Silenciosamente, o Rappi começa a virar um grande varejista

O Rappi vai chegar a 128 lojas no Brasil até o fim do mês e concentra seus esforços para ganhar mercado nessa vertical de negócios. A CEO da empresa no Brasil, Tijana Jankovic, conta os detalhes ao NeoFeed

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Rappi Turbo está fazendo o app se tornar varejista

Em março do ano passado, quando a operação foi iniciada por aqui, eram 10 lojas. Hoje, são 125 unidades espalhadas por 13 cidades e até o fim do mês serão 128. A meta: em breve, atingir 300 unidades no Brasil. A empresa em questão não tem sua marca instalada na porta e muito menos chama atenção para isso, mas, aos poucos, sem fazer alarde, está se transformando em uma grande varejista.

Num mercado em que varejistas viram banco e outros passam a atuar no setor de delivery, a startup colombiana Rappi, cofundada por Sebastian Mejia em 2015 e com operações no Brasil desde 2017, está fortalecendo sua vertical de varejo, batizada de Rappi Turbo. “Ele nos posiciona como dono de loja e não como um marketplace que funciona como um conector”, diz Tijana Jankovic, CEO do Rappi no Brasil, ao NeoFeed.

O serviço, que promete entregas em até 10 minutos e conta com uma rede de dark stores, agora começa a ganhar mais capilaridade. “Crescemos muito rápido nessa área. Começamos testando dez lojas, em março do ano passado, e partimos para 125 lojas entre maio de 2021 e atualmente”, diz Tijana. Agora a expansão se dará de outra forma.

Depois de abrir unidades nas principais capitais do País, o Rappi começa a entrar nas chamadas cidades tier 2 – grandes municípios como Santos e São José dos Campos, ambas no estado de São Paulo, as duas mais recentes a serem abertas.

“Estamos aprendendo o modelo para atender essas cidades menores, que têm menos densidade e menos trânsito”, diz Tijana. Após o período de testes, a empresa já tem dez cidades mapeadas. Entram nessa leva Ribeirão Preto (SP), São José do Rio Preto (SP), Londrina (PR), Maringá (PR), entre outras.

Os testes do Rappi são necessários para conhecer bem os públicos e definir o nível de investimento que será feito em cada cidade. As dark stores, lojas que são próprias da empresa, têm entre 120 metros quadrados e 150 metros quadrados. São lojas com entre 1,2 mil e 1,5 mil produtos diferentes.

Em algumas regiões é preciso aumentar o espaço, de acordo com o fluxo. No bairro do Itaim, na cidade de São Paulo, a loja saltou de 120 metros quadrados para uma de 250 metros quadrados. Em Copacabana, no Rio de Janeiro, a companhia fará o mesmo. Cada loja tem, em média, sete funcionários.

A CEO da empresa no Brasil, Tijana Jankovic

O avanço do Rappi nessa área, diz Tijana, não acontece no escuro. Como trabalha com entrega de supermercado há muitos anos, a startup já tem um mapa do que os consumidores de cada região costumam pedir e esses dados são usados na construção do portfólio de produtos das diferentes lojas.

“Estamos criando um novo momento de consumo. É uma vertical complementar, não compete com uma compra semanal, é uma compra de conveniência”, diz Tijana. No início, o carro-chefe eram as bebidas geladas. Agora, um dos produtos que mais vende é pão. Produtos de higiene pessoal como escova, pasta de dente e papel higiênico também estão entre os mais comercializados – aqueles que faltam de última hora. Frutas e verduras começam a ganhar tração.

Com tecnologia e análise de dados, a empresa pretende se antecipar e passar a oferecer os produtos aos clientes. “Se você comprou uma escova de dentes há três meses, já sabemos que já passou da hora de trocar e oferecer”, diz Tijana. “Eu sei que você, por exemplo, consome chá de hortelã e tem um novo lançamento que posso oferecer para você.”

Funcionária separando produtos em uma das dark stores do Rappi

O motor de previsibilidade de demanda também é crucial na gestão de estoque. “Os usuários do bairro do Itaim pedem mais no período da noite, os do Morumbi pedem espalhado ao longo do dia”, diz Tijana. E prossegue. “O fluxo de varejo tradicional não foi feito para ser digital. O Rappi Turbo é a nossa resposta para isso.”

Mas não é uma disputa tão simples. Além de brigar com os tradicionais iFood e Uber Eats em diferentes verticais, o Rappi vem encontrando outros competidores como Magazine Luiza, Via e Mercado Livre, que também estão entrando em delivery, tanto de restaurantes como de alimentos e outros produtos.

Há também a chegada de outros players como, por exemplo, a Daki, que promete fazer entregas em 15 minutos. A startup recebeu aportes série A e B que totalizaram US$ 430 milhões e já virou unicórnio com apenas 11 meses de operação.

