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A “confusão sexual” que pode render bilhões de reais ao agronegócio brasileiro

Como uma empresa fundada por uma vencedora do Nobel de química, investidores da pesada e uma tecnologia inovadora pretende avançar no agronegócio brasileiro evitando a procriação da lagarta-do-cartucho

 

O feromônio desenvolvido pela startup pode ser pulverizado junto com o agrotóxico ou com água

O executivo Ricardo Miranda, 58 anos, CEO da startup Provivi no Brasil e na Argentina, já se acostumou com a gozação que fazem com ele sempre que entra numa roda de conversa, principalmente no meio agrícola. “Todo mundo diz que eu acabo com a ‘festa’ dos machos e das mariposas”, diz ele. “Mas aviso que não pega em gente”, brinca.

Miranda, de fato, tem como missão acabar com a “festa” da spodoptera frugiperda, popularmente conhecida como lagarta-do-cartucho. A Provivi, startup de biotecnologia fundada em 2013 na Califórnia, que já recebeu US$ 130 milhões em aportes, acaba de ganhar a aprovação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para vender um feromônio líquido que pode ser usado em pulverizações.

Ao pulverizar a plantação, cria-se uma nuvem de feromônio que confunde os machos e faz com que não fecundem os óvulos das fêmeas, diminuindo a população da lagarta-do-cartucho nas lavouras brasileiras. “É o primeiro produto líquido para esse tipo de praga e pode ser aplicado em larga escala”, afirma Miranda ao NeoFeed.

Essa praga, que devora as lavouras de milho e também ataca as culturas de soja e algodão, faz jus ao nome de praga. Trata-se de um bicho pequenino, mas que gera perdas gigantescas. De acordo com um estudo preparado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) em parceria com a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), a lagarta-do-cartucho gerou prejuízos de R$ 34 bilhões em 2017.

A Provivi, com sede em Santa Monica, nos EUA, tem escritórios espalhados pelo Brasil, Argentina, México, Quênia, China e Índia, e vai atuar neste segmento com a marca Pherogen. De acordo com Miranda, a empresa vai começar a apresentar o produto aos produtores brasileiros e iniciar as vendas na safra 2021/2022. A meta é faturar US$ 150 milhões nos próximos cinco anos.

Quem conhece o setor entende que, se o produto se mostrar eficaz, a empresa terá muito espaço para deslanchar no País, onde os defensivos agrícolas movimentam US$ 10,7 bilhões por ano. “Essa praga é muito voraz. Se for mesmo eficiente, vende tudo”, diz Cleber Soares, diretor de inovação do Mapa. “Para o agricultor, é como se estivesse descobrindo a pólvora.”

A lagarta-do-cartucho, uma das pragas mais devastadoras das lavouras de milho, algodão e soja

Não é exagero. Essa pequena “inimiga” tem o poder de mexer com a economia. O estudo do Cepea e da Andef mostra que na safra 2016/2017 os produtores de soja, milho e algodão desembolsaram R$ 25,6 bilhões com agroquímicos.

Se não tivessem usado esses produtos, haveria uma queda entre 30% e 40% na produção, aumento do preço dos produtos (no caso do milho, por exemplo, subiria 13,6%), diminuição das exportações e uma alta da inflação.

Esse feromônio não vai substituir os inseticidas usados nas lavouras. Na verdade, ele é complementar. São 90 ml do produto que podem ser acrescentados aos defensivos agrícolas ou a água para serem pulverizados a cada hectare. “Ele tem um efeito preventivo, de diminuir a população da praga, e ajuda a reduzir o uso de inseticida”, diz Miranda.

“Acreditamos que deva ter uma redução de pouco mais de 30% de aplicação”, diz Miranda. No México, em testes já realizados pela Provivi em lavouras de milho branco, esse foi o índice da queda no uso dos agrotóxicos. Se aplicado no mercado brasileiro, isso representaria uma economia anual de R$ 7,5 bilhões. Outro ponto levantado é que a qualidade da lavoura será elevada, até porque o feromônio é um produto biológico, mas categorizado como semioquímico.

