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Na disputa pelo mercado de fibra ótica, a Algar come – e corre – pelas beiradas

Com 80 mil km de fibra ótica em 16 estados, a empresa mineira se prepara para a consolidação do setor que passa por uma das maiores transformações já vistas nos últimos 20 anos. Entenda como os players estão se movimentando nesse jogo de xadrez

 

Luiz Alexandre Garcia, presidente do conselho de administração do grupo Algar

Pergunte a Luiz Alexandre Garcia, presidente do conselho de administração do Grupo Algar, um gigante com faturamento de R$ 3 bilhões em 2019, sobre como tem enxergado os mercados em que a companhia atua: tecnologia, com data centers e contact centers; telecom, com infraestrutura de fibra ótica; turismo, com a Aviva, dona das marcas Rio Quente Resorts e Costa do Sauípe; e agronegócio, em que cultiva soja, milho, cana e cria gado confinado.

Garcia, que faz parte da terceira geração de acionistas da companhia fundada por seu avô Alexandrino, não esconde a área que tem tomado mais atenção do grupo, pelo menos no que diz respeito à expansão. “Telecom é o pilar central do século 21. Tivemos a revolução industrial, a máquina a vapor, a energia elétrica e agora é a vez infraestrutura de banda larga”, diz Garcia ao NeoFeed.

Não à toa, esse mercado tem passado por um processo de consolidação. “Os M&As em telecomunicações estão bastante ativos. A última vez que eu vi esse mercado desse jeito foi, em 1998, com a privatização da banda B (telefonia celular). O setor de telecom está com várias operações de fusões e aquisições ao mesmo tempo”, diz Garcia. E no centro de tudo isso está o segmento de fibra ótica.

É uma área que tem um potencial imenso. O Brasil conta com 72,4 milhões de domicílios. E apenas 46 milhões têm acesso à internet, com poucas conexões de alta velocidade. Mais: somente 72% dos municípios brasileiros têm infraestrutura de fibra ótica. E a demanda vai ser impulsionada pela tecnologia 5G, que vai exigir altíssima capacidade de transmissão e infraestrutura de banda larga.

A Algar está se preparando para essa disputa. Com 80 mil quilômetros de fibra ótica espalhadas por 16 cidades, a operadora, que tem como sócio o fundo soberano de Cingapura, o GIC, vai usar parte dos investimentos anuais de, em média, mais de R$ 600 milhões para aumentar sua base organicamente, na ordem de 10% ao ano, e também via aquisições.

“O Brasil possui quatro empresas de abrangência nacional”, diz Garcia sobre players como TIM, Oi, Claro e Vivo. “Somos a quinta empresa e tem milhares de empresas pequenas. Vamos participar desse processo de consolidação”, afirma Garcia.

O negócio de fibra já representa 70% dos resultados da Algar Telecom, que faturou R$ 2,12 bilhões em 2019. Deste total, 70% vem do mercado corporativo e 30% de pessoas físicas. Com presença em 523 cidades, a ideia da Algar é expandir-se pelo Sul, Sudeste e Nordeste e ir, como bons mineiros que são, “comendo pelas beiradas”.

“Se estou em Campinas, vamos para Paulínia”, diz Garcia, dando exemplos das cidades do interior de São Paulo. “Crescemos sempre analisando expansões que estejam nos perímetros dos nossos negócios”, diz Garcia.

O executivo defende também a necessidade de estipular algumas regras para o leilão da telefonia 5G. “É importante que haja as licenças regionais no leilão de frequência. O que pode não ser interessante para uma empresa de abrangência nacional pode ser para uma empresa de licença regional”, diz ele.

Em relação a presença dos chineses, sobretudo a Huawei na infraestrutura, Garcia é enfático em afirmar que não é viável tirá-los do processo como vem acontecendo em países como Estados Unidos e Reino Unido, que acusam a empresa chinesa de ser uma “ameaça” na questão da cibersegurança.

“Hoje, 50% da base instalada no Brasil é chinesa. É preciso entender o seguinte: na tecnologia 5G, eu vou acrescentar alguma coisa na infraestrutura que já existe. Com isso, tenho um custo marginal. Se eu não puder utilizar esse equipamento, terei de pegar o equipamento e jogar fora. É como um automóvel que você troca a roda. Não vai trocar o automóvel inteiro.”

