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Egos inflados: série satiriza a gestão de carreira de astros de cinema

“Call My Agent!”, que ganha a quarta temporada até o fim do ano na Netflix, é ambientada em agência de atores de Paris, onde os profissionais se desdobram para agradar os clientes sempre insatisfeitos

 

A série “Call My Agent!”

Estrela de cinema workaholic despreza as cláusulas de exclusividade dos contratos para fazer dois filmes ao mesmo tempo. A bomba estoura na mão de seu agente, que vira seu motorista para contornar a situação, conduzindo-a de uma filmagem a outra.

A atriz é ninguém menos que Isabelle Huppert. Uma das damas do cinema francês, ela aceitou interpretar a si mesma em “Call My Agent!”, série que ganha a sua quarta temporada até o fim do ano, na Netflix.

A proposta aqui é satirizar a difícil arte de administrar a carreira dos astros e estrelas de cinema, retratando os bastidores de uma agência de atores, sediada em Paris. O título original é “Dix pour cent” (Dez porcento), referindo-se à comissão que os agentes (no Brasil, chamados de empresários) normalmente recebem dos atores.

Além da constante luta pelos melhores contratos e pelos mais altos cachês para os seus clientes, a cada novo episódio, os agentes precisam lidar com o ego (geralmente inflado) dos atores. E não faltam conflitos e intrigas no universo do showbiz, envolvendo não só aspectos profissionais como pessoais.

Vale tudo para não perder o cliente, por mais mimado que ele seja. Como Monica Bellucci, agora divorciada de Vincent Cassel, que pede ajuda ao agente para encontrar um namorado “normal”. Ou Béatrice Dalle, que abandona um set de filmagem para não fazer cena de nudez.

Ainda que o roteiro costume exagerar nas situações, para garantir o tom de comédia, muito do enredo é baseado na experiência de Dominique Besnehard, roteirista e produtor da série. De 1986 a 2007, ele atuou em uma das principais agências de talentos da França, a Artmedia, onde gerenciou várias das crises revisitadas agora na série.

Na Artmedia, Besnehard administrou a carreira de celebridades como Isabelle Adjani, Charlotte Gainsbourg, Jacqueline Bisset, Emmanuelle Béart, Jeanne Moreau e Charles Aznavour. Alguns de seus ex-clientes até participam de “Call My Agent!”, como Adjani e Gainsbourg.

Na segunda temporada, Adjani vai ao escritório da ASK, a agência de talentos fictícia, para pedir um papel em “Game of Thrones”. Por ser impossível atendê-la, Adjani é convencida a marcar reunião com um cineasta jovem que procura atrizes para seu novo filme. Mas ele não trata a estrela de “Camille Claudel” (1988) e “A Rainha Margot” (1994) como ela esperava.

Gainsbourg é uma das convidadas da quarta temporada, que deve ser a última. Sigourney Weaver também marca presença na nova safra, vivendo uma cliente recém-chegada. A estrela de “Alien – O 8º Passageiro” (1979) promete dar um toque mais hollywoodiano à série, que até então destacou as celebridades francesas.

Na primeira temporada, a produção de “Call My Agent!” teve certa dificuldade para convencer grandes nomes a fazerem as participações especiais – já que os atores tinham medo de saírem do show com uma imagem negativa.

Mas isso já não é problema, graças ao sucesso da série, sobretudo na França, onde a audiência oscila entre 3 milhões e 4 milhões de espectadores por episódio, no canal France 2.

Além do elenco fixo, formado pelos atores Thibault de Montalembert, Camille Cottin e Grégory Montel vivendo os agentes, cada episódio apresenta um astro. De preferência, alguém com senso de humor suficiente para aceitar ser motivo de piada.

“Nunca tive problema em rir de mim mesmo. É o que eu mais faço”, contou Jean Dujardin, vencedor do Oscar de melhor ator por “O Artista” (2011). Na terceira temporada de “Call My Agent!”, Dujardin dá trabalho ao seu agente por não conseguir abandonar o último personagem que viveu nas telas.

O caso é tão sério que, mesmo passada a filmagem, o ator não consegue mais tirar o figurino. Ele passa a acampar no quintal de sua casa, achando que ainda é o desertor do exército que se esconde na floresta. “Achei que seria divertido retratar um caso clínico de ator obcecado”, disse Dujardin, em encontro com o NeoFeed, em Cannes.

Juliette Binoche também topou a brincadeira. Em sua participação, na segunda temporada, a ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por “O Paciente Inglês” (1986) deixa a sua agente em situação difícil, ao implicar com o vestido que recebe para apresentar a cerimônia de abertura do Festival de Cannes. Mais tarde, a agente ainda precisa livrá-la de um patrocinador que insiste em receber a atriz em seu barco para “discutir projetos”.

“Nesse episódio, mostramos como o assédio acontecia. E isso antes mesmo do movimento Me Too”, afirmou Juliette, ao NeoFeed, em Berlim. “Conversei muito com os roteiristas sobre como interpretar a mim mesma aqui. Sou eu e, ao mesmo tempo, não sou”, disse, lembrando que a série brinca com a imagem que o público tem dos atores.

“Call My Agent!” é uma das atrações do CanneSeries, festival internacional de séries de TV agendado para o período de 9 a 14 de outubro, na Riviera Francesa. Serão exibidos os dois primeiros episódios da quarta temporada, ainda inédita.

Graças à visibilidade que ganhou pelo mundo, com a Netflix, a série será adaptada para outros países. Já foram anunciadas versões no Canadá, na China, na Itália e no Reino Unido. Em território inglês, a trama será ambientada em Londres, com atores britânicos e também americanos entre os clientes.

O que falta para a série original finalmente se consagrar é conseguir convencer dois monstros sagrados do cinema francês a participarem. Os agentes de Catherine Deneuve e Gérard Depardieu na vida real já tentaram. Mas ainda não realizaram a façanha.

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