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A startup que quer digitalizar os pequenos negócios da periferia (sem cobrar nada)

A Dolado recebeu um aporte de US$ 2,2 milhões liderado pela Valor Capital para levar ferramentas digitais gratuitas para pequenos comerciantes em áreas periféricas e em pequenas cidades. Saiba como a startup pretende ganhar dinheiro

 

Os fundadores da Dolado (da esq. à dir.): Khalil Yassine, Marcelo Loureiro e Guilherme Freire

Em abril de 2020, os empreendedores Khalil Yassine, Guilherme Freire e Marcelo Loureiro se uniram para criar uma startup que desenvolvesse uma ferramenta para otimizar o abastecimento de mercadorias em pequenos comércios.

Mas o roteiro foi alterado com a pandemia do novo coronavírus. Os pequenos comerciantes que eles queriam atender estavam com as portas fechadas. E a prioridade dessas empresas passou a ser a digitalização para sobreviver. A questão é que a imensa maioria deles não sabia como fazer isso. O trio, então, resolveu colocar a mão na massa e ajudar esses negócios a vender online.

“Eu ia aos pequenos comerciantes para ensinar a digitalizar, a tirar foto e cadastrar produto”, diz Yassine ao NeoFeed. “Até que um dia, alguém jogou essa informação no WhatsApp e meu telefone não parou de tocar.”

Essa foi a senha para que os empreendedores enxergassem ali um negócio que nenhuma plataforma de comércio eletrônico, das dezenas que existem no mercado, conseguia ver. Não bastava dar acesso a ferramentas digitais, era preciso ensinar, de preferência in loco, essas comerciantes a tirarem o melhor proveito dessas tecnologias.

Foi assim que surgiu a Dolado, em julho de 2020, uma plataforma de digitalização gratuita para pequenos varejistas em áreas periféricas e em pequenas cidades. “Hoje, o nosso foco é ser o superapp do pequeno comércio”, afirma Yassine.

Essa ideia acaba de receber um aporte seed de US$ 2,2 milhões (aproximadamente R$ 11 milhões) liderado pela Valor Capital, a gestora do ex-embaixador do EUA, Cliff Sobel. A rodada contou também com a participação da Global Founders Capital, Provence e Norte Capital.

Investidores-anjo de empresas como iFood, Stone, Olist, Viva Real, Paypal e sócios de fundos internacionais como Lightspeed Ventures e Expanding Capital também entraram no aporte. Com os recursos, a startup irá ampliar equipe e fazer investimentos em tecnologia e produto.

O foco da Dolado são as regiões periféricas. Em São Paulo, por exemplo, a companhia atua em bairros da Zona Leste, como Cidade Tiradentes, Itaquera e São Miguel Paulista. A startup está também em Lauzane Paulista, na Zona Norte. Cubatão, próximo a Santos, no litoral de SP, e Campos de Goitacazes, no Rio de Janeiro, são cidades em que a startup está também testando seu produto.

O alvo são comerciantes que não têm nada digitalizado e preferem registrar tudo em um caderno – as compras, as vendas e o fluxo de caixa. Para quebrar essa resistência, a Dolado recruta pessoas da própria comunidade e dá treinamento para que elas saiam pelo bairro ensinando os lojistas a usar a ferramenta – em geral, são negócios que faturam de R$ 5 mil até R$ 70 mil por mês e, em comum, não usam tecnologia.

Hoje, a startup conta com 20 líderes comunitários que funcionam como analistas de negócios. Eles oferecem uma espécie de catálogo digital que permite o lojista sair vendendo rapidamente. Tudo é feito pelo celular e pelo WhatsApp – o comerciante, inclusive, define o raio no qual ele deseja atender a partir da loja. “Os líderes comunitários fazem o trabalho e a rota do dia”, afirma Yassine. “Não adianta mandar e-mail ou fazer propaganda por Google e Facebook. Preciso entrar na loja e fazer tudo.”

Até agora, a Dolado já conseguiu conquistar 3 mil lojistas. Até o fim de dezembro, espera chegar a 5 mil

Até agora, a Dolado já conseguiu conquistar 3 mil lojistas. Até o fim de dezembro, espera chegar a 5 mil. Nessa fase, a ideia é ganhar massa crítica. O plano não é cobrar do lojista. A monetização, no futuro, acontecerá através de parceiros que vão oferecer produtos aos comerciantes, desde serviços financeiros até mesmo a sistemas para a digitalização do processo de compra.

“O pequeno lojista entende que precisa dar os primeiros passos na digitalização, sabe da oportunidade de atender melhor sua clientela estando disponível online e quer encontrar novos consumidores que agora querem comprar pelo celular”, diz Ariel Lambrecht, fundador da 99 e um dos principais investidores-anjo do Brasil. “A Dolado vem justamente ajudar a vida desse lojista, trazendo soluções de tecnologia para quem não tem tempo a perder com sistemas complexos e implementações demoradas.”

Lambrecht não é investidor da startup. Mas está ajudando o trio de investidores no desenvolvimento negócio. Os fundadores da Dolado Freire e Loureiro são ex-executivos da Grow, a companhia de patinetes elétricos que surgiu da fusão da Grin com a Yellow, da qual Lambrecht era um dos fundadores. Yassine, por sua vez, é de uma família de comerciantes que viveu na pele todas as dores que ele quer atualmente resolver.

Com o aporte, a plataforma vai ganhar novos recursos. A companhia retomará o projeto de desenvolver uma plataforma abastecimento de mercadorias em pequenos comércios. Um “caderninho digital” também já está sendo testado em várias lojas. “Não posso criar um ERP, que eles não vão usar”, afirma Yassine. “É um catálogo em que eles não vão escrever nada.”

No pitch aos investidores, os empreendedores disseram que esse é um mercado que conta com 20,5 milhões de pequenos negócios na América Latina e com um potencial de faturamento de US$ 15,3 bilhões anuais. “É uma ferramenta bárbara de fomento ao microempreendedorismo”, diz Renato Mendes professor de pós-graduação no Insper e colunista do NeoFeed. “É uma forma de retirar as pessoas da pobreza.”

Tanto que a busca de referência de plataformas como a da Dolado tem de ser buscadas em países emergentes. Na Colômbia, por exemplo, existe a Elenas, uma startup que desenvolve uma ferramenta de e-commerce que ajuda milhares de pessoas a vender online por meio de Facebook, WhatsApp e outras redes sociais. Em outubro deste ano, a startup recebeu US$ 2 milhões de fundos como Alpha4 Ventures, Amador Holdings, Polymath Ventures e da Meesho.

Esse último nome é uma startup indiana que já atraiu mais de US$ 215 milhões em investimentos. A Meesho também usa o que é chamado de social commerce para incluir pequenos comerciantes. Até o Facebook já investiu na companhia, que está perto de receber um novo aporte e se tonar um unicórnio, como são chamadas as empesas que valem mais de US$ 1 bilhão.

Os dois exemplos, no entanto, usam ferramentas de redes sociais para incluir digitalmente os pequenos negócios. “O desafio de quem usa uma solução própria é convencer os negócios a se ligarem a sua plataforma”, afirma Mendes. É, por enquanto, o caso da Dolado.

Em tempo: o nome Dolado foi inspirado em dois fatores. A startup que estar “do lado” do pequeno comerciante. E a ferramenta é para que ele possa vender “do lado” de sua loja.

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