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O Brasil não está barato, mas fundo com US$ 300 bilhões em ativos vai dobrar aposta no País

O CPP Investments, um dos maiores fundos de pensão do mundo, tem parcerias com Votorantim Energia e Cyrela no Brasil, além de investimentos na Aliansce Sonae e na Smart Fit. Em entrevista ao NeoFeed, Rodolfo Spielmann, head para a América Latina, diz que pretende dobrar investimentos no País e fala do interesse em participar das privatizações

 

Rodolfo Spielmann, head do CPP Investments para a América Latina

O Canada Pension Plan Investment Board (CPP Investments) é um dos maiores fundos de pensão do mundo, com ativos da ordem de US$ 300 bilhões. Hoje, 85% dos seus investimentos estão fora do Canadá. E os mercados emergentes, que incluem China, Índia e América Latina, estão cada vez mais ganhando participação na estratégia do fundo.

“Hoje, nossos ativos nos mercados emergentes representam 21%. E queremos chegar a 33% até 2025”, afirmou Rodolfo Spielmann, head do CPP Investments para a América Latina, em entrevista ao NeoFeed. “Do nosso portfólio global, aproximadamente 4% está na América Latina. Podemos levar isso para até 8%.”

O CPP Investments tem aproximadamente US$ 12,8 bilhões em ativos na região. De perfil discreto, o fundo canadense está por trás de grandes negócios no País.

No Brasil, por exemplo, o fundo fez parte do consócio com a Votorantim Energia que comprou a Companhia Energética de São Paulo (Cesp), em 2018. Ele tem também uma joint venture com a Votorantim Energia para a área de energia renovável.

Na setor de real estate, a CPP Investments atua com a Cyrela Commercial Properties (CCP), na qual tem vários ativos em conjunto. O fundo mantém ainda uma joint venture com a Cyrela para explorar o segmento de locação residencial, com foco em imóveis de média e alta renda, em São Paulo.

O fundo conta também com fatia de 23% na administradora de shopping center Aliansce Sonae. E detém uma participação de 12,4% na academia Smart Fit, além de diversos outros empreendimentos no Brasil.

Nesta entrevista, Spielmann reforçou a aposta de longo prazo no Brasil, dizendo que os fundamentos da economia brasileira não mudaram, apesar dos desafios de curto prazo. Disse ainda que o País não está barato e que não faz investimentos baseado na taxa do câmbio.

Para Spielmann, o Brasil deveria retomar a agenda das reformas e as privatizações. Na conversa, ele deixou clara a intenção do CPP Investments em participar desses leilões, citando interesse em ativos de saneamento, energia e infraestrutura, como aeroportos, portos e rodovias pedagiadas. Acompanhe:

É um bom momento para investir no Brasil?
Para nós, o cenário de médio e longo prazo não mudou. Temos ainda uma série de oportunidades e de setores que observamos de forma bastante positiva. Mas, no curto prazo, é um cenário, claramente, desafiador. Não só no Brasil, mas também no mundo inteiro. Não temos ainda uma perspectiva de quanto e de que forma a pandemia vai acabar. E como não sabemos como vamos sair dessa crise de saúde, não sabemos também como a economia vai reagir. Não sabemos quão fundo vai ser a recessão esse ano e como vai ser a recuperação no ano que vem. Há ainda muita incerteza. Mas, no médio e no longo prazo, que é o que nos move em nossos investimentos, continua sendo uma perspectiva positiva. Neste sentido, continuamos a fazer investimentos no Brasil e na América Latina.

Para uma gestora como o CPP Investments, que investe em dólar, o Brasil não está barato?
Temos um entendimento diferente do impacto do dólar nos investimentos. Existem vários empresários que falam que o Brasil está barato. Tem que pensar como investidor. Você faz uma projeção de “cash flow”. Se entra com um dólar a R$ 5, qual vai ser o seu “cash flow”? Não vai ser a R$ 6 ou a R$ 4. Vai ser a R$ 5. Então, se entrar a R$ 5, você entra por um valor menor (em reais). Mas o seu “cash flow” ficou também desvalorizado. A menos que ache que o pico é R$ 5 e depois o dólar vai para R$ 4. Então, é um bom negócio. Mas, neste caso, você está fazendo uma especulação de câmbio. Para isso, não precisa fazer investimentos nativos. Pode fazer no mercado financeiro. Não especulamos com o câmbio. Vamos fazer investimentos a R$ 2, a R$ 3, a R$ 4, a R$ 5, a R$ 7 e R$ 8. Isso não muda absolutamente em nada. É uma falácia achar que o Brasil está barato. Para nós, o que vale são os fundamentos de longo prazo. Isso que faz um país, um setor ou uma empresa ser atrativa, não é o câmbio do dia.

