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Creditas avança no consignado e aposta no ecossistema para crescer

A fintech lança uma oferta de antecipação salarial e amplia o leque de serviços no entorno de seus empréstimos com garantia. Em entrevista ao NeoFeed, Sergio Furio, fundador da Creditas, fala sobre o próximo passo da startup: conectar todas essas plataformas

 

Sergio Furio, fundador e CEO da Creditas

Fundada em 2012 pelo espanhol Sergio Furio, a Creditas chamou a atenção, desde então, de fundos do calibre do Softbank. Com R$ 1,2 bilhão captados em sete rodadas, hoje, a fintech está avaliada em US$ 750 milhões e é figura carimbada em qualquer lista de candidatas a próximo unicórnio do País.

A startup conquistou essa fama por meio da concessão de empréstimos com garantias, um nicho pouco explorado no País. Primeiro, com o crédito lastreado em imóveis. Depois, em carros e, mais recentemente, em salários.

Cada vez mais extenso, esse pacote ganha agora mais uma alternativa: a antecipação salarial, disponível para os funcionários de empresas conveniadas à oferta de empréstimo consignado privado da Creditas.

“Estamos criando um guarda-chuva de produtos em volta dos funcionários das empresas privadas”, diz Furio, em entrevista ao NeoFeed. “Aos poucos, esses funcionários vão ter um ecossistema completo à disposição.”

Na peça mais nova desse quebra-cabeça, os funcionários poderão antecipar os dias já trabalhados em um mês, com um limite de até 40% do total do salário. O crédito é transferido em até dois dias úteis e o adiantamento é descontado no próximo pagamento do profissional.

Não há cobrança de juros na operação, que está sendo subsidiada pela Creditas, o que, segundo Furio, só foi possível graças ao patamar atual da taxa básica de juros. “Nesse caso, o objetivo é engajar os usuários e não rentabilizar”, diz. “No mês seguinte, esse funcionário pode lembrar que temos outros produtos para oferecer.”

E o pacote à disposição está, de fato, crescendo. No início do ano, a fintech lançou a Creditas Store, também atrelada ao empréstimo consignado privado. Com a loja virtual, os funcionários podem comprar produtos em parcelas de até 48 vezes, descontadas diretamente da folha de pagamento.

O catálogo inicial, antes restrito ao iPhone, vem ganhando novas categorias. Hoje, além de outros produtos da Apple, já é possível comprar de purificadores e cursos de MBA a quadriciclos e scooters elétricas. Segundo Furio, o tíquete médio está na faixa de R$ 4 mil a R$ 5 mil.

Atrelar mais produtos e serviços em cada linha de empréstimo com garantia é um dos nortes da Creditas. Esse esforço integra, porém, uma estratégia mais ampla. “Hoje, essas plataformas estão totalmente isoladas”, afirma Furio. “Agora, vamos começar a conectar todos esses ecossistemas.”

Já em curso, essa abordagem parte dos produtos e serviços no entorno dos empréstimos com garantia em imóveis e veículos. Até o fim do ano, o plano é levar essas ofertas para o leque de opções disponível nos empréstimos consignados privados.

O serviço de reformas de imóveis, lançado em 2019, é um dos alvos dessa integração. Outra solução mais recente, o financiamento de carros, também está incluída no pacote que poderá ser acessado, em breve, via desconto em parcelas na folha salarial.

“Estamos criando uma plataforma única, pra resolver todos as dores e problemas do cliente”, diz Furio

“Estamos criando uma plataforma única, pra resolver todos as dores e problemas do cliente”, ressalta Furio. “E isso se aplica a todos os produtos que já tínhamos anteriormente.”

Ganhando escala

Linha mais nova de empréstimos da Creditas (começou a ser ofertada no segundo semestre de 2019), o consignado privado vem recebendo cada vez mais atenção na companhia.

“Hoje, esse negócio já representa cerca de 13% do faturamento e é o que mais cresce na empresa”, diz Furio. “Nesse passo, em alguns anos, ele vai estar, no mínimo, no mesmo patamar dos empréstimos com garantia em imóveis e carros.”

Furio não revela outros números sobre a operação, que começou a ganhar corpo em agosto de 2019, com a compra da brasileira Creditoo. Na época, a startup em questão contava com uma base de cerca de mil empresas conveniadas, que totalizavam mais de 100 mil funcionários.

No Brasil, a modalidade ainda engatinha. Para se ter uma ideia, do saldo total de R$ 398,1 bilhões de crédito consignado no País, em maio, apenas R$ 23,2 bilhões eram privados, segundo o Banco Central. O segmento acumulou, porém, um salto de 15% nos 12 meses anteriores a esse período.

“É um produto mais restrito muito por força do oligopólio dos bancos”, diz Sergio Tavares, fundador da consultoria STavares. Ele ressalta que atrelar o crédito ao salário permite praticar taxas mais acessíveis, o que explica a falta de interesse das grandes instituições em promover essa linha.

Além de ampliar as ofertas adjacentes, a Creditas tem uma estratégia agressiva para ganhar espaço no consignado privado. No caso dos empréstimos nessa linha, as taxas de juros mensais partem de 1,19%.

