temperado por uma recessão histórica em 2015 e 2016, pela pandemia e pelo surto inflacionário global – investidores estrangeiros ficaram com o pé atrás ao aportar recursos no País. Mas esse cenário pode começar a mudar.
Setembro engrena com um combo atraente para o capital estrangeiro: forte expansão do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, consolidando o resultado do primeiro e a perspectiva de encerramento do ciclo de alta de juro patrocinado pelo Banco Central (BC) há um ano e meio.
O PIB surpreendeu positivamente analistas de A a Z. O resultado contratou expansão maior que a esperada para o ano e para 2023. E essa evolução tende a alimentar investimentos financeiros para além da taxa de juros que, em termos reais, é a mais alta do mundo.
“O ambiente é muito favorável para o mercado de capitais. A minha suspeita é que o psicológico do ‘fla-flu’ político (às vésperas da eleição) levou a uma visão muito agravada e pouco realista do cenário econômico, mas os fatos são persistentes. Podem e vão atrair mais estrangeiros para investimentos no Brasil”, diz Walter Maciel, CEO da AZ Quest, ao NeoFeed.
Afinado com Maciel, o economista-chefe da BlueLine Management, Fábio Akira, avalia que os estrangeiros estão mal ou pouco posicionados em Brasil desde a perda do ‘grau de investimento’, em setembro de 2015, e do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.
“De lá para cá, os investidores estrangeiros não tiveram tempo para colocar fichas no Brasil. Isso não quer dizer que agora vão colocar (ante o fôlego maior da economia), mas a baixa alocação faz diferença e os dados recentes ajudam a tomar decisões”, avalia.
Akira já tem visto casas estrangeiras mudando a percepção sobre o Brasil pela combinação de expectativa de fim do ciclo de aperto monetário e melhora da atividade.
O economista entende que o processo eleitoral é uma grande interrogação. “E talvez haja um exagero em acreditar que, não importa quem vença a eleição, haverá um rali de ativos no Brasil.”
Akira pondera que fatores de curto prazo ajudam a montar uma narrativa mais positiva sobre o País. “Mas são de curto prazo. A performance melhor da atividade poderá até se repetir no segundo semestre. O aperto monetário pode terminar, mas com uma inflação que ainda não caiu para a meta", diz. "E o desempenho econômico ainda será testado em um ambiente global de menor liquidez.”
Ele lembra que o País está em meio à discussão de um processo eleitoral com pouca visibilidade da agenda econômica do próximo governo, seja ele qual for. “Estamos discutindo a continuidade do Auxílio Brasil de R$ 600 e não qual será a agenda prioritária. E poderemos ter um choque de realidade após a eleição", observa.

Maciel, da AZ Quest, lista a evolução positiva de indicadores econômicos que torna o Brasil atraente aos investidores. Ele afirma que, em janeiro, o mercado acreditava que o País fecharia o ano com relação Dívida/PIB de 97% e “avançamos para cerca de 78%". E que expectativa era de que o PIB não cresceria neste ano ou cairia 0,5%, "e agora vemos que o País deve crescer 3%”.
“Esse crescimento gera arrecadação. Portanto, o aumento do Auxílio Brasil virou dinheiro de pinga para o governo. É um equívoco achar que temos um problema fiscal”, diz. Ele lembra que a inflação de 2023 ficará entre 4,5% e 5% e a Selic irá dos atuais 13,75% para cerca de 9% e, em 2024, para 7%.
“E com o País crescendo. Esse ambiente é favorável para ativos de risco. E é importante lembrar que o conjunto das empresas brasileiras reduziu seu endividamento substancialmente”, ressalta.
Maciel afirma que as empresas desalavancaram. “As privadas e as públicas. E a lucratividade é recorde”, observa, acrescentando que vê, pela frente, uma revisão importante de preços na bolsa brasileira.
“A bolsa trabalha com preços bizarramente descontados. Claro que os ‘kits de ações’ (identificados para os dois principais candidatos à presidência) são diferentes. Mas as empresas brasileiras estão extraordinariamente baratas.”
Para Maciel , a reeleição de Bolsonaro pode trazer impacto pujante para as estatais. Já uma vitória de Lula pode fazer o mesmo para empresas de varejo. “O mercado também deverá corrigir a curva de juros prefixada que está totalmente errada”, diz Walter Maciel que alerta para o fato de, nas últimas quatro semanas, essa curva já estar passando por um “ajuste profundo”.
Ele explica que “trabalhar com juro de 14% ao ano para os próximos 15 anos é loucura”.
“Já estamos vendo que isso não vai acontecer. A Selic vai a 9% no ano que vem, a 7% em 2024. Taxa de 2% vista no passado recente não é natural no Brasil", diz. "E não precisamos de juros de 3% ou 4% para o mercado de capitais ser bom. No Brasil, juro de 1 dígito já é suficiente para ter um céu de brigadeiro no mercado de capitais."
Akira, por sua vez, faz um alerta sobre um momento em particular que poderá repercutir na bolsa brasileira. "Na reunião do Comitê de Política Monetária de 21 de setembro, o Banco Central poderá anunciar que não vai mais subir a Selic”, considera.
O economista entende que será difícil para o BC conter a animação dos mercados na tentativa de antecipar o momento em que o juro começará a cair.
“Essa tentativa pode dar um impulso adicional aos ativos de risco, como a bolsa e deverá levar o BC a ser ainda mais cauteloso (na sinalização), até porque não estará claro se ele conseguirá cortar a Selic mais à frente.”
Akira pondera que a retomada do processo de corte da Selic dependerá de outras variáveis que ainda não estão na mesa, como a extensão do aperto monetário conduzido pelo Federal Reserve (Fed), a política fiscal do próximo governo, o grau de aquecimento da economia brasileira e o comportamento da inflação em direção à meta.