Na crise dos fertilizantes, empresa da Aqua Capital e GIC “aduba” sua expansão

A Biotrop, fabricante de insumos biológicos da Aqua Capital e do fundo soberano de Cingapura (GIC), multiplica por quatro capacidade de produção de sua fábrica, mira entrar nos EUA e na Europa e prepara o lançamento de um produto que substitui o fertilizante tradicional

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Antonio Carlos Zem, fundador e CEO da Biotrop

O empreendedor Antonio Carlos Zem, CEO e fundador da fabricante de insumos biológicos Biotrop, é um empreendedor e ao mesmo tempo agricultor que pratica o que vende. Dono de fazendas de soja e milho no Maranhão e produtor de uvas no Vale do São Francisco, ele usa produtos não químicos em suas terras.

A guerra da Ucrânia, uma tragédia humanitária, está fazendo a pregação de Zem ganhar novos adeptos e abrindo uma oportunidade para os fabricantes de insumos biológicos, produtos a partir de enzimas, extratos botânicos, bactérias, fungos, vírus e feromônios destinados ao controle biológico de pragas nas lavouras, bem como ao desenvolvimento das plantas.

O motivo é simples. A Rússia, que sofreu uma série de sanções por conta da guerra, é um dos principais exportadores de potássio do mundo, item que, ao lado do nitrogênio e do fósforo, é um dos principais “ingredientes” para adubação de lavouras.

Atualmente, cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados. Em relação ao potássio, a dependência brasileira é de 95%. Metade disso é fornecida por Rússia e por Belarus, país aliado do presidente russo Vladimir Putin no conflito.

É uma crise que tem potencial de pressionar o agronegócio brasileiro, bem como os preços dos alimentos. Mas é também uma oportunidade para acelerar o agronegócio sustentável.

Que o diga a Biotrop, que atua em praticamente em todo o Brasil com bioativadores, biodefensivos e bionoculantes para as culturas de soja, milho, cana, café e trigo. “Estamos nos preparando para atender essa demanda”, afirma Zem, ao NeoFeed.  “Os insumos biológicos vão atenuar a falta de fertilizantes.”

A empresa, controlada pelo fundo Aqua Capital, de Sebastian Popik, e que tem o fundo soberano de Cingapura (GIC) como acionista minoritário, já vinha em uma fase de crescimento acelerado. Agora, deve pisar mais fundo no acelerador com a expansão de sua fábrica, a chegada a novos mercados e o lançamento de mais produtos.

Assista ao Café com Investidor com Sebastian Popkik, da Aqua Capital:

Fundada em 2018, a Biotrop acaba de pedir o registro de uma patente de um produto que está sendo chamado internamente de “bio NPK”, em uma referência a letra dos três principais componentes dos fertilizantes (N é de nitrogênio, P de fósforo e K de potássio).

Ele vai ser testado nas lavouras na safra deste ano em pequena escala, uma espécie de MVP (minimum viable product) antes mesmo de entrar em escala industrial, o que está previsto para 2023. “O bio NPK pode substituir todo o processo de adubação”, afirma Zem, que não revela detalhes do produto, que, segundo ele, é todo baseado em bactérias.

Ao mesmo tempo, a Biotrop, cuja sede é em Vinhedo, cidade próxima a capital paulista, está praticamente multiplicando por quatro a capacidade de produção de sua fábrica em Curitiba. Ela tem capacidade de produzir 4,3 milhões de litros de insumos biológicos. Passará para 8 milhões ainda em 2022.

Uma segunda unidade industrial também vai ser construída ao lado, que fará a capacidade de produção subir para 16 milhões de litros de insumos biológicos em 2023. Com isso, terá capacidade de fornecer insumos biológicos para 50 milhões de hectares de terras. O investimento previsto, nas duas obras, é de aproximadamente R$ 55 milhões.

Esse aumento de produção dará vazão a expansão da companhia para outros mercados, além do crescimento previsto da demanda. A Biotrop já vende seus produtos, além do Brasil, para Argentina, Paraguai, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru.

A meta é chegar aos Estados Unidos neste ano, onde está fazendo o processo de registro dos seus produtos. Em 2023, o objetivo é entrar no mercado europeu, um dos mais exigentes do mundo na produção de alimentos.

