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No mundo pós-pandêmico, as marcas terão de ser nômades e ágeis

Para Carlos Ferreirinha, presidente e fundador da MCF Consultoria, o planejamento de longo prazo das empresas dará lugar a uma capacidade de resposta rápida às transformações, motivadas por um público consumidor mais descentralizado

 

Cena do filme “Nomadland”, que venceu o Globo de Ouro e concorre ao Oscar

Uma das grandes transformações provocadas pela pandemia foi a derrubada das barreiras geográficas. Empresas entenderam que os funcionários podem manter a produtividade trabalhando em casa, marcas passaram a atingir novos públicos por meio de canais digitais.

Nesse cenário, as grifes terão que ser mais nômades, como seus clientes, e mais ágeis para responder às transformações. Essa é a visão do especialista do mercado de luxo Carlos Ferreirinha, presidente e fundador da MCF Consultoria, que promoveu um evento online sobre suas perspectivas para 2021.

Para contextualizar esse momento de transformação, Ferreirinha citou o filme “Nomadland”, que venceu o Globo de Ouro e concorre ao Oscar. Na trama, a personagem vivida pela atriz Frances McDormand faz as malas e passa a viver na estrada, a bordo de uma van, pulando de trabalho em trabalho e criando relações com as pessoas que encontra no caminho.

“Ele não foi filmado no ano da pandemia, mas é o filme certo para o momento que estamos vivendo”, diz Ferreirinha. E continua. “Vamos deixar de tentar entender o futuro para nos prepararmos para responder rapidamente ao que acontece à nossa frente.” Para ele, planejamentos de longo prazo, focados nos próximos cinco, seis anos, perderão o sentido.

Será mais importante entender quais competências são necessárias para ganhar velocidade. “É como se estivéssemos em uma cabine de tradução simultânea, traduzindo rapidamente um universo de coisas que acontecem à nossa frente”, diz o consultor.

Essa mudança de modelo de negócios passa por parcerias e alianças estratégicas, mesmo entre empresas que são, em tese, concorrentes. “Não há nenhuma possibilidade de acharmos que cada um pode tudo”, diz Ferreirinha. Para ele, é preciso enxergar competências em outros parceiros com o objetivo de criar diálogo e impactar mais rapidamente os clientes.

Para ganhar essa agilidade, será preciso desenvolver uma estratégia digital que entenda de forma mais profunda o cliente. Produtos e serviços deixarão de ser os únicos protagonistas. “Muitos competem no mesmo nível de produto”, diz o consultor. Nesse cenário, as empresas capazes de se conectar com seus consumidores serão favorecidas.

“É como se estivéssemos em uma cabine de tradução simultânea, traduzindo rapidamente um universo de coisas que acontecem à nossa frente”, diz Ferreirinha

Ferreirinha usa como exemplo as marcas de luxo. A francesa Hermès aparece em uma lista do jornal britânico Financial Times como uma das 100 empresas mais prósperas durante a pandemia. “É uma questão de autoridade, de mostrar ao consumidor como a marca é boa naquilo que faz e como se diferencia da concorrência”, afirma.

E questões como inclusão, diversidade e sustentabilidade não são apenas temas que devem ser discutidos de forma vaga. “As marcas serão dizimadas se não deixarem claras suas posições sobre esses temas”, afirma Ferreirinha. Para ele, empresas terão que entender cada um deles de forma ampla e aplicar esse entendimento na comunicação dos valores e na diversificação de seus portfólios.

Essa mudança de pensamento também vai exigir outras competências dos colaboradores. De acordo com o relatório “Future of Jobs”, do World Economic Forum, habilidades como criatividade, bom senso e pensamento crítico estão entre as mais buscadas pelo mercado neste momento.

Para Ferreirinha, será preciso também mudar o pensamento dos líderes. O ecossistema focado em ordens deve dar espaço a um mindset que não olha apenas para o próprio setor.

“Temos que buscar um incremento no repertório, olhar de forma transversal, procurar mais referência”, diz ele. E afirma que “os próximos grandes líderes serão aqueles inspirados por chefs de cozinha, que misturam elementos de forma arriscada, mas que podem gerar resultados surpreendentes”.

Exclusividade digital

A pandemia também vai deixar outras marcas profundas. Por bastante tempo, vamos conviver com o vírus. A demanda será reduzida, motivada pela redução no poder aquisitivo. “Esse cenário tende a valorizar a busca por empresas conscientes, que ofereçam segurança e dignidade para seus trabalhadores”, afirma Ferreirinha.

Novamente, Ferreirinha busca referência no mercado de luxo para fornecer insights que podem ser aplicados a segmentos variados. Para ele, o consumidor vai buscar não o luxo material, mas uma experiência única. “Não importa o ramo de atividade, será importante trabalhar o elemento de escassez e a exclusividade digital”, afirma.

“Os próximos grandes líderes serão aqueles inspirados por chefs de cozinha, que misturam elementos de forma arriscada, mas que podem gerar resultados surpreendentes”, afirma o consultor

Ele cita a organização de eventos que serão acessados apenas por meio de senhas, ou por lançamentos de coleções de roupas segmentadas, criadas a partir do profundo conhecimento dos clientes. “Será um contraponto entre conhecimento e exclusividade de um lado e propriedade do outro”, afirma Ferreirinha.

Por fim, o consultor também vê oportunidade para o fortalecimento de marcas que consigam transmitir o orgulho da produção local. “Ainda mais com a cadeia de distribuição internacional do jeito que está e com o dólar a quase R$ 6.”

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