Negócios

Nem tudo é uma questão de lucro: como as empresas estão sendo solidárias na crise

Com iniciativas que envolvem desde a fabricação e a doação de álcool em gel para hospitais públicos a ferramentas digitais e gratuitas de saúde e ensino, companhias como Cisco, Ambev, Banco Original e Claro formam uma corrente do bem para reduzir os impactos do coronavírus

 

A Ambev vai produzir álcool em gel e doar para hospitais públicos de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília

Nas grandes crises, as empresas se revelam. Para o bem e para o mal. No contexto crítico instaurado a partir da propagação do coronavírus não é diferente. Ainda é impossível prever qual será a extensão da pandemia. Mas já são fartos os exemplos de como as companhias lidam de modos distintos com um cenário que já está afetando seriamente pessoas e economias em todo o mundo.

De um lado, os preços abusivos praticados na venda de produtos essenciais para evitar a disseminação do vírus, como o álcool em gel e as máscaras cirúrgicas, traduzem a face mais perversa dessa relação. Em contrapartida, a cada dia, crescem os casos de empresas com iniciativas solidárias mostrando que o lucro, especialmente nesse momento, não é o único objetivo.

“Não adianta ninguém sobreviver sozinho”, diz Laércio Albuquerque, CEO da Cisco no Brasil ao NeoFeed. “É como um caso de emergência em um avião. Primeiro você coloca a sua máscara. Mas depois, cuida do próximo.”

A Cisco seguiu exatamente esse roteiro. Depois de colocar 70 mil funcionários no modelo de home office, a empresa anunciou a oferta gratuita de sua plataforma de colaboração e comunicação para companhias em todo o mundo. O acesso veio com recursos como uso ilimitado, capacidade de até 100 participantes simultâneos na mesma reunião e ferramentas de segurança.

Para tornar possível a oferta nesses moldes, a empresa investiu um montante não revelado em capacidade adicional para a plataforma, baseada na nuvem. “É um momento seríssimo que estamos vivendo”, afirma Albuquerque. “As agendas precisam ser práticas. Cada empresa deve se concentrar em usar aquilo o que tem de bom para fazer algo tangível para a sociedade.”

Assim como a Cisco, outras companhias, dos mais variados portes e setores, no Brasil e no mundo, colocaram em prática projetos que seguem esse princípio. Confira abaixo, em ordem alfabética, algumas dessas iniciativas:

Adobe

Para facilitar o ensino a distância, a companhia americana está permitindo que estudantes e professores usuários de seus softwares em todo o mundo solicitem acesso domiciliar à plataforma, sem custos adicionais. O recurso estará à disposição até 31 de maio. Até o início de julho, a empresa também vai oferecer acesso gratuito à sua ferramenta de conferência online para reuniões, treinamentos e salas de aula virtuais.

Amazon

Jeff Bezos, CEO e fundador da Amazon

A empresa do bilionário Jeff Bezos criou um fundo, com recursos iniciais de US$ 25 milhões, para apoiar parceiros independentes de entrega, entre outros prestadores de serviço terceirizados em dificuldades financeiras durante a crise. Outro fundo, de US$ 5 milhões, será voltado a subsídios para empresas de pequeno porte de Seattle, cidade que abriga a sede da varejista. Em mais uma frente, a Amazon colocou US$ 1 milhão em uma iniciativa da Seattle Foundation, para apoiar iniciativas centradas em pessoas sem licença médica ou seguro de saúde, além de profissionais da área e indivíduos clinicamente frágeis.

Ambev

A empresa vai usar sua fábrica de cerveja em Piraí (RJ) para produzir 500 mil unidades de álcool em gel, que serão doadas para hospitais públicos de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. As cidades foram escolhidas por concentrarem boa parte dos casos de coronavírus no País até o momento.

Nesse processo, a Ambev também cuidará da logística de entrega dos produtos. “Em um cenário como esse, precisamos olhar para além de nossos muros e ver o que podemos fazer para contribuir com o coletivo”, afirmou a companhia em nota enviada ao NeoFeed.

Avaya

A empresa estabeleceu um prazo de 90 dias para o acesso gratuito ao seu software de colaboração remota. Baseado em nuvem, o sistema permite a conexão, por meio de aplicativo ou navegador, a funcionalidades como conferência de voz e vídeo, para até 200 participantes.

Banco Original

O banco anunciou benefícios para clientes economicamente impactados pelo Covid-19. Para ajudar as pessoas a manterem as contas em dia, a instituição financeira lançou mãos de um pacote que inclui recursos como taxa zero de pagamento de boleto no cartão de crédito; redução de juros para o parcelamento voluntário do cartão de crédito; e prazo de 60 dias para quitar a primeira parcela de empréstimo pessoal, pagar parcela de renegociação de dívidas e parcelar saldo de contratos em dia.