Toda essa atenção não significa que os demais formatos de empréstimo com garantia foram relegados a um segundo plano. Aqui, novamente, o conceito de ecossistema dá o tom. Em veículos, além do financiamento, outra novidade é um serviço de concierge, a partir dos dados fornecidos pelo usuário sobre o carro que planeja comprar.

Entre as novidades mais recentes, o leque de ofertas da Creditas inclui serviços de concierge para a compra de carros e imóveis

“Nós mapeamos todos os carros naquele perfil à venda no Brasil, encontramos o veículo, negociamos e financiamos para o cliente”, explica Furio. Uma abordagem semelhante está sendo ofertada para a compra de imóveis. Na prática, a Creditas ajuda o cliente a encontrar sua nova casa e faz a corretagem da antiga moradia.

Em paralelo à construção desses modelos, na semana passada, dois anúncios do Banco Central chamaram a atenção de Furio e de seus pares. No primeiro deles, o BC regulamentou o uso de imóveis financiados como garantia para novos empréstimos.

“A medida caminha na direção certa, o que nos preocupa é a execução”, diz ele. “O ideal seria que o segundo empréstimo não precisasse ser feito, necessariamente, onde o cliente já tem o seu financiamento.”

O segundo anúncio parece ter deixado Furio mais animado. O BC antecipou o lançamento do PIX, seu sistema de pagamentos instantâneos, de 3 de novembro para 5 de outubro. A plataforma vai permitir que as empresas ofereçam transações a consumidores e empresas 24 horas por dia, sete dias por semana, por meio de smartphones e outros canais.

A Creditas é uma das empresas que se cadastraram para prestar serviços no PIX. Furio não revela detalhes sobre como será a estratégia nessa frente. Mas o fato é que o sistema abre mais um leque de oportunidades para a empresa, que tem autorização do BC para atuar como Sociedade de Crédito Direto (SCD). Ou seja, na prática, como uma instituição financeira.

Enquanto guarda em segredo os planos de explorar novos campos com o PIX, a Creditas começa a ganhar corpo em outra fronteira. No México, sede de sua primeira incursão internacional, a fintech passou a oferecer neste mês todo o seu portfólio de empréstimos e financiamento.

“Ainda temos uma equipe pequena, com 30 pessoas, mas já fizemos os primeiros contratos”, afirma. “O México é um mercado muito menos regulado que o brasileiro, mas estamos aprendendo”, diz, ressaltando que a Creditas não tem planos de desembarcar em outros países no curto prazo.

Apetite

Se a Creditas não está disposta a carimbar novos destinos no passaporte, o mesmo não pode ser dito do seu apetite por aquisições. Até hoje, foram três acordos: GranaAqui, em 2013, Codus e Creditoo, em 2019.

“Estamos ativos e, definitivamente, perto do mercado”, observa Furio. Nesse cenário, a busca da Creditas passa por ativos que tragam novos canais de captação de clientes ou ampliem o portfólio, dentro da estratégia de plataforma.

Para Bruno Diniz, fundador da Spiralem, consultoria especializada em inovação financeira, essa visão da Creditas reforça uma tendência entre as fintechs de maior fôlego no País, depois dessas empresas provarem que podem desafiar os bancos em determinados nichos.

“Elas entenderam que podem ter mais espaço na vida financeira do cliente que, por sua vez, também está pressionando por mais produtos”, afirma Diniz. “No caso de uma fintech como a Creditas, que está capitalizada e já domina o digital, esse conceito de cauda longa pode ser muito poderoso.”

Nessa mesma corrente, ele cita outras empresas e estratégias recentes, como a compra da corretora Magliano pela Neon. E também o Nubank, que cada vez mais amplia seu portfólio, explorando segmentos como o crédito pessoal.

Ao mesmo tempo, a Creditas também tem concorrentes em outras linhas específicas, como o home equity, um espaço que cada vez mais atrai competidores. Entre eles, empresas como Banco Inter, BCredi e Credihome.

Mesmo com o cenário acirrado, Furio entende que a Creditas está bem posicionada. Especialmente depois de equacionar e superar as incertezas geradas pela pandemia.

Nos primeiros meses da Covid-19, a fintech decidiu desacelerar seu crescimento, sob o receio dos impactos do vírus na carteira e também na captação de recursos no mercado de capitais para financiar os empréstimos.

Antes da crise, a empresa crescia a um ritmo mensal na faixa de 8% a 10%. De março a junho, esse índice caiu para 3%

Antes da crise, a empresa crescia a um ritmo mensal na faixa de 8% a 10%. De março a junho, esse índice caiu para 3%. A decisão, porém, se mostrou acertada. “Nós geramos muita margem e caixa, e a carteira performou bem”, afirma Furio. No período, a startup também captou R$ 200 milhões com três emissões de securitizações.

“No final, o mercado nunca se fechou para a empresa”, diz Furio, que projeta a retomada aos níveis de crescimento pré-crise já nesse trimestre. “Desde meados de junho, nós botamos o pé de volta no acelerador.”

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