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Até os bilionários apertam os cintos

Super-ricos parecem conter gastos e evitar a compra de alguns bens considerados “supérfluos” e de difícil liquidez, como iates e obras de arte

 

Quadro “Hurting the Word Radio #2″, de Ed Ruscha, pode ser vendido por US$ 30 milhões.

Quando a recessão bate à porta, até os bilionários resolvem colocar o pé no freio. E quem tem sofrido com isso são as casas de leilões e os fabricantes de iates de luxo.

A Christie’s, por exemplo, viu um comprador arrematar, em Nova York, em 2017, um único quadro de Leonardo da Vinci por US$ 450 milhões – a pintura mais cara já vendida no mundo.

Este ano, uma das obras mais caras a ser vendida pela Christie’s deve ser a obra “Hurting the Word Radio #2”, assinada por Ed Ruscha, por US$ 30 milhões. 

Para superar a marca histórica de US$ 450 milhões, cravada dois anos atrás, a Christie’s precisa somar os arremates de quase uma semana toda. Ou seja, na conjuntura atual, a leiloeira tem que combinar uma série de vendas para bater a negociação de uma única peça, concluída em 2017, segundo informações levantadas pela agência de notícias Bloomberg

De qualquer forma, as próximas semanas devem revelar com mais precisão o “ânimo” dos milionários. Desde a última segunda-feira, 11 de novembro, os principais players deste mercado (Sotheby’s, Christie’s e Phillips) submeteram ao martelo US$ 1,2 bilhão em obras impressionistas, modernas e contemporâneas. A cifra total é 24% menor do que o montante levado à leilão no outono do ano passado. 

Para o economista Brian Little, professor adjunto da Marshall School of Business, na Universidade do Sul da Califórnia, o movimento pode ser interpretado como um sinal de cautela em uma classe tida como “à prova de crise”.

“As incertezas políticas que envolvem a guerra comercial entre China e Estados Unidos, a questão ainda não resolvida do Brexit e outros fatores sócio-políticos mundiais têm levado investidores a agir de forma mais contida”, afirma Little ao NeoFeed. “A parcela mais rica da população responde de forma semelhante, ‘segurando’ a carteira à medida que a economia mundial desacelera.”

É a tese defendida pelo professor emérito Edward Leemer, da Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA), que foi uma das primeiras vozes a pedir cautela quanto ao então otimismo econômico americano. “Estamos apenas entrando numa era de lento crescimento”, diz Leamer, em entrevista exclusiva ao NeoFeed.

Em tempos assim, acreditam os especialistas, é comum que todos repensem seus gastos e investimentos. Inclusive, os bilionários, que, em tese, não deveriam se preocupar em apertar os cintos. Mas até eles deixam de lado certos gastos, como as obras de arte, itens de baixa liquidez.

O movimento pode ser interpretado como um sinal de cautela em uma classe tida como “à prova de crise”

De acordo com Iskander Lemseffer, que já foi o dono da maior galeria de street art dos Estados Unidos, vender um quadro valioso não é uma tarefa simples. “São poucas as pessoas que podem desembolsar milhões por um quadro, então as negociações obviamente são mais longas e restritas”, explica ao NeoFeed.

Também entram para a conta os bens que pedem uma manutenção cara. De acordo com especialistas, um super iate, que são embarcações acima de 130 pés, consome, anualmente, 10% de seu valor. Para ter um “brinquedo” desses, novo, é preciso desembolsar pelo menos US$ 30 milhões. Só de taxa de ancoragem para uma embarcação desse porte pode custar US$ 350 mil por ano, enquanto o seguro sai por aproximadamente US$ 240 mil. 

O super iate modelo Custom Line Navetta 42, da italiana Ferretti, que adiou seus planos de IPO por tempo indeterminado

Não é surpresa, portanto, que este nicho esteja também sofrendo. Uma reportagem da Bloomberg afirma que os fabricantes dos super iates venderam 102 novos projetos nos primeiros nove meses de 2019. E é bastante improvável que até dezembro consigam superar as 199 unidades comercializadas no ano passado. 

O recuo nas negociações destas embarcações foi um dos motivos que deixou a ver navios o plano de IPO da fabricante italiana Ferretti. A companhia, fundada em 1968, adiou por tempo indeterminado seu plano de abrir capital por falta de apetite dos investidores.  

Enquanto os mais ricos não embarcarem, sem medo, em novos investimentos – inclusive esses considerados “supérfluos e arriscados”, é difícil esperar uma avaliação mais generosa por parte dos investidores. Da mesma forma, o martelo das grandes casas de leilões deve, pelo menos por enquanto, continuar fazendo barulho por cifras mais “modestas”. 

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