Com pesos pesados na briga, Americanas é rebaixada por Goldman Sachs

A união da Americanas com a B2W trará ganhos de sinergias à nova empresa. Mas os analistas do Goldman Sachs veem risco de execução e citam a maior concorrência para rebaixar o preço-alvo da ação da empresa de R$ 77 para R$ 46

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Nos últimos anos, a Americanas, operação que agora reúne as lojas físicas e o varejo digital, perdeu a liderança no e-commerce para o Mercado Livre e disputa cabeça a cabeça o segundo lugar com o Magazine Luiza. Não bastasse isso, a concorrência ficou mais pesada, com o crescimento da Via (Casas Bahia e Ponto) e de outros players, como Amazon, Aliexpress e Shopee.

Se a competição na área em que tem tradição já é acirrada, a Americanas também não terá vida fácil na área de supermercado, depois de comprar a rede Hortifruti, por R$ 2,1 bilhões, no mês passado. Trata-se de um mercado com concorrentes consolidados, com mais de 40% dominados por Grupo Pão de Açúcar, Carrefour e Assaí.

Diante dessa concorrência e citando riscos de execução da estratégia, os analistas do banco americano de investimentos Goldman Sachs rebaixaram a recomendação que tinham para o papel da empresa, de “compra” para “neutra”. O preço-alvo para 12 meses, por sua vez, caiu 40,2%, de R$ 77 para R$ 46. Nesta sexta-feira, 17 de setembro, as ações eram negociadas a R$ 36,69, por volta das 12h, em queda de 2,8%.

“Com os crescentes investimentos de players locais e globais em um mercado já competitivo para o e-commerce no Brasil e com a recente decisão da companhia de entrar em supermercados, nós vemos pela frente uma elevada competição e riscos de execução”, escreveram os analistas Irma Sgarz, Felipe Rached, Chandru Ravikumar, Gustavo Fratini, em relatório distribuído a clientes.

A mudança de visão do Goldman Sachs ocorre após um período de frustrações. Quando adicionaram a companhia à lista de recomendações de compra, no dia 7 de abril do ano passado, a ação estava em R$ 57,31. De lá para cá, acumula queda de 31%, enquanto o Ibovespa teve alta de 51% no período.

“Embora sempre tenhamos reconhecido que a empresa era um caso de ‘me mostre’, nossa expectativa de uma execução melhor criou um viés positivo para as estimativas e os múltiplos não se concretizaram”, escreveram os analistas.

Agora, com uma concorrência mais forte e um cenário macroeconômico ainda adverso, a chance de a Americanas surpreender positivamente, no faturamento e nos retornos, está menos provável, na visão dos analistas.

Hoje, o Goldman Sachs estima que o Mercado Livre lidera o e-commerce no Brasil com 33% de participação. Empatados em segundo lugar, Americanas e Magazine Luiza contam, cada uma, com uma fatia de 20%. Para o ano que vem, a expectativa do banco é que o Magazine Luiza se isole na segunda posição, com 23%, enquanto Americanas fica em terceiro, com 19%. A Via segue em quarto, com 11%.

Em comparação feita pelos analistas, os três primeiros têm enfrentado queda na margem, mas a Americanas tem ficado para trás no avanço das vendas online. Enquanto Mercado Livre e Magazine Luiza cresceram 46% e 44% no GMV, respectivamente, no segundo trimestre, em comparação anual, a Americanas teve alta menor, de 37%.

O Goldman Sachs ressalta que o e-commerce, no Brasil, ainda está engatinhando. Pelas contas dos analistas, o segmento deve crescer 25% ao ano entre 2021 e 2024, levando a uma penetração de 22% no varejo. Hoje, está em 11%.

Contudo, o banco pondera que o País tem assistido ao avanço de players globais, como Aliexpress, Amazon e a Sea, grupo de Cingapura que tem a Shopee, de e-commerce. Para o Goldman Sachs, trata-se de uma competição que afeta não somente os preços dos produtos, mas também as taxas cobradas pelas varejistas e o frete.

Embora reconheça que a Americanas também tem feito investimentos, o Goldman Sachs está com um pé atrás em relação à capacidade de execução. “Desde a primeira aquisição em logística, em 2013, a B2W investiu R$ 4,8 bilhões, tanto em logística quanto em infraestrutura tecnológica”, pontuaram. “Mas o nível dos serviços não é significativamente diferente do de outros líderes de e-commerce no Brasil.”

A capacidade de execução também é a principal preocupação do banco no segmento de supermercados, embora admita que o Hortifruti tem vantagens competitivas, como o foco em clientes premium e menos sensíveis ao preço.

O varejo de alimentos, lembram, também é um dos segmentos mais consolidados no mercado brasileiro, com a predominância de Grupo Pão de Açúcar, Carrefour e Assaí. “Esses concorrentes estão investindo pesadamente em suas operações online, aproveitando sua rede de lojas e centros de distribuição, reconhecimento de marca e parcerias com plataformas de entrega de terceiros”, destacaram os analistas.

Avaliada em R$ 32,9 bilhões, a Americanas teve lucro líquido de R$ 254,7 milhões no segundo trimestre, após prejuízo de R$ 7,1 milhões em igual período do ano passado. O Goldman Sachs estima que a empresa deve terminar o ano com lucro de R$ 570,1 milhões.

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