PicPay quer ser o “WeChat” do Ocidente. E lança uma grande ofensiva para isso

Em sua primeira entrevista a um veículo de comunicação, José Antônio Batista, CEO do PicPay, revela com exclusividade ao NeoFeed o lançamento de um serviço de mensagens, a entrada no mercado de publicidade, a criação da operação de peer-to-peer lending e a inauguração de uma plataforma de investimentos

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José Antônio Batista, CEO do PicPay, revela o plano para fazer da empresa uma Big Tech

Em janeiro de 2019, o PicPay contava com 241 funcionários, dos quais 35 engenheiros de tecnologia. Atualmente, são 2,1 mil funcionários e, desse total, 1 mil atuam em tecnologia. Mas, provavelmente, enquanto você lê esta reportagem, os números precisarão ser atualizados.

“Até o fim do ano teremos 3,5 mil funcionários e 2,5 mil deles atuarão em tecnologia”, diz com exclusividade ao NeoFeed, José Antônio Batista, o CEO da empresa e também presidente da holding J&F Participações, em sua primeira entrevista a um veículo de comunicação.

O robusto reforço no time de funcionários será fundamental para pôr em prática o plano revelado em primeira mão ao NeoFeed. Nos próximos meses, a empresa vai lançar uma ofensiva de novos produtos e entrará em novos mercados.

O PicPay, com atuais 41 milhões de usuários e visto pelo mercado como um player de meio de pagamentos, estreará uma área de peer-to-peer lending; explorará advertising em sua rede, competindo com Google e Facebook; lançará uma plataforma aberta de investimentos; e colocará no ar um serviço de mensageria ao estilo WhatApp em sua plataforma.

“Seremos a primeira big tech brasileira”, diz Batista. “O PicPay será o WeChat do Ocidente.” O executivo, que assumiu o cargo de CEO da empresa, em agosto do ano passado, substituindo a Gueitiro Genso, se refere ao famoso superapp chinês que conta com tudo quanto é serviço embarcado.

Para explicar a revolução que está sendo gestada internamente, Batista, que recebeu o NeoFeed na sede da empresa, no bairro da Vila Leopoldina, em São Paulo, se levantou da cadeira e começou a desenhar o organograma da empresa em uma lousa branca. Debaixo dele, ficam duas vice-presidências: a de tecnologia e a de serviços financeiros.

A área de tecnologia é comandada por Anderson Chamon, um dos fundadores do PicPay, e abarca as verticais de store, com marketplace; social, com a rede social do app e o serviço de mensageria; e a de advertising, que está sendo desenvolvida há seis meses e será lançada no segundo semestre. “Vamos monetizar com a nossa audiência”, diz Chamon.

A parte de serviços financeiros tem outro vice-presidente que o mercado aponta como Eduardo Chedid, atual CEO da bandeira de cartões Elo. Indagado sobre isso, Batista não confirma, mas também não nega. O executivo que assumir a área cuidará das verticais de cartão de crédito, empréstimos, adquirência e das novas áreas de seguro, peer-to-peer lending e plataforma aberta de investimentos.

Anderson Chamon, fundador do PicPay, é o vice-presidente de tecnologia da empresa

O marketplace da empresa, que em 2020 foi palco de 25 milhões de transações e conta com 70 sellers, será encorpado com a chegada de novos lojistas. “Sempre com o conceito de plataforma aberta, a nossa ideia é ter mais de 1 mil lojistas plugados na plataforma”, diz Batista.

A empresa trouxe Fábio Plein, ex-Uber Eats, para comandar esse processo. O foco será em produtos (e-commerce), serviços de transporte (cartões do metrô) e seguros. “No futuro, queremos que até o Uber seja pedido pela plataforma”, diz Batista, lembrando o modelo do WeChat, onde a vida do usuário pode ser resolvida em um único ambiente.

Por isso mesmo, o serviço de mensagens, que estreará em fevereiro, é fundamental. O PicPay já tem, de certa forma, uma pegada de rede social, uma pessoa segue a outra e, no feed, mediante a autorização de cada usuário, é possível ver onde estiveram e o que compraram. Mas, até então, eles não podiam interagir com assuntos do cotidiano.

