Advent aporta R$ 1,35 bilhão para se “conectar” à Tigre

A gestora comprou 25% de participação no Grupo Tigre, famoso pelos tubos e conexões. Com o dinheiro, a companhia pretende avançar sobre o mercado internacional e aproveitar o “boom” de infraestrutura no saneamento brasileiro

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A conexão com a Advent pode ajudar a Tigre a dominar o mercado americano

Com 23 fábricas em dez países, 15 mil acessórios fabricados e mais de 5 mil funcionários, o Grupo Tigre é o segundo maior player das Américas em hidráulica, elétrica, drenagem e acessórios sanitários. Para uma empresa brasileira, fundada há mais de 80 anos, 100% controlada pela mesma família, os Hansen, de Santa Catarina, são feitos dignos de aplausos.

A companhia, entretanto, está em busca de mais. E em um curto espaço de tempo. No relatório financeiro do terceiro trimestre de 2021, o mais recente disponível, o CEO da empresa, Otto Rudolf Becker Von Sothen, deixou claro que o plano da Tigre é se tornar a líder das Américas, em cinco anos, por meio de fusões, aquisições e inovação.

Para esse plano, com o perdão do trocadilho, “não entrar pelo cano”, será necessário dinheiro – muito dinheiro – e um parceiro com expertise em gestão e M&As. E ele está chegando. A gestora de private equity americana Advent International anuncia hoje a compra de 25% do Grupo Tigre por R$ 1,35 bilhão. Trata-se de uma operação 100% primária e da primeira vez em oito décadas que a empresa familiar abre seu capital para alguém de fora.

O aporte se junta a outros R$ 600 milhões que foram captados via uma emissão de debêntures no ano passado, dando muita folga ao caixa do grupo. Hoje, a empresa tem uma dívida líquida de R$ 1,17 bilhão e uma alavancagem de 1,14 vez o seu ebitda, considerada baixa. Mas, como pretende, sair às compras vai precisar de capital.

Em abril do ano passado, a companhia já havia feito um movimento ousado, comprando a empresa americana Dura Plastic Products Inc., fabricante americana de tubos de PVC com faturamento de US$ 50 milhões. Com essa aquisição, passou a figurar entre as cinco maiores do segmento nos Estados Unidos.

Na época, a empresa revelou que a aquisição consolidava os Estados Unidos como o segundo polo de produção de conexões da Tigre, perdendo apena para o Brasil. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Otto von Sothen, afirmou que o negócio se encaixava perfeitamente na estratégia da companhia.

“Teremos complementariedade muito boa de portfólio, pois quase não há sobreposição de produtos. Enquanto atuamos na Costa Leste dos Estados Unidos, a Dura está presente na Costa Oeste e no Meio-Oeste”, disse ao jornal. Também aumenta a receita dolarizada.

Trata-se de uma operação 100% primária e da primeira vez em oito décadas que a empresa familiar abre seu capital para alguém de fora

A receita líquida da Tigre até o terceiro trimestre de 2021 alcançou R$ 4,2 bilhões e o lucro líquido da companhia atingiu R$ 491,9 milhões. Do total das vendas, 63% vieram do Brasil, 11% dos Estados Unidos, outros 11% da Argentina e o restante de outros países da América Latina.

Além da expansão internacional, a empresa pretende surfar em várias ondas. Uma delas é a de reformas residenciais, impulsionadas pela Covid-19, que fez as pessoas ficarem em casa e se refletiu no aumento das obras.

De acordo com um estudo da Associação Nacional dos Comerciantes de Materiais de Construção (Anamaco) em parceria com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), o varejo de materiais de construção cresceu 16% em 2021.

A outra onda, que pode fazer a Tigre partir para outro patamar, é a das obras de infraestrutura. Afinal, o grupo também atua na área industrial. Com a aprovação da nova lei do saneamento, em 2020, espera-se a universalização do tratamento de água e esgoto até 2033. Para isso, será preciso uma rede estimada em mais de 500 mil quilômetros de tubulações.

Segundo o estudo “Universalização do saneamento no Brasil”, da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) em parceria com a consultoria KPMG, as obras de ampliação das redes de esgoto consumirão investimentos de R$ 750 bilhões. Desse total, quase R$ 100 bilhões serão abocanhados pelas fabricantes de tubulações.

Fuja do mico

Todos esses sinais e as perspectivas chamaram a atenção da Advent, que já investiu mais de US$ 7 bilhões em empresas na América Latina. O primeiro contato entre Advent e Felipe Hansen, presidente do conselho de administração da Tigre e membro da terceira geração da família controladora, aconteceu há 10 meses e se deu por meio de Pércio de Souza, da Estáter, que tinha o mandato para o deal.

Um profissional que esteve a par das negociações diz que o que mais pesou na escolha da família em favor da Advent foi, obviamente, o histórico de negócios da gestora e também as portas que ela pode abrir nos Estados Unidos. “O mercado americano de tubos e conexões é muito pulverizado. O plano deles é comprar as várias empresas familiares que existem lá e consolidar”, diz essa fonte.

A Advent tem investido cada vez mais no setor industrial. Foram US$ 13,5 bilhões em várias companhias ao redor do mundo, dentre elas, dez na região latino-americana como a distribuidora de produtos químicos GTM. A gestora esteve entre as finalistas na compra da Oxiteno, do Grupo Ultra, e seu nome é constantemente ligado a compra da Braskem.

A gestora também conhecia a Tigre do outro lado do balcão. A Advent foi acionista da rede de varejo de construção Quero-Quero, uma das maiores compradoras da Tigre. Em agosto de 2020, a gestora saiu da varejista com R$ 1,96 bilhão no bolso depois do IPO da companhia na qual tinha entrado, em 2008, com um cheque de R$ 300 milhões.

Um IPO da Tigre não deixa de ser cogitado para o futuro. Não é para menos. Além de ser uma companhia com grande potencial, a Advent é uma gestora de private equity: só entra em um negócio de olho em um alto retorno e, evidentemente, uma saída lucrativa.

O dinheiro que está sendo usado na compra da Tigre vem do seu sétimo fundo na região, o Latin American Private Equity Fund VII (Lapef 7), de US$ 2 bilhões

O dinheiro que está sendo usado na compra da Tigre vem do seu sétimo fundo na região, o Latin American Private Equity Fund VII (Lapef 7), de US$ 2 bilhões. Com a compra da participação na Tigre, a Advent ainda tem 70% desse montante para investir em outras companhias na região.

No Brasil, a empresa tem um histórico reconhecido pelo mercado. Um dos mais recentes – e notórios – é a venda do Big para o Carrefour, feita há quase um ano, em março de 2021. A gestora comprou a operação do Wallmart, em 2018, pôs a casa em ordem, remodelou a marca e vendeu para o Carrefour por R$ 7,5 bilhões.

A companhia, com US$ 86 bilhões sob gestão no mundo, também tem posições em empresas nacionais como Ebanx, Nubank, CI&T, Yduqs, Fortbras, Kopenhagen, entre outras. Uma das principais características da gestora é a de ajudar o management de suas investidas com conexões e a gestão das companhias.

Nesse caso da Tigre, a Advent não entrará na gestão, mas terá dois membros dos sete que formam o conselho de administração da empresa. O NeoFeed apurou que os indicados devem ser Patrice Etlin, managing partner da Advent, e outro conselheiro independente.

A Tigre, que ficou nacionalmente famosa com aquela propaganda do “Fuja do Mico, use Tigre”, precisará entregar a estratégia que está prometendo para a Advent. Só assim, a gestora terá certeza absoluta que a mensagem difundida no comercial faz, de fato, todo o sentido.

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