“É uma falácia achar que o Brasil está barato”

Por que o Brasil não está barato?
Temos de ver ativos caso a caso, em função das perspectivas de crescimento, de desenvolvimento e de geração de caixa e lucro. O meu ponto talvez seja o de dizer que não está barato por conta do câmbio. O câmbio não faz um ativo barato, porque depende da capacidade de geração de caixa futuro. Em geral, o mercado tem tido uma correção, principalmente nos ativos listados. Focamos muito mais em ativos individuais do que em índices.

Diante disso, o CPP Investments está pensando em aumentar, manter ou diminuir os investimentos na América Latina?
Temos uma estratégia declarada de investimentos, em nível global, de aumentar nossa participação nos mercados emergentes. Para nós, mercados emergentes são China, Índia e América Latina, onde o principal mercado é o Brasil. Temos um número para isso. Hoje, nossos ativos nos mercados emergentes representam 21%. E queremos chegar a 33% até 2025. Do nosso portfólio global, aproximadamente 4% está na América Latina. Podemos levar isso, como parte dessa estratégia, até 7% ou 8%.

O objetivo é dobrar os investimentos na América Latina em cinco anos?
Isso em proporção. Porque o nosso fundo tem crescido, nos últimos 10 anos, ao redor de 9,5% ao ano. Com isso, estamos duplicando a participação. O impacto seria mais do que duplicar em valores absolutos. Estamos hoje com 17,5 bilhões de dólares canadenses (US$ 12,8 bilhões) na região. Vamos mais do que duplicar isso.

As bolsas de valores estão negociando a patamares próximos a que estavam antes da pandemia. Elas estão descoladas da realidade?
Tem se discutido muito isso. E claramente o mercado financeiro está um pouco otimista. Acredito que há um pouco de otimismo que não dá para explicar racionalmente. Estamos tendo um impacto na economia que vai levar ao desemprego. Houve uma melhora nos Estados Unidos, em maio. Mas a situação continua bastante complicada. Ainda vamos ver como as empresas serão impactadas em relação a perda de rentabilidade, ao desemprego e tudo o mais. Se espera um desemprego acima de 20% nos Estados Unidos. E a recuperação não deve ser tão rápida. Há uma exuberância um pouco exagerada.

“O mercado financeiro está um pouco otimista. Acredito que há um pouco de otimismo que não dá para explicar racionalmente”

O que os investidores estão enxergando que não estamos vendo que justifique esse desempenho da bolsa?
Eles estão enxergando, principalmente, a recuperação do ano que vem. Os investidores estão, de certa forma, antecipando a recuperação da economia. Mas só que essa recuperação não tem sustentação ainda. Os economistas não sabem qual vai ser o buraco este ano: se vai ser menos 6%, menos 8%, menos 10% ou menos 12%. Estamos vendo o impacto nas nossas empresas. E ainda não sabemos. Temos os cenários e vamos atualizando. E os que se confirmam são os mais duros. Não sabemos ainda qual vai ser o buraco esse ano. Imagina o ano que vem? Não sabemos qual vai ser o impacto da crise de saúde. Uma vacina se fala que só teremos em 18 meses a 24 meses. E, nos Estados Unidos, estamos vendo várias cidades que estão tendo uma segunda onda da Covid. Tem muita incerteza para achar que o ano que vem vai ser um céu de brigadeiro e vai ter um crescimento de 4%, 5% ou 6%. Essa é a perspectiva que faz a bolsa crescer tanto. Mas não está baseada em, digamos, fatos e realidades que estamos enxergando.

