“Putin quer status da antiga URSS”, diz conselheira de segurança do MIT

Carol Saivetz, conselheira sênior do Programa de Estudos de Segurança do MIT, analisa as motivações que levaram Vladimir Putin a guerra e acredita que o ex-presidente norte-americano, Donald Trump, nem se importaria com o conflito porque já queria tirar os EUA da OTAN

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Carol Saivetz, conselheira sênior do Programa de Estudos de Segurança do MIT

Conselheira Sênior do Programa de Estudos de Segurança do MIT, a professora Carol Saivetz sempre estudou e acompanha de perto a política russa há décadas.

Autora de diversas publicações sobre as políticas externas soviética e russa, como “In Search Of Pluralism: Soviet And Post-soviet Politics” (Em busca do pluralismo: política soviética e pós-soviética) e “The Soviet Union In The Third World” (A União Soviética no Terceiro Mundo), ambos de 2019, a especialista tem buscado analisar o xadrez jogado pelo presidente russo Vladimir Putin com relação a invasão da Ucrânia.

A PHD pela Universidade de Columbia, na área de Ciências Políticas, questiona nesta entrevista ao NeoFeed as motivações internas e externas, racionais e emocionais, que levaram o presidente Putin a guerra num momento tão desfavorável de seu governo.

As autoridades russas já estavam enfrentando um desgaste interno com relação à política econômica. A baixa adesão a vacinação contra a Covid-19, só 30% aderiram ao programa de imunização, lembra ela, seria outro indicativo de quanto a população não acreditava nas intenções do governo, mesmo numa crise sanitária.

Além disso, “garotos russos serão assassinados e fotos de corpos em sacos plásticos voltando para Moscou, São Petersburgo e outras cidades não são uma boa publicidade.”

Para a especialista, Putin foi motivado não só pela possibilidade de a Ucrânia aderir a OTAN, mas também por uma questão de status. “Na opinião do líder russo, Rússia e EUA deveriam ter poder igualitário, como acontecia na época da Guerra Fria.” Outra questão fundamental, acrescenta, é o “medo visceral que Putin tem da democracia.”

Para Carol Saivetz, o presidente americano Joe Biden, a despeito das críticas de inaptidão diante da guerra, tem sido “esperto e corajoso”, calibrando suas decisões e apertando a corda na medida certa nas sanções contra a Rússia. E acredita que “se Trump fosse presidente, ele teria entregado a Ucrânia à Rússia de mãos beijadas.”

A conselheira discute ainda a liderança de Volodymyr Zelensky e o papel da China na guerra na entrevista a seguir:

Muita gente foi surpreendida com o ataque russo à Ucrânia. Você acha que era mesmo inesperado, sobretudo agora?
Há duas coisas a se observar aí. A primeira é que a Rússia não está lidando bem com a pandemia. Só pouco mais de 30% da população russa está vacinada, porque eles são desconfiados do governo e da medicação oferecida por eles. Paralelamente, a economia russa também tem sofrido. Dito isso, eu não imaginaria que a Rússia arriscaria uma invasão agora, porque garotos russos serão assassinados e fotos de corpos em sacos plásticos voltando para Moscou, São Petersburgo e outras cidades não são uma boa publicidade. Parece que essa seria mais uma razão para que as pessoas deixassem de confiar nas autoridades. Essa é uma camada para se analisar.

E qual a outra?
A outra camada é o seguinte: se a Rússia invadisse a Ucrânia, ela o faria nas regiões de Donetsk e Luhansk, onde tem o controle das fronteiras. Digo isso porque faz sentido. Que eles começariam ali e rumariam ao sul, em direção à Crimeia, porque desde 2014 há esse papo de fazer uma ponte que conecte Donetsk e Luhansk à península da Crimeia. Então, a natureza do ataque e a direção do ataque realmente me surpreenderam.

Você acha de Putin está agindo impulsionado pela emoção e não pela razão?
Eu diria que há motivações diferentes para essa invasão. A primeira está relacionada à expansão da OTAN. Nos meses que antecederam a invasão, Putin já indicava que não estava satisfeito com o avanço do bloco militar e queria a reversão disso, porque as forças ocidentais estavam cada vez mais próximas de suas fronteiras.

