Negócios

Um escambo surreal: a troca de respiradores mecânicos pela abertura de shoppings

Num email desastrado, um grupo empresarial de Santa Catarina condicionou a doação de respiradores mecânicos à abertura de seus shoppings. Se a intenção era fazer o bem, foi um tiro no pé

 

Um dos seis shoppings do grupo Almeida Júnior

Nas últimas semanas, na esteira dos estragos sanitários, econômicos e sociais causados pela Covid-19, um movimento brotou na sociedade civil como há muito tempo não se via. E que resgatou algo que parecia perdido: a solidariedade.

De norte a sul, de leste a oeste, em todas as partes do globo, surgiam notícias de vizinhos se prontificando a fazer compras para que os mais velhos não tivessem que sair de casa; imagens de médicos recebendo apoio de voluntários; e ONGs de todos os tipos reunindo cestas básicas para comunidades carentes.

Empresas entraram na luta contra o inimigo invisível doando álcool em gel, máscaras cirúrgicas, ventiladores mecânicos, testes de análises clínicas e até construindo hospitais. Outras direcionaram milhões de reais para combater a fome dos que precisam vender o almoço para pagar o jantar.

Nas redes sociais, onde todos se tornaram “especialistas” em epidemiologia e economia, onde tudo vira disputa política, uma opinião parecia consensual: o mundo será outro depois dessa pandemia. Os valores, o consumo e o estilo de vida mudarão para sempre.

Mas eis que uma reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo, assinada pelo repórter Fábio Bispo, escancarou uma situação totalmente desconectada dessa nova realidade.

De acordo com a matéria, a administradora de shopping-centers de Santa Catarina, Almeida Junior, que conta com seis unidades no Estado, atualmente todas fechadas, fez uma proposta, digamos, surreal para o governador Carlos Moisés (PSL).

Em um e-mail enviado ao governador, o CEO da empresa, Jaimes Almeida Júnior, propõe a doação de dois respiradores mecânicos para cada um de seus shoppings abertos.

A companhia ainda disponibilizaria um espaço no estacionamento dos shoppings para a realização de testes para a Covid-19. “O governador ainda não se posicionou”, disse Jaimes Almeida Júnior ao jornal O Estado de São Paulo.

“As propostas que o grupo Almeida Junior fez ao Governo de Santa Catarina para a reabertura dos shoppings irão trazer muita segurança aos consumidores”, disse o executivo.

Logo depois da reportagem, o grupo foi acusado de chantagem. Recebeu várias críticas e sua imagem ficou bem arranhada. Para conter os danos, soltou uma nota oficial dizendo que se tratava de um mal-entendido e que não havia condicionado a doação dos respiradores a abertura dos shoppings.

Mas o estrago já estava feito e, para não restar dúvidas de como a empresa havia se comunicado, copio aqui a parte do email enviado ao governador, da forma como foi escrito.

“A ALMEIDA JÚNIOR na batalha contra o COVID 19 se propõe a contribuir com a Secretaria de Saúde de São José, Criciúma, Balneário Camboriú, Blumenau e Joinville:

a) – em todos os nossos shoppings espaços para VACINAÇÃO e EXAMES DE COVID 19 no modelo que convier à Secretaria da Saúde e no tempo que necessitar;

b) – doação à Saúde Pública do Estado de dois respiradores por shopping, por cidade, no primeiro mês de abertura dos shoppings – 12 RESPIRADORES .”

É evidente que os shoppings precisam funcionar para fazer a economia girar. É evidente que os lojistas precisam vender para manter seus negócios. Mas trata-se de uma questão sanitária e não apenas econômica. A discussão é complexa e não há uma única saída para esse impasse.

A questão é a forma como o pedido foi feito. Se a ideia era mostrar que se preocupava com a sociedade, o grupo Almeida Junior poderia simplesmente ter doado os aparelhos.

Mas, ao registrar que seriam doados quando os shoppings estivessem abertos, deu um tiro no pé. Foi, literalmente, na contramão do que as principais empresas do mundo e do País têm feito. E aqui vão alguns exemplos para o CEO do grupo.

Nos Estados Unidos e na Alemanha, montadoras como GM e Volkswagen direcionaram suas linhas de produção para fabricar respiradores mecânicos, à exemplo do que fizeram algumas indústrias durante a Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, Ambev, Natura, Cosan, entre outras, passaram a fabricar álcool em gel para doar. Grifes como Lupo e Reserva destinaram parte de suas confecções para produzir e doar máscaras cirúrgicas.

Companhias como EDP doaram milhões de reais para a compra de respiradores mecânicos. Os grandes bancos deixaram a competição de lado e se juntaram para comprar 5 milhões de testes de Covid-19.

BTG Pactual, Safra, BV, entre outros, destinaram dezenas de milhões de reais contra o coronavírus. Operadores de telecomunicações se uniram numa campanha conjunta. A empresa de tecnologia Cisco liberou gratuitamente sua ferramenta de reuniões remotas.

O empresário Guilherme Benchimol, da XP Inc., criou uma plataforma de doação para comunidades carentes, a Juntos Transformamos. O bilionário Carlos Wizard, que até recentemente morava em Roraima ajudando refugiados venezuelanos, também criou um movimento batizado de “Eu Faço Parte da Solução”, que vai contar com doações contra a Covid-19.

Como já pontuou aqui no NeoFeed, o colunista Ricardo Voltolini, um dos profissionais mais respeitados no mundo da sustentabilidade, “líderes com valores são os que carregam a lanterna em tempos escuros”. Está mais do que claro que as atitudes de hoje serão lembradas no futuro: as boas e as más.

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