Por que a HB Saúde virou alvo de disputa entre Hapvida e SulAmérica

Hapvida e SulAmérica elevaram seus lances para R$ 650 milhões e R$ 563 milhões, respectivamente, em mais um capítulo da disputa pelo grupo de saúde com atuação no interior de São Paulo

0
385
Leia em 6 min

A HB Saúde tem uma carteira de 128 mil beneficiários de planos de saúde

No Brasil, poucos segmentos da economia estão conseguindo se equiparar ao mercado da saúde quando o assunto é consolidação. Segundo a consultoria Ondina Investimentos, o setor registrou 50 acordos de fusões e aquisições apenas no primeiro semestre.

Com a segunda metade do ano em curso, não há sinais de que essa movimentação irá perder força. E um ativo em especial surge como um dos mais cobiçados nessa nova temporada de aquisições: o grupo HB Saúde, de São José do Rio Preto, cidade do interior de São Paulo.

No início de julho, a Hapvida fez uma oferta de R$ 450 milhões pela empresa. Já no fim de agosto, a SulAmérica entrou no páreo com uma proposta de R$ 485 milhões. E nesta quinta-feira, 16 de novembro, as duas empresas voltaram a mostrar o apetite pelo grupo ao elevarem seus lances nessa disputa.

A Hapvida informou que está disposta a pagar até R$ 650 milhões pela empresa, enquanto a SulAmérica subiu sua oferta para R$ 563 milhões. O desfecho do processo está marcado para 23 de setembro, dia em que será uma realizada uma assembleia geral extraordinária dos acionistas da HB Saúde.

Alguns números ajudam a explicar o fato de a HB Saúde ser a nova bola da vez do setor. O grupo reúne uma operadora de plano de saúde, o Hospital HB Mirassol, unidades ambulatoriais, clínica infantil, centros clínicos e de diagnóstico, centro oncológico e espaços de medicina preventiva e ocupacional.

Na carteira da sua operadora, a HB Saúde reúne cerca de 128 mil beneficiários de planos de saúde, além de 25 mil beneficiários de planos odontológicos. Com essa estrutura, a empresa reportou um faturamento de R$ 310 milhões em 2020.

Um dos principais fatores que despertam interesse, porém, é o alcance dessa operação. Além de São José do Rio Preto, a região compreende cidades paulistas como Ribeirão Preto, Barretos, Fernandópolis, Votuporanga, Catanduva e Araçatuba, e municípios mineiros como Uberaba e Três Lagoas, com um total de 3,8 milhões de habitantes e 1,1 milhão de beneficiários de planos de saúde privados.

“Existe um forte processo de consolidação no espaço da saúde suplementar”, afirma Arthur Machado, sócio da consultoria Ondina Investimentos, especializada em fusões e aquisições. “E negócios regionais serão cada vez mais disputados pelos grandes players.”

Ele destaca que, para a Hapvida, a aquisição está alinhada à busca da empresa em ampliar sua participação na região Sudeste, com grande foco na verticalização dessas operações. Essa estratégia já incluiu a compra do Grupo São Francisco, em 2019, por R$ 5 bilhões, com forte presença no interior de São Paulo.

Com essa mesma finalidade, em 2020, a Hapvida comprou 85,7% do Grupo São José, com forte atuação no Vale do Paraíba, em São Paulo, por R$ 320 milhões.

A grande tacada dentro desse direcionamento, no entanto, veio no em janeiro deste ano, com o anúncio da fusão com o Grupo Notre Dame Intermédica.

O acordo em questão cria uma gigante com 84 hospitais, 280 clínicas e 257 unidades de diagnóstico, distribuídos em 18 estados do País. E une os dois nomes que vinham liderando a consolidação desse segmento, com dezenas de aquisições nos últimos anos.

Hoje, a Hapvida tem cerca de 110 mil usuários de planos de saúde na região atendida pela HB Saúde. No caso de uma eventual aquisição, as bases de beneficiários das duas empresas teriam acesso a uma rede mais ampla de atendimento, a partir da união das com as respectivas infraestruturas desses grupos.

“Já no que diz respeito a SulAmérica, a aquisição busca ampliar a consolidação de um modelo verticalizado na empresa, como o que já é adotado pela própria Hapvida”, afirma Machado, da Ondina Investimentos.

Lucas Ribeiro, analista da gestora Kínitro, segue na mesma linha. “A Hapvida vem construindo uma base hospitalar e de vidas, e na criação der um hub capaz de gerar um efeito de rede para atrair mais beneficiários”, diz. “Essa é mais uma das dezenas de aquisições que eles têm feito no interior de São Paulo.”

Em contrapartida, ele observa que, para a SulAmérica, o acordo tem um caráter muito mais crucial. Especialmente pela mudança recente na estratégia da empresa, que tem buscado ampliar sua oferta, antes mais restrita ao segmento premium, em direção a tíquetes mais acessíveis. Parte dessa abordagem está traduzida em produtos recentes, como o plano SulAmérica Direto.

“A HB Saúde é, de certa forma, verticalizada, o que permite oferecer um produto mais econômico”, afirma Ribeiro. “E a SulAmérica ainda tem o desafio de dar tração à sua base nesse perfil. O mercado tem visto o que a Hapvida e a Notre Dame vêm fazendo e está cobrando essa aceleração.”

Em setembro de 2020, a SulAmérica deu sua primeira resposta ao concluir a compra da Paraná Clínicas, quinta maior operadora do Paraná, por R$ 385 milhões. Com a aquisição, o grupo teve acesso a sete centros clínicos e a uma carteira de aproximadamente 90 mil beneficiários.

“Esse é o começo da nossa estratégia. Estamos buscando oportunidades de aquisições no mesmo modelo da Paraná Clínicas”, disse Ricardo Bottas, presidente da SulAmérica, em entrevista recente ao NeoFeed.

Para levar à frente essa estratégia, o executivo também destacou o fato de o grupo estar com o caixa reforçado pela venda de sua divisão de seguros auto para a Allianz, por R$ 3,18 bilhões. “Capital não é problema. Temos R$ 1,5 bilhão em caixa disponível”, acrescentou.

Em comentário divulgado aos seus clientes, o Credit Suisse destacou, porém, que a Hapvida larga na frente nessa disputa, pelo lance mais alto na nova rodada de negociações. “A diferença pode tornar difícil para os acionistas da HB preferirem a oferta da SulAmérica”, afirmaram os analistas do banco.

Também nessa direção, Ribeiro, da Kínitro, ressalta a “vantagem absurda” da Hapvida. Ele explica que a empresa tem condições de pagar mais e, ao mesmo tempo, obter um retorno mais elevado que a SulAmérica, dado que seu modelo está mais maduro e já tem mais encaixe com a HB Saúde.

Entretanto, o analista diz que há um ponto a ser ponderado pelos acionistas da HB Saúde. “Embaixo do guarda-chuva da Hapvida, que tem um modelo muito próprio, a operação mudaria bastante”, afirma. “Já com a SulAmérica, haveria provavelmente mais liberdade e o choque de transição não seria tão grande.”

À espera de quem vai sair vencedor nesse certame, o mercado mostra está reagindo aos anúncios desta quinta-feira. As ações da Hapvida operavam a R$ 15,35, com ligeira queda de 0,2%, por volta das 13h20. A empresa está avaliada em R$ 59,6 bilhões.

Já as ações da SulAmérica, cujo valor de mercado está em R$ 12,1 bilhões, estavam cotadas a R$ 28,39 no mesmo horário, um ligeiro recuo de 0,25%.

Leia também