A entrada da Ucrânia na OTAN seria o principal motivo?
Não, eu acho que a entrada da Ucrânia na OTAN é uma razão, mas não acredito que seja a principal delas. Uma das motivações, na minha opinião, está no status. Putin acha que a Rússia não estava sendo tratada à altura. Na opinião do líder russo, Rússia e EUA deveriam ter poder igualitário, como acontecia na época da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética protagonizavam a geopolítica mundial.

“Putin acha que a Rússia não estava sendo tratada à altura. Na opinião do líder russo, Rússia e EUA deveriam ter poder igualitário, como acontecia na época da Guerra Fria”

Quais seriam outras motivações?
Todas estão interligadas, mas eu diria que é o medo visceral que Putin tem da democracia.

Uma pesquisa recente diz que 62% dos americanos acreditam que essa invasão não teria acontecido se Donald Trump ainda estivesse na Casa Branca. Qual a sua opinião sobre o desempenho de Joe Biden na gestão dessa crise?
Você vai me colocar numa enrascada, mas eu sinceramente acho que, se Trump fosse presidente, ele teria entregado a Ucrânia à Rússia de mão beijada. Não concordo com essa pesquisa. Durante seu governo o ex-presidente falou em diferentes ocasiões que iria tirar os EUA da OTAN, então não acho que ele se importaria com esse conflito.

Mas você acha que Biden ou até os Estados Unidos estão com as imagens enfraquecidas?
Putin olhou a atrapalhada retirada das tropas americanas no Afeganistão, viu como isso foi mal repercutido, e pensou que os Estados Unidos estavam enfraquecidos e nos seus últimos suspiros. Agora, é preciso ponderar também que a Rússia tem alimentado muito das fake news compartilhadas no Facebook, no Twitter e outras redes sociais. Assim, eles ajudaram e encorajaram a polarização que acontece nos Estados Unidos agora.

“Putin olhou a atrapalhada retirada das tropas americanas no Afeganistão, viu como isso foi mal repercutido, e pensou que os Estados Unidos estavam enfraquecidos e nos seus últimos suspiros”

E a questão do abastecimento energético da Europa?
Se você olhar para o que aconteceu no final do outono, começo do inverno, a Gazprom, a maior companhia de gás natural russa, ela não quebrou suas obrigações contratuais com os estados europeus, sobretudo com a Alemanha, mas eles certamente não repuseram suas reservas da mesma forma como fizeram em invernos passados. Então, o preço do gás subiria de qualquer jeito, mas eu acho que o Putin estava apostando que o Ocidente estava vulnerável, sabe? Que ele poderia meio que “controlar” partes da Europa, sobretudo a Alemanha, por conta disso.

Você está falando também dos pacotes de sanções anunciados por grandes potências, como os EUA?
Eu realmente não esperava sanções tão duras, porque elas vão machucar a economia americana e certamente vão machucar a economia europeia também, porque elas negociam ainda mais com a Rússia do que os Estados Unidos. Aliás, isso me lembra um outro ponto que não mencionei antes – o Putin pensou que seu país estava blindado das sanções, porque a Rússia tinha, sei lá, um US$ 600 bilhões em reserva. Acontece que, com a exclusão dos bancos russos do sistema SWIFT, ele não tem como acessar esse fundo agora. O rublo despencou hoje, como consequência. A queda foi tanta que o mercado de ações local nem sequer operou. Além disso, dois grandes acordos envolvendo gás natural minguaram. Então eu acho que o Putin deve estar preocupado com a unanimidade do ocidente.

Você acha que esse conflito todo é só uma questão de poder para o Putin?
Eu acho mesmo que o Putin pensava que ele seria celebrado, como quando ele fez a anexação da Crimea. O que está acontecendo, aliás, é justamente o contrário e eu gosto de lembrar que cerca de 2 mil pessoas já foram presas por demonstrar apoio à Ucrânia.

