Negócios

No Itaú, uma nova gestão para velhos problemas

Pressionado pelo avanço dos bancos digitais, o novo CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, que assume o cargo nesta terça-feira, tem três projetos prioritários: cortar custos, transformar a área de varejo e fazer a transformação digital

 

Milton Maluhy Filho, novo CEO do Itaú Unibanco

O executivo Milton Maluhy Filho assume nesta terça-feira, 2 de fevereiro, o comando do Itaú Unibanco, maior banco privado do País, em substituição a Candido Bracher, que deixa o cargo por ter atingido a idade limite de 62 anos.

Maluhy Filho, de 44 anos, chega ao cargo de CEO do Itaú Unibanco em um momento em que as instituições financeiras tradicionais estão sob forte pressão de concorrentes digitais, como Banco Inter, Nubank e Neon, assim como de plataformas de investimentos, a exemplo de XP ou BTG Digital.

Três projetos são considerados prioritários por Maluhy Filho, segundo apurou o NeoFeed com fontes que conhecem as iniciativas: um de corte de custos e de eficiência operacional; outro de transformação do varejo; e, por fim, o de transformação digital.

Como diz um executivo com larga experiência em turnarounds em companhias. “Todo mundo sabe o que o Itaú tem de fazer. O desafio é como fazer?”, diz essa fonte.

O projeto de eficiência operacional já era tocado pelo próprio Maluhy antes de ser indicado para o cargo de CEO. O objetivo, segundo apurou o NeoFeed, é entregar um corte estimado em R$ 10 bilhões em três anos. Hoje, as despesas gerais e administrativas do Itaú Unibanco são de R$ 64,2 bilhões.

O segundo projeto é o da transformação do varejo, tornando as agências em centros de negócios. Essa iniciativa foi paralisada no ano passado, por conta da pandemia do novo coronavírus. O foco, naquele momento, foi o programa “Travessia”, que alongou o pagamento de dívidas e concedeu créditos aos clientes nos momentos mais críticos da pandemia.

A missão de fazer a transformação das agências está a cargo de André Rodrigues, que se tornou o head da área de varejo, cuidando das agências do Itaú, Uniclass, Personnalité, produtos PF e PJ, além dos canais digitais. “É um projeto superdifícil e não é tão óbvio”, diz uma fonte do mercado.

E, por fim, a terceira missão de Maluhy Filho é a de fazer a transformação digital do Itaú Unibanco, algo que se tornou prioridade em dez de cada dez empresas brasileiras de grande porte – sobretudo no setor financeiro.

O desafio é como fazer isso em um momento de corte de custos e ao mesmo tempo dar mais autonomia às pessoas internamente para desenvolverem projetos de forma rápida. “É uma mudança de modelo mental”, diz um executivo acostumado com projetos dessa envergadura.

Um exemplo da dificuldade de avançar com projetos digitais é o iti, um aplicativo de pagamentos lançado pelo Itaú que ainda não conseguiu decolar. “Centenas de pessoas trabalham nele, mas ele não foi para frente ainda”, diz uma fonte que conhecia o projeto.

A missão de avançar com o iti, bem como com outros projetos ligados a pagamentos, agora é de Andre Sapoznik, que era um dos candidatos a assumir o cargo de CEO do banco.

Sapoznik, que era vice-presidente de tecnologia, será o head da nova área de pagamentos. Além do iti, cartão de crédito e cash management passarão a fazer parte de suas atribuições. “Em um momento com PIX e open banking, era preciso ter alguém para olhar com cuidado para pagamentos”, diz uma fonte do mercado.

Maluhy Filho fez também uma ampla transformação no comitê executivo do banco. Ele eliminou os cargos de vice-presidentes e de diretores-gerais de varejo e do atacado. Márcio Schettini e Caio Ibrahim David, os dois executivos que cuidavam, respectivamente, dessas áreas, deixaram o banco.

O novo comitê executivo, grupo mais sênior do banco, agora conta com 12 nomes. É uma enorme renovação na cúpula do banco. Desde janeiro deste ano, portanto antes de Maluhy assumir, o Itaú Unibanco já trabalha debaixo dessa estrutura.

“É muito arriscado trocar todo mundo de uma só vez”, afirma um alto executivo de um grande banco. “Por outro lado, são pessoas competentes, que estavam na fila esperando para subir.”

Entre os nomes, todos formados dentro do banco, estão Alexandre Zancani, (veículos, crédito imobiliário, entre outras áreas), Carlos Constantini (Asset Management, Fund of Funds e Private Global), Flávio Souza (Itaú BBA), entre outros executivos que fizeram carreira na instituição.

Só uma mulher faz parte desse time. É Leila Melo, que será a responsável pelas áreas do jurídico, ouvidoria, comunicação institucional, sustentabilidade e relações governamentais. Isso gerou muitas críticas ao Itaú nas redes sociais pela ausência de diversidade na cúpula do banco.