“Vamos transformar as interações transacionais em conversacionais”, diz Chamon. E prossegue. “O usuário vai poder falar com outras pessoas da rede e também com lojistas. Vai poder criar grupos de vaquinhas, falar ali e pagar no próprio chat.”

De acordo com Chamon, esse aspecto de rede social também abre uma enorme oportunidade para abocanhar o bilionário mercado de mídia e trade marketing no País. “Atualmente, são 300 milhões de sessões por mês no nosso feed”, diz Chamon. E Batista complementa. “Queremos o mercado do Facebook e do Google”, diz ele.

É algo que outras gigantes já perceberam. Magazine Luiza, B2W, Mercado Livre e Amazon têm suas plataformas de ads, aproveitando a gigantesca base de usuários. Só a Amazon deve faturar US$ 16,7 bilhões globalmente, em 2021, com esse braço de publicidade. “No meio do feed, teremos anúncios onde qualquer marca poderá expor e criar suas campanhas com a segmentação que quiserem”, diz Chamon.

O executivo explica que o PicPay, que já vem testando essa área de ads em beta há seis meses, conta com 150 profissionais focados em inteligência artificial e análise de dados e isso será crucial para essa vertical de negócios. “Como temos a espinha dorsal financeira até a última ponta, podemos criar possibilidades mais disruptivas em termos de anúncio”, diz Chamon.

Nesse caso, o PicPay pode, por exemplo, remunerar o usuário quando ele assiste a um vídeo. “Assiste até o final e te dou R$ 1. Quem está pagando isso? O anunciante. E o PicPay fica com um pedaço para mostrar esse anúncio. Na mesa, estão US$ 45 bilhões do mercado de mídia e trade marketing”, diz ele.

Toda a estratégia é baseada no universo de milhões usuários. Trazer mais gente para dentro, aumentar a recorrência e criar mais produtos. E, nesse sentido, o PicPay acelerou muito. Em 2020, a empresa começou o ano com 14 milhões de usuários, fechou com 38,8 milhões e, atualmente, conta com 41 milhões.

Empréstimos “entre amigos”

Desse total, 28 milhões são usuários ativos. “O crescimento aqui é muito grande. O PicPay foi criado para bípedes com smartphone”, diz Batista. O TPV, o chamado volume transacionado, em 2020, foi de R$ 36,8 bilhões. Para este ano, espera-se mais de 24 milhões de novos usuários e os executivos não arriscam dizer o volume que deve ser transacionado na plataforma. Mas um novo produto deve fazer o movimento aumentar. Trata-se do peer-to-peer lending, o empréstimo de um usuário para o outro.

Batizado de “Entre amigos”, ele entrará no ar no dia 28 de fevereiro. Esse serviço já vem sendo testado internamente há dois meses e cada usuário poderá fazer ou tomar empréstimos de até R$ 15 mil em três contatos simultâneos. Chama-se “Entre amigos” porque os usuários só poderão fazer esse tipo de transação com as pessoas de sua rede social.

A plataforma vai intermediar toda a negociação. O risco é de quem empresta, mas o PicPay fará a cobrança, lembrará das datas de pagamento e até negativará o devedor caso um usuário leve um calote e decida por esse caminho. “Vamos cobrar um fee sobre o valor emprestado”, diz Batista. O PicPay terá um score de crédito para avaliar os usuários e a taxa de juros será decidida entre os próprios “amigos”.

“Seremos a primeira big tech brasileira”, diz Batista

Ainda na parte de serviços financeiros, a empresa pretende chegar a 10 milhões de cartões de crédito emitidos até o fim do ano. Atualmente, ela conta com uma base de 2 milhões. “Só no mês de dezembro emitimos 1 milhão de cartões”, diz Batista.

Os cartões têm a marca do PicPay, mas, por trás, são do Banco Original, que é controlado pela família Batista e é dono de 22,70% do PicPay. O restante da startup está nas mãos de José Batista Sobrinho, o patriarca da família, mais conhecido como Zé Mineiro, com 67,64%, e a J&F Participação, com 9,66% do negócio.

José Antônio Batista, neto de Zé Mineiro, diz que o Original é só mais um parceiro. “O risco de crédito é do Original, mas cobramos pela venda e por transação porque o cliente é do PicPay”, afirma. O plano é trazer outros bancos para esse negócio. Da mesma forma que pretende plugar instituições financeiras na área de empréstimos, lançada na segunda semana de janeiro.