As oligarquias russas também têm parecido se opor à guerra.
O que estou observando é a reação dos oligarcas individuais, que agora foram sancionados pelo Ocidente. Isso significa que esses poderosos foram separados de seu dinheiro, suas famílias e suas casas chiques no sul da França ou outros destinos. Esses ricaços estão reagindo, e vários deles já vieram à público pedir paz, mas é uma linha bem tênue essa, porque eles não querem ter grandes problemas com Putin. Por outro lado, eles sabem o que está em jogo.

Você acha que a dimensão e a duração desse conflito possam ser ditadas pela China?
A China é um dos maiores investidores na Ucrânia. O mercado chinês é muito dependente da Europa, a China tem muitos investimentos na Europa Ocidental, etc. E a última coisa que eles querem é algum tipo de reação e sanções secundárias impostas contra eles por causa das sanções russas. Então vai ser muito interessante ver como a China equilibra esses pólos de Putin contra o Ocidente.

E qual a sua percepção da liderança de Volodimyr Zelenskiy, presidente da Ucrânia?
O Zelenskiy me surpreendeu. Sabe, ele era um comediante que interpretava o presidente na televisão, aí ele ganhou as eleições e ninguém parecia levá-lo a sério. Mas ele acabou se mostrando um grande líder.

Em qual momento a força e a liderança de Zelenskiy mais te chamou a atenção?
Alguns dias atrás, Zelenskiy gravou um vídeo se dirigindo ao povo russo e falando na mesma língua que eles. Na filmagem em primeira pessoa, o presidente da Ucrânia relembra seus vizinhos que a guerra não é contra eles, mas contra uma liderança autoritária.

“Zelenskiy gravou um vídeo se dirigindo ao povo russo e falando na mesma língua que eles. Na filmagem em primeira pessoa, o presidente da Ucrânia relembra seus vizinhos que a guerra não é contra eles, mas contra uma liderança autoritária”

O que você acha sobre as ameaças de Putin com bombas nuclear?
Toda essa conversa que você e eu estamos tendo é sobre a racionalidade de Putin. E eu não sei se ele está operando de uma maneira totalmente racional. E se ele estaria disposto, no final, a fazer algo tão provocativo ou tão destrutivo, acho que devo dizer, como usar armas nucleares. Acho também que esse comportamento é perfeitamente compreensível: se você está encurralado, como você lida com isso?

E quanto à reputação da Rússia, acha que ela foi permanentemente danificada?
Não sei se permanentemente, mas a reputação russa vai sofrer as consequências dessa invasão por um bom tempo, sim. Quer dizer, nós temos uma memória curta, né? Então eu posso estar completamente errada…

Qual a sua opinião sobre a equipe de Biden e sua administração dessa crise? Estaria os EUA a reboque da Europa?
Eu acho que o Biden tem sido corajoso e esperto. As pessoas ficaram chateadas quando a primeira rodada de sanções foi anunciada na semana passada, dizendo que Biden não está fazendo o suficiente. Mas se você notar, ele foi calibrado com muito cuidado, para que a cada novo anúncio – ou nova sanções – a corda apertasse um pouco mais, na medida certa.

“Se você notar, ele (Joe Biden) foi calibrado com muito cuidado, para que a cada novo anúncio – ou nova sanções – a corda apertasse um pouco mais, na medida certa”

Semanas atrás, o presidente Jair Bolsonaro se encontrou com Putin.
Pois é, Viktor Orban, Bolsonaro e vários outros tipos de líderes com tendências autoritárias parecem nutrir certa simpatia pelo presidente russo. Apesar disso, Orban recuou nas falas e isolou Putin. Bolsonaro também pode fazer o mesmo, porque ele esteve lá há duas semanas e veja o que aconteceu depois de sua saída… Então eu acho que todos eles foram pegos desprevenidos. Nosso ex-presidente acha que o Putin é brilhante, e tem sido criticado por isso. Mas Putin é mesmo um estrategista e inteligente. É preciso estar atento.

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