Para Mauro Schluter, especialista e professor de logística do Mackenzie, as entregas rápidas tendem a avançar para virar uma commodity, o que vai obrigar todas essas empresas a buscarem novos diferenciais. Nessa corrida, ele destaca as vantagens do Rappi. “Eles são bastante ágeis na implantação das inovações que impõem aos negócios”, afirma Schluter. “Ao mesmo tempo, eu não descartaria que eles fossem alvo de uma aquisição de um grande player.”

Tijana afirma que o Rappi já é veterano nesse segmento, já teve muito aprendizado no setor e outros players precisarão aprender também. “Mas, quando você olha o mercado de compras digitais no Brasil, ele tem uma penetração bizarramente baixa em comparação com o tamanho do Brasil”, afirma. O comércio eletrônico no País representa cerca de 6% das vendas totais.

Foco na América Latina

Com 30 milhões de usuários em nove países da América Latina, a startup tem como principais focos o Brasil ao lado de México e Colômbia (ela também está na Argentina, no Uruguai, no Chile, no Peru, Equador e Costa Rica). Do total de 300 dark stores que a empresa tem em todos os países em que atua, mais de um terço está no Brasil. Dos 3 mil funcionários, 700 estão por aqui.

“O Brasil é crucial na estratégia do Rappi porque é um dos mercados mais acostumados com o conceito de superapp. O app brasileiro tem várias verticais como banco, turismo, farmácia, e-commerce, entretenimento. “Isso é muito favorável para outro pilar da estratégia que é o prime.”

A empresa não divulga os números de usuários separadamente, mas Tijana diz que a maioria dos usuários ativos da companhia usa o prime, serviço que foi impulsionado durante a pandemia.

Trata-se de um serviço de assinatura, inspirado pelo Amazon Prime, que custa R$ 29,90 por mês. Ao pagar essa mensalidade, o usuário tem vantagens como frete grátis em pedidos acima de R$ 30,00, entra na frente da fila do suporte de atendimento e, agora, vai contar com outros benefícios como assinatura da HBO Max.

“Mas estamos relançando o programa e muita coisa vai mudar. Vamos oferecer mais serviços fora do nosso ecossistema”, afirma Tijana. A executiva diz que haverá outras ofertas, tanto no Rappi Bank, com taxas mais acessíveis, ao Rappi Travel, com diárias de hotéis mais baratas para os usuários prime.

Os parceiros de varejo, de restaurantes e indústrias como Unilever, Ambev e Heineken, por exemplo, também poderão oferecer vantagens específicas para os usuários prime. “Estamos aperfeiçoando a nossa plataforma tecnológica para que isso seja mais fácil”, diz Tijana. “É um ganha-ganha para todos.”

Com isso, a indústria consegue se conectar ao usuário que tem frequência. Para o Rappi, a vantagem é o usuário enxergar mais valor em usar diariamente o app da companhia e trazer mais recorrência para o negócio. Tijana não diz qual a receita da empresa, mas o Rappi está bem fornido de caixa.

Desde a sua fundação, o Rappi já recebeu aportes de US$ 2,2 bilhões e é avaliado em US$ 5,2 bilhões

Desde a sua fundação, o Rappi já recebeu aportes de US$ 2,2 bilhões e é avaliado em US$ 5,2 bilhões. O mais recente investimento, em julho do ano passado, foi um cheque de US$ 500 milhões em uma Série F liderada pelo fundo T.Rowe Price. Além dele, outros gigantes do Vale do Silício como Sequoia, Andreessen Horowitz e Softbank, acompanharam a rodada.

É com esse dinheiro que a startup está suportando o seu crescimento na área de dark stores. Ele também tem ajudado o Rappi a segurar as pontas no mercado de restaurantes. Na semana passada, a Uber Eats anunciou que vai abandonar o delivery de restaurantes. Por trás dessa medida está, sobretudo, a disputa com o iFood.

De acordo com um levantamento feito pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), em setembro do ano passado, o iFood tinha 80% dos restaurantes, enquanto Uber Eats aparecia com 24% e o Rappi com 18%. A soma das participações dá mais do que 100% porque alguns estabelecimentos trabalham com mais de um aplicativo.

Mas, segundo as empresas, o iFood fecha contratos de exclusividade com as grandes redes e restaurantes e barra o avanço dos concorrentes. Isso fez o próprio Rappi e o Uber Eats entrarem com uma representação contra o iFood no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em setembro de 2020.

Como isso fica agora? “Primeiro, é muito triste ver um competidor, um colega de jogo, sair desse mercado. É uma notícia relevante porque não é um player pequeno saindo, é um player global bem estabelecido tomando uma decisão como essa”, diz Tijana. E prossegue. “Eles não estão mais nessa luta do Cade, mas nós continuaremos.”

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