Disputa fibra a fibra

O mercado de fibra ótica está, de fato, aquecido. Mas, ao contrário do que acontece em outros setores de telefonia, a liderança não está nas mãos das grandes companhias da área, como Vivo, Oi, Claro ou TIM. Nesta disputada corrida, outros players se destacam.

“As pequenas estão na frente”, afirma Eduardo Tude, presidente da consultoria especializada em telecomunicações Telecom. “Elas começaram a instalação das fibras há cinco anos e contam com uma participação de mercado de quase 62%.”

São as chamadas “operadoras competitivas”, pequenos negócios que brotaram por diversas cidades do País, cabeando municípios de pequeno e médio portes. Hoje, elas contam com 8,3 milhões de conexões de banda larga fixa com a tecnologia de fibra ótica. As “gigantes” entre as competitivas são Brisanet, Algar, Sumicity e Vero. Juntas, elas têm cerca de 1,5 milhão de conexões.

Para entender a dimensão desse número, é só comparar com as principais empresas de telefonia do Brasil. A Vivo tem 3 milhões de conexões. A Oi, 1,9 milhão. A Claro, 412 mil. E a TIM, 267 mil, segundo a Teleco.

Até por conta dessa fragmentação enorme, a previsão dos especialistas é a de que haverá um acelerado processo de consolidação. Algo que já está em curso. De um lado, estão fundos de private equity, como Vinci Partners e a EB Capital, com a Vero e a Sumicity, respectivamente. A Algar, com o GIC, faz parte desse grupo.

De outro lado, estão as principais empresas de telefonia que estão criando empresas separadas para atrair investidores. O motivo é fácil de ser entendido: levar fibra ótica dentro da casa do consumidor demanda um investimento intensivo de capital.

“As operadoras não têm dinheiro para construir redes de fibras óticas em torno das cidades e vão fazer o que fizeram com as torres de celular”, afirma Tude. O presidente da Teleco se refere a venda das torres de celulares para outras empresas, realizada por todas as operadoras de telefonia nos últimos anos. Dessa forma, o ativo passou a ser compartilhado por todas elas.

Em fibra ótica, deve acontecer algo semelhante. “Precisamos de um novo ecossistema de negócios, pois não faz mais sentido nenhuma operadora acreditar que fará tudo sozinha. Temos defendido a importância de regras efetivas de compartilhamento de infraestrutura, uma vez que precisaremos trabalhar em sinergia para garantir a ampliação da conectividade do país”, diz Luis Lima, vice-presidente de operações, tecnologia e evolução digital da Algar Telecom.

O maior processo em curso nesse sentido é o da Oi, que está vendendo uma fatia majoritária de sua operação de fibra ótica, a Infra Co, em um negócio que pode ultrapassar os R$ 20 bilhões. A operadora já recebeu mais de dez ofertas não vinculantes de companhias interessadas em sua rede, que conta com mais de 400 mil quilômetros de fibra ótica em 2,5 mil cidades. Entre as empresas interessadas, estão a Highline, que também briga para ficar com a Oi Móvel, e um fundo de private equity gerido pelo BTG Pactual.

Mas a Oi não é a única a se desfazer parte de seus ativos de fibra ótica. A Vivo e a TIM têm projetos semelhantes. A Vivo, por exemplo, informou que vai criar uma empresa de infraestrutura de fibra ótica independente e que buscará um sócio investidor ou industrial.

“Já temos vários interessados”, disse Christian Gebara, sem detalhar nomes ou números, em teleconferência com analistas, durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre em julho deste ano. “Já estamos assinando os NDAs (sigla em inglês para contrato de confidencialidade)”.

No modelo proposto ao mercado, a Vivo entraria com 1,1 milhão de domicílios aptos a contratar os serviços. A meta é atingir 5 milhões de domicílios em que o serviço estará disponível para contratação em quatro anos.

A TIM segue caminho semelhante e contratou o banco UBS para ajudá-la a encontrar um parceiro para acelerar os investimentos em redes de fibra ótica. O parceiro da TIM deve ficar com uma fatia de 51% da nova empresa.

Outro negócio da área é a venda da Copel Telecom, a subsidiária que oferece serviço de internet no Paraná. O seu leilão de privatização foi marcado para 9 de novembro na B3. O preço mínimo é de R$ 1,4 bilhão para quem ficar com a empresa e os seus 211 mil clientes.

Ao que tudo indica, a disputa por um lugar ao sol no mercado de fibra ótica no Brasil será palmo a palmo. Ou melhor, fibra a fibra.

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