O PicPay, dizem seus executivos, conta com uma base de 10 milhões de usuários elegíveis para empréstimos. “Tem potencial de uma carteira de crédito de R$ 80 bilhões só com a base que temos hoje”, diz Batista. “O Original está plugado e estamos assinando com mais três bancos nas próximas semanas.”

O mesmo movimento é visto na área de adquirência. Os QR Codes do PicPay já são encontrados em 1,4 milhão de estabelecimentos e o app também pode ser usado como meio de pagamento em outros 3,5 milhões de estabelecimentos cobertos por adquirentes parceiras. “Vamos trabalhar para aumentar a carteira, dar antecipação e capital de giro para os estabelecimentos”, diz Batista.

No segundo semestre, também entrará no ar a plataforma aberta de investimentos. Começará com CDBs e, aos poucos, será expandida para outros produtos. “A lógica é a mesma de um marketplace financeiro”, afirma Chamon.

São tantas frentes abertas ao mesmo tempo que o PicPay encontrará competidores de peso em várias delas. “Mas, quando você tem uma grande base de clientes, fica mais fácil”, diz Bruno Diniz, autor do livro “O Fenômeno Fintech” e sócio-fundador da consultoria Spiralem. “E o PicPay está se tornando um colosso nesse aspecto.”

O especialista, entretanto, enxerga com ceticismo a criação de um supperapp nos moldes chineses aqui no Brasil. Lá, existem dois protagonistas: WeChat e Alipay. No País, há muitos players disputando vários mercados ao mesmo tempo. “É mais fácil o surgimento de um superapp especializado em um determinado segmento”, diz ele.

Várias empresas estão tentando explorar esse nicho. O Inter, por exemplo, foi um dos primeiros bancos digitais a entrar nesse mercado com o lançamento de um superapp. O Rappi também está focado em construir um ecossistema ao redor de seu app e lançou recentemente o RappiBank.

Em plataformas de investimentos, então, a briga é ainda maior. XP domina esse mercado e está montando um banco. Players como Nubank, Neon, Inter, Agibank, Modalmais, Warren, Magnetis e os próprios bancões estão se digladiando nessa arena.

No caso dos marketplaces, o PicPay vai bater de frente com gigantes como Magazine Luiza, Via Varejo, B2W e Mercado Livre. Este último, aliás, conta com uma capilaridade continental, com presença em toda a América Latina, e uma poderosa fintech, o Mercado Pago, que transacionou US$ 14,5 bilhões no terceiro trimestre de 2020.

Batista afirma que uma das vantagens do PicPay é ser 100% digital, desde a fundação, em 2012, no Espírito Santo. “Um monte de empresa fala de digitalização, mas várias têm de se transformar. Enquanto todo mundo está nessa pegada de transformação digital, o PicPay já nasceu digital. Não existe um legado obsoleto para arrumar”, afirma Batista.

Essa tese deverá ser testada no mercado. Fontes afirmam que o PicPay deverá abrir capital neste ano. Seus executivos, inclusive, estariam tendo reuniões com bancos de investimentos para traçar o roteiro que pode colocar a empresa na Bolsa. Perguntado sobre isso, Batista diz que “desde 2017 vem conversando com bancos sobre um possível IPO, que é o caminho natural e que em algum momento pode acontecer”.

Para montar o time que vai levar o PicPay para esse caminho, José Antonio Batista, forjado nas empresas da família, como a JBS, onde comandou a área de logística e cadeia de suprimentos nos Estados Unidos, segue uma cartilha. “Nenhum funcionário de liderança do PicPay entra aqui sem conversar com a gente, olho no olho, meia hora de bate-papo”, diz ele.

“Tem que ter fit cultural. Essa aqui é nossa casa, eu não recebo qualquer um na minha casa. Para entrar dentro da minha casa, tem de ser gente que a gente goste e confie”, diz Batista. “Não podemos ter gente arrogante, burocrata.” E complementa. “O PicPay não pode perder a agilidade, continuamos sendo startup mesmo valendo algumas dezenas de bilhões de reais.”

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