Dos seus ativos, quais estão se saindo melhor e quais estão pior?
Um que tinha um cenário desafiador mas já está saindo é a área de varejo. Um dos nossos grandes investimentos é na Aliansce, de shopping centers. Agora, estamos com quase dois terços dos shoppings já abertos. Claro, com horários restringidos e com protocolos muito rígidos. Fazemos constantemente cenários de crise, mas não havia nenhum cenário onde você achava que não iria faturar. Não existe, não tem precedente. Pode ter a pior recessão com queda de 15% do PIB, mas não havia um cenário de lockdown completo. Parou. Parou a economia em alguns setores. Tem outros setores que estão um pouco menos afetados, como energia. Caiu a demanda, mas seguiu tendo geração, transmissão e distribuição. Uma área que tem sido menos afetada é a de aluguel de lajes de escritórios. Temos uma parceria com a Cyrela, são lajes premium, que continuam com demanda firme e os inquilinos pagando. O lado positivo é que temos esses investimentos com uma alavancagem muita baixa. Todas as empresas, seja a Aliansce ou a Smart Fit, que também investimos, estão bem capitalizadas e conseguem passar por essa crise sem stress financeiro.

Havia uma agenda robusta de privatizações previstas para 2020. Você acredita que elas vão acontecer e a CPP Investments tem plano de participar?
Se tem uma perspectiva de retomada de curto prazo é a volta das reformas que incluam as privatizações e as concessões. Não tem nenhum motivo, uma vez passado o pior da crise, de não voltar a fazer essas reformas. Uma delas é a de saneamento. Mas tem outras, como a tributária e a administrativa. E parte dessas reformas são as privatizações. É uma questão de lógica. Primeiro, há capital disponível para investimentos. O número mais recente citado pela consultoria Bain & Company é de US$ 2,5 trilhões em nível global para investimentos. O Estado não tem capacidade para fazer investimento público. Precisa, então, de capital privado. Tem muitas oportunidades. Para responder diretamente a sua pergunta: sim, estamos interessados.

“Se tem uma perspectiva de retomada de curto prazo é a volta das reformas que incluam as privatizações e as concessões”

Mas você acredita que a agenda de privatizações vai ser retomada neste ano?
Não sei se tudo. Acredito que não. Mas uma área que está avançada é a de saneamento. O novo marco regulatório tem uma chance de sair esse ano. E quem sabe nos surpreendemos com uma agenda positiva e acelerada no segundo semestre de reformas, concessões e privatizações para animar o lado do investimento.

Que setores, caso as privatizações voltem a acontecer, vocês têm interesse?
São os que já falei parcialmente. Saneamento é um setor que interessa. Energia, tanto geração como transmissão. No primeiro setor tem a Sabesp. No segundo, a Eletrobras. Esse seria o caminho para que essas empresas voltem a crescer e voltem a atrair investimentos. E esses investimentos têm um efeito multiplicador na economia. Outro setor é a infraestrutura num entendimento mais amplo, como aeroportos, portos e rodovias pedagiadas. Há bastante potencial.

O CPP Investments tem parcerias com empresas familiares no Brasil. É caso da Votorantim, em energia, e a Cyrela, em real estate. Por que essa estratégia?
Sabemos o que sabemos fazer. E sabemos o que não sabemos fazer. O que sabemos fazer é investir, mas do ponto de vista financeiro. Influenciamos a escolha do board, da diretoria e tudo mais. Mas não operamos os ativos. Para operar os ativos, buscamos um parceiro que entenda disso. Em energia, nos pareceu o melhor parceiro o grupo Votorantim Energia. Além da seriedade, profissionalismo, cultura e valores, eles são excelentes operadores no setor. Em imóveis, foi o grupo Cyrela. Em shopping, apostamos em outra empresa familiar, a Aliansce. É uma empresa de dono, de fundador, que já está na segunda geração com o Renato Rique. Agora na fusão com a Sonae não temos mais de 50%, mas somos o principal acionista. A influência do dono ainda é fundamental.