Cisco

Além das ferramentas de colaboração, comunicação e de segurança, a Cisco está colaborando com chefes de estado e agências governamentais para ajudar na manutenção de serviços em áreas como saúde, educação e segurança pública.

Entre outras ações, a empresa já forneceu plataformas de videoconferência e infraestrutura de rede para instalações médicas e escolas na China, Itália e Coreia do Sul. Até o momento, a companhia americana já doou mais de US$ 1 milhão em tecnologia.

Claro

Desde 14 de março, a operadora investiu em uma série de iniciativas. A velocidade dos serviços de banda larga fixa será ampliada gradativamente para todos assinantes, sem custo adicional.

Na rede móvel, serão concedidos bônus de internet para clientes pós-pagos. Já os usuários pré-pagos que consumirem suas franquias terão direito a um bônus diário de 100 MB. Para isso, precisarão assistir à campanha sobre o coronavírus produzida pelo Ministério da Saúde.

A ação da pasta também é uma condição para quem não é cliente da operadora e quiser ter acesso gratuito às redes de Wi-Fi da Claro em espaços públicos. A empresa também está investindo na abertura do sinal de canais e conteúdos em serviço de TV por assinatura.

Coletivos

O cenário não está restrito às ações isoladas de empresas. Nos Estados Unidos, mais de 400 CEOs, investidores e personalidades assinaram uma carta aberta com medidas para conter a propagação do vírus. Batizado de StoptheSpread, o movimento inclui executivos como Ken Chenault, presidente da empresa americana de capital de risco General Catalyst, e o astro do basquete americano Stephen Curry.

E inspirou uma iniciativa semelhante no Brasil. Lançado em 16 de março, o grupo já conta com a adesão de mais de 600 CEOs, investidores e executivos de empresas e startups do País. Entre eles, nomes de peso no ecossistema de empreendedorismo local, como Romero Rodrigues, da Redpoint eventures. Além de presidentes e diretores de companhias como Mobly, Resultados Digitais, Neon, ZAP, PSafe, Loft, Conta Azul e Ci&T.

Inicialmente, todos assumiram o compromisso de adotar uma série de medidas em suas respectivas operações, como a adoção de home office para os funcionários; o suporte a prestadores de serviços autônomos relacionados à operação em questão; e o apoio, sempre que possível, a empresas de pequeno porte.

“Nosso objetivo principal é estimular medidas para diminuir a taxa de crescimento e o efeito exponencial do vírus”, diz Luciano Tavares, CEO da fintech Magnetis, um dos idealizadores da iniciativa. “Mas também queremos acender o fogo para que cada um olhe o seu negócio e pense no que pode fazer para reduzir os impactos biológicos, sociais e econômicos dessa crise.”

Consolide

A startup catarinense está dando consultorias gratuitas e online para micro e pequenos empresários que precisam tirar dúvidas relacionadas ao coronavírus. O pacote inclui questões como antecipação de férias, adiamento do pagamento do FGTS e jornada home office.

Doctoralia

A empresa está oferecendo a instituições públicas de saúde acesso gratuito à sua plataforma de triagem de pacientes. Ao permitir a realização de pré-atendimentos remotamente, o serviço ajuda a reduzir a circulação em hospitais e ambulatório, o que diminui a probabilidade de propagação do coronavírus.

Educacross

A startup criada na incubadora Supera Parque de Inovação e Tecnologia, de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, liberou o acesso gratuito a sua plataforma de ensino e aprendizado para instituições públicas e particulares. Entre outros recursos, a ferramenta, voltada a alunos e educadores, permite avaliar o desempenho individual e coletivo dos estudantes e sugere atividades complementares.

GPA e Carrefour

Para evitar abusos, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) e o Carrefour, assim como outras redes de supermercados, estão limitando a quantidade de itens por clientes, especialmente em categorias mais essenciais. Ao mesmo tempo, algumas lojas do GPA estão reservando o horário entre 6 horas e 7 horas exclusivamente para os consumidores idosos.

LVMH

Desde 16 de março, o grupo francês Louis Vuitton Moët Hennessy (LMVH), dono de marcas como Christian Dior, Louis Vuitton e Givenchy, está usando toda a sua estrutura de fabricação de perfumes e cosméticos para produzir álcool gel. As autoridades de saúde da França estão entre os principais destinos dos itens. Em janeiro, a empresa já havia doado US$ 2,8 bilhões à Cruz Vermelha, na China, em parceria com as marcas Kering e Swarovski.

Mercado Livre

A empresa  não vai cobrar as comissões pagas por vendedores que comercializam produtos de primeira necessidade em seu marketplace. Válida para o período de 17 a 31 de março, a medida envolve cerca de 690 mil itens, de 39 mil parceiros. O Mercado Livre também está monitorando os preços e a venda de álcool gel e máscaras em sua plataforma, com a possibilidade de cancelar ofertas com aumento desproporcional nos preços.

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