No ano passado, o faturamento da companhia, que tem apenas quatro anos de vida, chegou a R$ 200 milhões. E a previsão é que dobre neste ano, de acordo com estimativas de Zem, na esteira do avanço do setor de insumos biológicos no mundo e no Brasil.

Um mercado em expansão

O mercado de insumos biológicos (que inclui biodefensivos e bioinoculantes, este último equivalente ao fertilizante químico) deve movimentar globalmente US$ 18,5 bilhões até 2026, aponta relatório publicado pela empresa de pesquisa de mercado Research and Markets. Com isso, o setor teria uma expansão de 74% em apenas quatro anos na comparação com os US$ 10,6 bilhões de 2021.

O mercado global dos defensivos agrícolas químicos movimentou US$ 61,3 bilhões em 2021. E deve chegar aos US$ 73,5 bilhões até 2026. De acordo com o relatório, o crescimento médio anual deve ser de 3,7%. O dos insumos biológicos, 11,9%, uma expansão três vezes mais rápida.

Na safra 2020/2021, a comercialização de insumos biológicos no Brasil atingiu R$ 1,7 bilhão, um aumento de 37% na comparação com o ciclo anterior, segundo o Business Inteligence Panel (BIP), estudo elaborado pela Spark Inteligência Estratégica.

Apesar da marca bilionária, o segmento representa apenas 3% do total dos produtos utilizados pelos produtores para a proteção de cultivos. Os defensivos químicos, por sua vez, movimentaram R$ 52 bilhões, alta de 15%.

“O potencial do mercado  brasileiro é gigantesco”, diz Marcus Ayres, sócio da consultoria estratégica alemã Roland Berger. “É um mundo novo que ainda não tem um player estabelecido que seja hegemônico.”

O que não significa que não existam empresas grandes que atuem nesse setor. A americana Indigo Ag, que está no Brasil desde 2019 com sua linha Sementes Pronta, um tratamento específico para aumentar a produtividade, vale US$ 3,5 bilhões.

A brasileira Vittia, que abriu o capital em agosto do ano passado na B3, é também uma forte competidora nessa área. Desde o IPO, suas ações subiram mais de 40%. A companhia vale R$ 1,7 bilhão e faturou R$ 507 milhões nos nove primeiros meses de 2021.

Outro exemplo é a americana Provivi, que tem investimento do fundo Mandi Ventures, dos brasileiros Antonio Moreira Salles e Julio Benetti. A startup vende um feromônio líquido que pode ser usado em pulverizações e cria uma confusão nos machos da lagarta-do-cartucho, que devora as lavouras de milho e também ataca as culturas de soja e algodão. Com isso, eles não fecundam os óvulos das fêmeas.

Mas, de uma forma geral,  o mercado é dominado por fornecedores menores, como Orion, Oligo Biosoluções para Pecuária, Amvac, Korin, Biocontrol e Agrofresh, que atuam em diversas áreas deste segmento.

Círculo virtuoso

Essa expansão dos insumos biológicos, na visão de Zem, da Biotrop, acontece também porque uma parcela dos agricultores está cansada de usar tanto produtos químicos. Soma-se a isso o anseio de uma parte dos consumidores que quer também alimentos saudáveis, sem o uso de defensivos agrícolas químicos.

Outro fator é o custo. A crise dos fertilizantes está elevando o preço de diversos insumos para as lavouras. Dados compilados pela empresa de serviços financeiros StoneX mostram que os reajustes já começam a ser sentidos no mercado brasileiro.

A tonelada da ureia, fonte mais comum de nitrogênio para ser aplicado no solo, é negociada perto dos US$ 940, um salto de quase 60% em duas semanas. O MAP, componente que contém fósforo, subiu aproximadamente 35% no mesmo período.

Os insumos biológicos, por sua vez, não sofrem esses efeitos. Para produzi-los, a Biotrop não depende de produtos importados, nem seu preço é influenciado pela cotação do dólar.

Com isso, muitos agricultores devem testar o insumos biológicos nesta crise. O que deve dar início a um círculo virtuoso. Mais produtores usam, o que faz a produção aumentar, criando escala, o que reduz os preços.

“Com todos os efeitos nocivos e perversos de uma guerra, o fato dela trazer um aumento do custo de fertilizantes torna uma série de bioinsumos que eram tecnologicamente promissores competitivos em custos”, afirma Ayres.

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