Você trabalha para um fundo canadense. Você gasta muito tempo explicando o Brasil para eles?
Dedico parte do meu tempo a isso também. É importante separar o barulho dos fundamentos. O barulho são as notícias dos jornais, mas que não afetam os fundamentos. O meu trabalho é isso. É ir aos fundamentos e ver o que vai ser uma tendência e um fator relevante para os investimentos daqui a seis, 12, 24 meses ou daqui a cinco anos. E não aquilo que daqui a uma semana mais ninguém fala. São coisas muito fundamentais, como institucionalidade, independência dos poderes, liberdade de expressão e liberdade de imprensa, estabilidade regulatória, respeito a propriedade privada e a propriedade intelectual. Esses são alguns dos fundamentos que para nós são muito importantes. Os mercados emergentes têm uma volatilidade maior. E não é só a América Latina que é complicada. Não tem mercado emergente fácil. O motivo para investirmos em mercados emergentes é justamente esse. Primeiro precisamos de uma diversificação. Depois acreditamos e esperamos uma performance melhor do que os mercados desenvolvidos. Mas precisa ter uma visão local. Hoje, nosso escritório em São Paulo conta com 33 pessoas.

“Os mercados emergentes têm uma volatilidade maior. E não é só a América Latina que é complicada. Não tem mercado emergente fácil”

Esses fundamentos que você citou são consistentes no Brasil?
Às vezes, tem elementos que criam instabilidades e questionamentos. Mas, em geral, posso dizer que são sim consistentes. A institucionalidade tem sido bastante positiva. Há desafios que encontramos que são navegáveis e a médio e longo prazo dão essa perspectiva de relativa estabilidade. Apesar dos solavancos de curto prazo.

O que você chama de barulho?
Barulho é a bolsa subir 1%, cair 2%, ou o câmbio disparar. Mas daqui uma semana ou quatro semanas, ninguém mais estará reparando nisso. É talvez uma declaração, não vou dar exemplos, uma briga e um desentendimento, que pode ser da política ou da economia. Mas não afetam os fundamentos. Os fundamentos são estabilidade regulatória, leis de respeito à propriedade privada e à intelectual. E até a luta contra a corrupção. Para nós, uma coisa fundamental é ter um Ministério Público e um Judiciário independentes que façam seus trabalhos. Isso não é tão óbvio.

Você conversa com muitos investidores internacionais. A imagem do Brasil está arranhada no exterior?
Tem sido um pouco mais desafiador comunicar esses fundamentos. Se fosse for ler o Financial Times, o The New York Times, o The Wall Street Journal e mesmo a The Economist, que são relativamente objetivos, capitalistas e pró-business, eles estão bastante críticos (ao Brasil). E é o que o investidor de fora lê. Tem de estar aqui, no mercado local, para entender os fundamentos. Quem está fora, lê isso e fala: ‘vou parar um pouquinho até que essas manchetes melhorem”. Para nós, temos o benefício de ter uma perspectiva local e olhamos além desse barulho de curto prazo. Mas está sendo mais desafiador porque está tendo um pouco mais de barulho do que estamos acostumados. Mas, sinceramente, abrimos escritório aqui há quase seis anos. Estamos investindo desde 2009 no Brasil. A cada dois ou três anos, há um desafio e passamos pela pior recessão da história. Tem sido desafiador, mas os fundamentos não mudaram.

A questão ambiental está se tornando importante na hora do CPP Investments investir?
Não tem como não considerar. Em cada investimento que fazemos, temos uma avaliação completa e formal sob o aspecto de ESG (environmental, social e corporate governance). Vai desde o tema de inclusão e diversidade do board e do management até a participação de minorias. Por outro lado, tem a parte do meio ambiente. Nós fazemos uma avaliação de impacto de climate change em todos os nossos investimentos. Temos também regras para nossas investidas. Estamos exigindo que elas reportem a emissão de carbono.

No ano passado, tivemos queimadas na Amazônia com repercussão internacional. A imagem do Brasil, nessa área, não está também muito boa. Isso atrapalha os seus investimentos?
Não atrapalha diretamente nossa decisão. Mas diria que isso não é válido para todos os investidores. Nós estamos aqui, temos uma perspectiva local e sabemos separar os ruídos dos fundamentos. Mas quem está fora e vê isso diz ‘vamos reavaliar, vamos parar os financiamentos’. Nós continuamos com o mesmo interesse. Mas fazemos a nossa diligência ambiental. Mas claro que há muitos desafios, tanto de comunicação, como de política.

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