“Os produtos biológicos são o futuro da indústria”, diz Nicholas Vital, autor do livro “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”. “O problema é que hoje ainda não há nada 100% eficiente”, diz ele. Vital acrescenta que o modelo ideal é a mescla do uso de produtos químicos com os biológicos. “Só o químico não adianta, os bichos vão ficando resistentes a cada safra”, diz ele.

Ricardo Miranda, CEO da Provivi no Brasil e Argentina

A Provivi defende que as possibilidades de isso acontecer com os seus produtos são menores. “O que estamos fazendo tem uma eficiência muito alta e chance de ter resistência é baixíssima de ocorrer”, diz Miranda. “E, se acontecer, identificamos rapidamente e mudamos o componente na hora.”

Além de atuar contra a lagarta-do-cartucho, o Pherogen também ataca outra praga muito comum no Brasil, a chrysodeixis includens, popularmente conhecida como lagarta-falsa-medideira, que costuma atacar as plantações de soja. “Pelo Brasil concentrar grandes propriedades, venderemos aqui o produto líquido para ser pulverizado”, diz Miranda. O preço ainda não foi definido.

Mas há outros produtos que a startup está desenvolvendo para outros mercados. No México e no Quênia, por exemplo, onde as propriedades são menores, a empresa vai vender sachês para serem colocados na lavoura. São 40 por hectare, com duração de 90 dias. Na Ásia, a empresa também vai vender sachês, mas em lavouras de arroz, para impedir o avanço das pragas yellow stem borer e strip stem borer.

Até hoje a Provivi não havia vendido nenhum produto no mercado. São sete anos desenvolvendo a tecnologia. Dos seus 130 funcionários, 40 são cientistas de campo e outros 30 são cientistas de laboratório. E, mesmo não tendo faturado um único tostão desde a sua criação, recebeu milhões de dólares de investidores como Lanx Capital, Temasek Holdings, Basf Venture Capital, DuPont, entre outros.

Um dos investidores que aportaram dinheiro na empresa foi Antonio Moreira Salles, filho de Pedro Moreira Salles, copresidente do conselho de administração do Itaú Unibanco. “Acredito muito nessa empresa”, diz Antonio ao NeoFeed. “E investi também por conta da capacidade técnica e de negócios do Pedro Coelho, um dos fundadores da Provivi”, afirma.

A empresa conta, de fato, com um time de fundadores que serve como um grande cartão de visita. Basta dizer que a dra. Frances Arnold, vencedora do Prêmio Nobel de Química de 2018, é fundadora e lidera as pesquisas ao lado dos cofundadores, o brasileiro Pedro Coelho e o alemão Peter Meinhold, seus alunos na Caltech, o Instituto de Tecnologia da Califórnia.

A dra. Frances Arnold, vencedora do Prêmio Nobel de Química em 2018, é cofundadora da Provivi

Os produtos desenvolvidos pela Provivi são fabricados em plantas na Europa e nos Estados Unidos. As discussões para uma fábrica própria, entretanto, já estão acontecendo. Afinal, é agora que a produção crescerá, assim como o tamanho da equipe. “O mais recente aporte que recebemos, de US$ 65 milhões, em outubro do ano passado, ajudará a empresa no lado comercial”, diz Miranda.

O executivo, com mais de 30 anos em agronegócio, já passou pelas maiores empresas do setor. Trabalhou em gigantes como Monsanto, Syngenta e, por último, ocupou o cargo de líder global de desenvolvimento de produtos da Bayer CropScience na Alemanha. Agora, no comando da Provivi na região, deve iniciar o plano de expansão da companhia. E, claro, com gozação ou não, seu trabalho será estragar a “festa” das mariposas e das lagartas.

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