Um desafio adicional do novo CEO do Itaú Unibanco é fazer frente à geração de bancos digitais que está ganhando a preferência de pessoas mais jovens

Um desafio adicional do novo CEO do Itaú Unibanco e de sua equipe é fazer frente à geração de bancos digitais que está ganhando a preferência de pessoas mais jovens, bem como os milhões de dólares de investidores institucionais.

“O cliente mais jovem não se associa à marca Itaú. Ele prefere Inter, BTG, XP ou Neon”, diz uma fonte que até pouco tempo trabalhou na instituição financeira. “Ser melhor do que o Bradesco e o Santander já não basta mais.”

Na semana passada, o Nubank recebeu um aporte de US$ 400 milhões, liderado por investidores globais como Whale Rock, Invesco e GIC, que avaliou a fintech em US$ 25 bilhões. É mais do que o Banco do Brasil, praticamente o mesmo valor da XP e metade do Itaú.

O Neon, por sua vez, obteve R$ 1,6 bilhão em aporte liderado pela General Atlantic, no ano passado. E o Inter tem o suporte do Softbank, que apostou na empresa quando ela já era pública – hoje, o banco da família Menin vale R$ 32,6 bilhões na B3.

Na visão de quem acompanha o mercado, os bancões assistiram passivamente ao surgimento dessas fintechs, acreditando que poderiam comprá-las a qualquer momento. Mas elas cresceram tanto a ponto de ficarem caras – ou já não querem mais se associar com essas instituições financeiras tradicionais.

Apesar desse cenário competitivo, o Itaú ainda lucra muito, mesmo com a queda da rentabilidade provocada pela pandemia. E seus concorrentes da esfera digital, são deficitários. O Nubank, por exemplo, teve prejuízo de R$ 313 milhões em 2019. Nos seis primeiros meses de 2020, dado mais atual, as perdas somaram R$ 95 milhões.

No Itaú, o balanço azul é uma regra. Em 2020, o lucro recorrente foi de R$ 18,5 bilhões, um resultado 34,6% menor do que o ano anterior. No quarto trimestre, o lucro recorrente atingiu R$ 5,3 bilhões, alta de 7,1% em relação ao trimestre anterior. O retorno sobre o patrimônio alcançou 16,1% no quarto trimestre – no mesmo período do ano passado era de 23,7%.

De acordo com o comunicado divulgado ao mercado, a alta na comparação trimestral reflete a retomada dos negócios, especialmente em linhas como cartão de crédito, crédito consignado, veículos e crédito imobiliário, além do aumento das receitas de serviços.

No fim de 2020, os clientes digitais (correntistas, cartões e empresas) chegaram a 24,2 milhões, aumento de 16,4% em relação ao ano anterior. A abertura de contas online (para pessoa física e empresas) teve expansão de 92,0% ante 2019.

“Além das questões conjunturais provocadas pela pandemia de Covid-19 que ainda impactam o desempenho do banco, seguimos em um contexto competitivo particularmente dinâmico. Não faltarão desafios em 2021”, afirmou Maluhy Filho, no comunicado divulgado pelo Itaú Unibanco, na noite de segunda-feira, 1º de fevereiro.

E prosseguiu: “Nesse contexto, vamos aprofundar o processo de digitalização das operações sempre com o objetivo de melhorar a experiência dos nossos clientes, aumentar a eficiência e acelerar nossa agenda de crescimento.”

Não se trata de um discurso positivo de quem está chegando agora para animar os funcionários. Um relatório do Credit Suisse, que analisou os quatro maiores bancos brasileiros – Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil –, traçou um cenário otimista em relação aos bancões.

O relatório estima que os quatro bancos tenham um crescimento líquido de 27% em 2021 e de 15% em 2022. Esse avanço será impulsionado pelo aumento de juros, crescimento de crédito e um controle robusto de custo – algo que é um dos projetos prioritários de Maluhy Filho.

Não é para menos. Para pessoas que conhecem Maluhy Filho, ele foi talhado para fazer os cortes de custos que o Itaú precisa. “Ele tem uma enorme capacidade de gestão e, apesar de ser novo, tem enorme maturidade. É direto, correto e honesto. O que você combinar com ele, está combinado”, afirma um executivo que o conhece.

Antes de ser confirmado para o cargo de CEO, Maluhy Filho era vice-presidente executivo e CFO do banco. Ele ocupou diversas posições, tendo dirigido a Rede, o braço de adquirência do Itaú Unibanco, e a operação do Chile (a Corpbanca). Entrou no Itaú Unibanco em 2002 e, desde 2011, é sócio da instituição financeira.

Procurado, o Itaú Unibanco não quis fazer comentários a essa reportagem.

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