Na briga das carteiras digitais, Bitz, do Bradesco, acelera o passo

A empresa do grupo financeiro foi uma das últimas a entrar nesse segmento e agora prepara um conjunto de ações para se posicionar entre as cinco grandes do setor. Compra de concorrentes, um marketplace na plataforma e a busca por clientes no interior do Brasil estão na lista

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Curt Zimmermann, CEO da Bitz

No disputado mercado de carteiras digitais, as famosas digital wallets, há dezenas de competidores buscando um lugar ao sol na preferência do cliente. Fintechs, varejistas, empresas de tecnologia, grandes bancos e até aplicativos para caminhoneiros têm suas versões. O setor, entretanto, é dominado por poucos players.

Nesse embate, destacam-se o PicPay, com 45 milhões de usuários; o Mercado Pago, com mais de 20 milhões; e a AME Digital, da B2W, com 15 milhões. Mas, se depender do Bradesco, a briga vai esquentar. Em setembro do ano passado, o grupo lançou a Bitz e agora prepara uma estratégia para ganhar mercado.

Nos próximos meses, a empresa vai plugar o marketplace ShopFácil na plataforma, aumentar a integração com produtos do grupo Bradesco, comprar concorrentes, iniciar um plano de buscar os mais de 40 milhões de desbancarizados por meio dos mais de 22 mil correspondentes bancários do Bradesco espalhados pelo Brasil e ofertar carteiras digitais no formato white label para outras empresas.

Atualmente, a Bitz conta com 500 mil downloads, 360 mil contas e uma meta ambiciosa. “Em 18 meses, teremos cerca de 4 milhões de usuários”, diz ao NeoFeed, Curt Zimmermann, CEO da Bitz. E continua. “A Bitz foi criada, principalmente, para os desbancarizados. Os concorrentes têm base, mas são clientes que já têm conta em banco, que buscam essas carteiras porque querem um cashback ou outro tipo de vantagem.”

Zimmermann explica que a Bitz já está fazendo testes-piloto em cidades pequenas, com populações que variam entre 5 mil e 20 mil habitantes, espalhadas pelo Brasil, com o intuito de levar a plataforma onde não há agências bancárias. “Por enquanto, estamos testando em uma cidade no Nordeste, no Sul e no Sudeste”, diz ele.

O plano é usar os milhares de pontos de distribuição do Bradesco Expresso. São lojas e pequenos comércios onde são disponibilizados produtos financeiros. “Em muitos municípios, é a única operação disponível. Vamos chegar em pequenas cidades através desses correspondentes e faremos campanhas em mídias locais para alavancar o app”, afirma.

O ganho de escala da Bitz para ter 25% do mercado de wallets digitais em três anos, como planeja o seu CEO, também passa por um amplo processo de M&As. “Imaginamos uma consolidação dessa indústria com o Bitz sendo protagonista. Vamos comprar ou fundir”, diz Zimmermman. “Esse negócio não vai parar.”

Desde seu lançamento, em setembro do ano passado, 360 mil contas foram abertas

Desde seu lançamento, a Bitz comprou a carteira digital DinDin e a startup 4ward, mas muito mais para embarcar tecnologia do que ganhar escala. Agora, o jogo é outro. A empresa conta com uma equipe interna de M&A que está avaliando vários ativos. Quatro deles passaram no funil e a companhia está em fase de negociação. “Não tenho um cheque, um número, mas o banco tem um apetite comprador. Discutimos caso a caso”, diz ele.

“Se comprarmos essas empresas, cresceremos vertiginosamente, mudaremos de patamar no mercado”, afirma o executivo. “Estaremos entre as cinco maiores carteiras digitais do Brasil.”

Assim como a iti, do Itaú Unibanco, lançada em maio de 2019, a Bitz surgiu dentro do Bradesco como uma necessidade de responder aos avanços de fintechs que cresceram exponencialmente oferecendo serviços financeiros sem a necessidade de ser um banco.

Acontece que a resposta veio tarde. “É um desafio enorme para os grandes bancos ganhar relevância no mercado de carteiras digitais”, afirma Bruno Diniz, autor do livro “O Fenômeno Fintech” e sócio-fundador da consultoria Spiralem. “Os principais concorrentes viraram monstros”, afirma.

Na opinião de Diniz, “os grandes bancos perderam o timing para entrar nesse segmento”. Ele ressalta também que gigantes como PicPay e AME Digital, além de bem posicionadas, estão fortalecendo seus ecossistemas embarcando cada vez mais produtos financeiros em suas plataformas.

O CEO da Bitz afirma que a estratégia de trazer mais serviços está em pleno curso dentro da empresa. Apesar de ter CNPJ e razão social separados do banco, a carteira digital será encorpada com produtos do Bradesco. “Estamos agregando na plataforma o que temos dentro do grupo”, afirma.

“Vamos fazer parceria com a Veloe para isentar os clientes Bitz. Estamos desenvolvendo um projeto com a Livelo para utilização de pontos, o que deve ser lançado no segundo trimestre”, diz Zimmermann. “Temos conversado com a seguradora, com o próprio banco, temos empréstimos ofertados pela Losango.”

O ShopFácil, um marketplace com 64 selles e mais de 550 mil produtos ofertados, entra nesse cenário. Com uma média mensal de 3,1 milhões de usuários e 30,4 mil transações, ele será usado para manter o cliente gastando dentro da Bitz. Além de ganhar um take rate em cada transação, a Bitz pretende também conceder o crédito para que o cliente realize a compra.

O próprio Bradesco, que é dono do ShopFácil tem estimulado os usuários a adotar o aplicativo da Bitz nas transações. Ao entrar no site do marketplace de e-commerce, uma mensagem salta na tela dizendo que quem usar Bitz ganha R$ 10 para utilizar em compras.

Indagado pelo NeoFeed sobre os motivos que levariam uma pessoa a adotar a Bitz num grande mar de carteiras digitais, Zimmermann diz que a plataforma está no caminho de se tornar um superapp, com ofertas de crédito, de cartão físico, pagamento por QR Code em 1,6 milhão de estabelecimentos credenciados pela Cielo e mais serviços que serão agregados.

Há quem enxergue nessa estratégia de embarcar apenas produtos do grupo como um erro. “Esse é um segmento que os grandes bancos se descuidaram”, diz um executivo de alto escalão de uma empresa de tecnologia. “Eles têm de entender que, em uma carteira digital, você tem de ser agnóstico, trazer vários parceiros para dentro.”

Os bancos estão chegando por último nessa festa e esse mesmo executivo diz que as carteiras digitais têm um perfil muito mais de techfin do que de fintech. Zimmermann, por sua vez, ressalta a importância de fazer parte de um grande grupo financeiro.

“Ainda existe insegurança da população de onde está o seu dinheiro. A marca Bradesco traz solidez e credibilidade.” Indiscutivelmente, traz. Mas esse mesmo discurso por parte das grandes instituições não conseguiu frear o crescimento de “novatas”, hoje gigantes, como XP, Nubank, PicPay e Mercado Pago. Por que agora seria diferente?

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