Negócios

Acordo entre Boeing e Embraer não decola

Diante da maior crise da sua história, agravada pelos impactos da Covid-19, a fabricante americana desistiu da joint venture com a companhia brasileira, anunciada há dois anos

 

Desde o fim de 2017, quando vieram à tona as negociações entre a Boeing e a Embraer, o possível acordo despertou reações contrárias. Especialmente por parte daqueles que temiam pelo futuro da fabricante brasileiro, um dos orgulhos da indústria nacional.

Passados pouco mais de dois anos, a concretização da joint venture anunciada em julho de 2018 não decolou. Na manhã deste sábado, 25 de abril, a Boeing confirmou que desistiu do negócio.

“A Boeing trabalhou diligentemente nos últimos dois anos para concluir a transação com a Embraer. Há vários meses temos mantido negociações produtivas a respeito de condições do contrato que não foram atendidas, mas em última instância, essas negociações não foram bem-sucedidas”, disse Marc Allen, presidente da Boeing para a parceria com a Embraer e operações.

Em nota, a Embraer informou que “buscará todas as medidas cabíveis contra a Boeing pelos danos sofridos como resultado do cancelamento indevido e da violação do MTA (Master Transaction Agreement).”

Segundo o comunicado, a Embraer diz que “acredita que está em total conformidade com suas obrigações previstas no MTA e que cumpriu todas as condições necessárias previstas até 24 de abril de 2020”

A nota prossegue dizendo que “a empresa acredita que a Boeing adotou um padrão sistemático de atraso e violações repetidas ao MTA, devido à falta de vontade em concluir a transação, sua condição financeira, ao 737 MAX e outros problemas comerciais e de reputação”.

Pelos termos divulgados há dois anos, a operação entre as duas empresas envolveria a compra dos negócios e serviços de aviação comercial da Embraer. A Boeing desembolsaria US$ 4,2 bilhões para deter uma fatia de 80% na operação. A brasileira ficaria com os 20% restantes.

Quando a negociação foi anunciada, o montante em questão poderia ser considerado uma barganha para a gigante americana, dona, na época, de uma receita anual de US$ 93,4 bilhões e avaliada em mais de US$ 190 bilhões.

A realidade da Boeing hoje, no entanto, é bem diferente. Em 2019, a empresa reportou uma queda de 24% em sua receita, para US$ 76,5 bilhões, e um prejuízo de US$ 636 milhões, o maior de sua história. Da antiga avaliação nas alturas, o valor de mercado da companhia hoje é de US$ 72,7 bilhões.

Parte da derrocada da Boeing está ligada à Covid-19. Como todas as empresas do setor de aviação, a empresa vem sofrendo os duros impactos gerados pela pandemia.

Em 2019, a Boeing reportou uma queda de 24% em sua receita, para US$ 76,5 bilhões, e um prejuízo de US$ 636 milhões, o maior de sua história

Já no início da crise, a companhia congelou contratações e acessou um empréstimo de US$ 14 bilhões. Ao mesmo tempo, a fabricante encampou um pedido de US$ 60 bilhões do governo americano para resgatar o setor.

A Covid-19, no entanto, é apenas uma ponta dos problemas da Boeing. Antes do coronavírus, a empresa já estava mergulhada na maior crise de sua história, deflagrada por dois acidentes envolvendo o avião 737 MAX. As tragédias aconteceram em um espaço de menos de cinco meses e vitimaram 346 pessoas.

Desde então, 688 aeronaves desse modelo foram proibidas de voar e estão estacionadas em pátios da empresa e de companhias aéreas clientes. Em meio às investigações que apontaram falhas no projeto e à espera da aprovação das autoridades para as revisões feitas no 737 MAX, a Boeing já adiou por diversas vezes a volta dos aviões à operação.

O último prazo dado pela fabricante para que isso acontecesse era o mês de julho. Mas o processo de obtenção das certificações necessárias por parte da Agência Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) tem sofrido atrasos por conta das dificuldades trazidas pela pandemia.

Como reflexo, essa prorrogação só amplia o histórico de perdas acumulado pela Boeing desde março de 2019. E abre caminho para novos cancelamentos de encomendas feitas do modelo, que se configurava como a principal aposta da companhia antes da crise.

Nesse cenário e com o fator agravante da pandemia não foi uma surpresa a desistência do negócio com a Embraer. “É uma questão de liquidez”, afirmou Ron Epstein, analista do Bank of America Merrill Lynch, em entrevista ao Financial Times, antes de a Boeing confirmar oficialmente o fim do acordo. “A Boeing está em posição de gastar US$ 4,2 bilhões em uma aquisição, levando-se em conta o que está acontecendo no mercado da aviação comercial?”.

(A reportagem foi atualizada no sábado, 25 de abril, às 11 horas e às 13h45, com as informações atualizadas sobre a desistência do acordo de fusão entre Boeing e Embraer)

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

UM CONTEÚDO:

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO