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Negócios

“Tudo mudou no Mercado Livre depois de 2012”, diz Stelleo Tolda

Stelleo Tolda, o cofundador do Mercado Livre, conta como foi a virada da empresa de comércio eletrônico, aposta suas fichas na logística e em serviços financeiros, e fala sobre a criptomoeda do Facebook

 

Stelleo Tolda, cofundador do Mercado Livre, fala sobre os 20 anos da companhia

O Mercado Livre nasceu, em agosto 1999, meses antes do estouro da bolha da internet, em março de 2000, e tinha como foco ser um site de leilão ao melhor estilo do eBay. Mas voltado exclusivamente ao mercado latino-americano.

Agora, prestes a completar 20 anos, o Mercado Livre é um gigante que mudou radicalmente ao longo dos anos e continua em acelerada mutação. Só um ponto se mantém o mesmo: o foco no mercado latino-americano.

Hoje, o Mercado Livre, avaliado em US$ 32 bilhões na Nasdaq, US$ 3 bilhões a mais do que o Twitter, na cotação de sexta-feira, 12 de julho, é o maior comércio eletrônico da região e conta com mais de 200 milhões de usuários cadastrados.

A companhia também passou a trabalhar o marketplace em parceria com grandes redes, opera um complexo sistema logístico com a marca Mercado Envios e virou fintech com o braço de serviços financeiros Mercado Pago.

O executivo Stelleo Tolda, COO do Mercado Livre e cofundador da companhia ao lado do argentino Marcos Galperin, participou de todas as etapas da empresa e recebeu o NeoFeed para uma entrevista exclusiva.

Ele contou os planos para todas as áreas e disse que o Mercado Pago poderá oferecer seguros e investimentos mais sofisticados como renda variável tanto desenvolvidos por eles como por terceiros. “O Mercado Pago vai ser maior do que o marketplace”, diz Tolda. E prossegue. “Isso vai acontecer em pouco tempo. É um mercado muito maior do que o de comércio eletrônico.” Acompanhe:

Em que patamar está o Mercado Livre atualmente?
Há dois anos, tínhamos 900 funcionários aqui no Brasil e hoje estamos com mais de 2 mil pessoas aqui. No mundo, são mais de 7 mil pessoas e estamos contratando mais gente aqui e nos outros países. Estamos investindo muito em áreas que têm uma interface muito grande com operações. Antes eu dizia que estávamos no mundo dos bits e bytes, agora estamos no mundo dos átomos.

De que forma, no mundo dos átomos?
Estamos mexendo com encomendas e participando ativamente do processo logístico. Fomos atrás de um know how que não tínhamos e estamos aperfeiçoando isso. Mas sempre com a tecnologia como a linha mestra, potencializando os ativos que existem. Então, essa é uma área de muito foco para a gente. Estamos avançando e diria que nos próximos 18 meses vamos chegar num patamar de logística bem a frente do que estávamos até pouco tempo. São ciclos de investimento e muito trabalho de desenvolvimento que têm seu período de amadurecimento. Essa é uma grande área de foco para a gente.

E qual é a outra?
A área de serviços financeiros, que avançou muito nos últimos tempos. A realidade dos pagamentos digitais eu diria que está instalada. Falar, por exemplo, de Código QR, como falávamos há 12 meses, era novidade e hoje já parece quase banal.

Sede do Mercado Livre, em Osasco. Mais de 2 mil pessoas trabalham lá

O Itaú, que é um grande banco de varejo, começou a usar. Isso populariza, não?
Dá um grande impulso ao mercado. É um benefício muito grande para a gente. Passa a tornar mais corriqueira a ideia que isso reduz os custos, melhora os tempos de processamento de pagamento e gera uma experiência muito melhor ao cliente.

Então o cenário é promissor…
Estou bem animado. Sabemos o que temos de fazer e a empresa está bem capitalizada para isso. Neste ano, captamos US$ 2 bilhões no mercado. Nenhuma outra empresa latino-americana deste setor captou tanto dinheiro de uma vez só. E isso é um grande voto de confiança dos investidores no Mercado Livre em si. Em agosto, vamos fazer 20 anos de Mercado Livre com a sensação de que estamos apenas começando. O potencial de destravar o comércio eletrônico e o potencial de oferecer serviços financeiros montados na plataforma do smartphone são gigantescos.

“Estou bem animado. Sabemos o que temos de fazer e a empresa está bem capitalizada para isso”

Como você disse, o Mercado Livre está completando 20 anos. Nesse período, houve algum momento de virada, em que o negócio passou a crescer exponencialmente?
Sim, a partir de 2012. Foi quando começamos a crescer bem mais.

Qual foi o motivo?
O mote disso foi a tecnologia. Em 2010, tomamos uma decisão corajosa de reescrever todo o código da plataforma. Na época, éramos uma empresa com 11 anos de idade e que tinha uma tecnologia de 11 anos que era muito monolítica e fechada em si mesma. Não permitia que evoluíssemos rapidamente.

E o que mudou?
Foi um processo de dois anos. Passamos a trabalhar de forma mais dinâmica, com uma plataforma aberta. Todos os grandes desenvolvimentos e as novas iniciativas, tanto de logística como de pagamentos, foram desenvolvidas em cima de uma plataforma nova sem as amarras daquele período anterior.

Qual o reflexo disso?
Desenvolvimento mais rápido, protótipos desenvolvidos mais rápidos. O nosso aplicativo de celular, por exemplo, foi desenvolvido com um parceiro. Antes, isso era inimaginável acontecer sem uma plataforma aberta. As lojas oficiais que temos hoje na plataforma só entraram por causa disso. Antes, se você fosse um grande varejista, não conseguia plugar e integrar com a plataforma.

Se era tão óbvia essa decisão de mudar a plataforma, por que demorou tanto tempo?
Faço a analogia de trocar o pneu com o carro andando. Você tem um sistema que está funcionando, mas você precisa desenvolver algo totalmente novo. Você não tem como parar e dizer ‘vamos fechar a plataforma por seis meses e nos dedicaremos integralmente a fazer a mudança’. Está sujeito a bugs, a não funcionar, é complexo lançar uma versão totalmente nova da sua tecnologia para uma empresa que já tinha um grande porte naquele momento. Considero que foi uma decisão correta, mas que precisou de coragem.

O que isso resultou, em termos numéricos?
Em 2018, foram US$ 18 bilhões movimentados na plataforma, tanto no Mercado Livre e no Mercado Pago. E esses números estão crescendo 30% ao ano. Em termos de audiência, só no Brasil, temos 70 milhões de usuários únicos por mês. É um público muito amplo, temos quase toda a internet do Brasil.

“Em termos de audiência, só no Brasil, temos 70 milhões de usuários únicos por mês”

Vocês hoje faturam com publicidade? A Amazon, por exemplo, fatura bilhões de dólares com isso…
Sim, é para a gente um negócio relevante e que cresce muito rápido. Hoje, já representa 5% do nosso negócio. Durante muito tempo, evitamos internamente abrir a plataforma para a publicidade, mas já superamos essa discussão. Nos preocupávamos muito com a experiência da plataforma. Existe um equilíbrio de ter uma plataforma que funcione bem e, ao mesmo tempo, ter uma oferta para anunciantes que faça sentido sem prejudicar a experiência do usuário. E temos feito isso com equilíbrio.

Você falou sobre a logística, sob o guarda-chuva do Mercado Envios, e dos serviços financeiros, que estão debaixo do Mercado Pago. Como eles interagem com a empresa mãe, que é o Mercado Livre?
A logística é vinculada ao nosso negócio de comércio eletrônico, ainda voltada para transações que acontecem no nosso marketplace. Mas, no futuro, vislumbramos que ela possa ser uma solução logística de interesse de vendedores e varejistas que atuam fora da nossa plataforma. Estamos operando de uma forma mais sofisticada do que operar Centros de Distribuição, estamos operando fulfillment. A logística é para o nosso marketplace com o intuito de tornar a compra online cada vez mais fácil e frequente.

E o Mercado Pago?
A nossa visão é de inclusão financeira, temos uma parcela expressiva da população sem acesso a esses serviços e queremos demonstrar que, com poucos recursos, você pode, minimamente, fazer parte desse sistema. Você consegue pagar contas, consegue investir o dinheiro e até tomar algum crédito para comprar mais. E eventualmente outros serviços financeiros podem vir pela frente. Seguros é um óbvio que a gente não está fazendo ainda, mas que vemos um grande potencial.

Vão entrar nessa área?
Sim. Tem tudo a ver com a distribuição que temos, que é essa distribuição capilar.

E investimentos?
Já estamos fazendo numa versão muito básica, melhor do que a poupança. É uma conta remunerada que rende 100% do CDI, que não tem valor mínimo de aplicação, que disponibiliza os fundos de forma imediata. O dinheiro está aplicado com a gente, mas você consegue usar ele imediatamente. Já temos licença do Banco Central para operar como instituição de pagamentos e, como parte da operação dessa conta de pagamentos, temos a obrigatoriedade de depositar 100% com o BC em títulos públicos. A única coisa que estamos fazendo é repassar a rentabilidade que temos para o cliente.

Mas pensam em criar outros produtos?
Pensamos, sim. Com o nosso potencial de distribuição, podemos nos tornar um originador de recursos importantes para fundos. Hoje, o maior fundo de investimentos do mundo, tomado por valor de ativos under management, é da Ant Financial, do Alibaba. É basicamente o dinheiro que está nas contas digitais da Ant Financial que você pode aplicar nesse fundo. Isso também dá a dimensão de como consegue tornar esse negócio grande a partir de acessar muita gente.

“Com o nosso potencial de distribuição, podemos nos tornar um originador de recursos importantes para fundos”

Então está nos planos da companhia fazer o mesmo?
Faz parte segmentar, gerar segmentos com mais riscos e mais retornos como renda variável. Vamos entrar em segmentos diferentes para públicos diferentes.

Qual é essa capilaridade que você menciona?
O número de pessoas no Brasil que estão usando o Mercado Pago como conta de pagamento são mais de 3 milhões de pessoas. De público que usa o Mercado Livre todos os dias, entre compradores e vendedores, são mais de 40 milhões de pessoas. São números grandes e a gente entende que temos um produto que tem a capacidade de atrair recursos que já estão no sistema financeiro. Temos um produto melhor do que a poupança e hoje R$ 800 bilhões estão aplicados na poupança.

É um negócio gigante, com grande potencial…
É gigante, quando começa, inclusive, a captar dinheiro de fora. Hoje, dos US$ 18 bilhões que o Mercado Livre movimenta, são primordialmente transações que acontecem no marketplace e transações que acontecem fora do Mercado Pago usando a nossa maquininha. Essa área de maquininhas também é uma área muito promissora.

O Mercado Pago vai virar banco?
Não. A gente entende que não é necessário virar banco para oferecer serviços financeiros. A gente já oferece alguns deles no formato que a gente opera como instituição de pagamentos. Não falei de crédito, mas é outra área que temos um interesse grande e já estamos fazendo. Estamos emprestando para vendedores e compradores que estão no nosso marketplace. E também estamos oferecendo crédito para quem usa a nossa maquininha. Temos captado através de FDICs para emprestar. Essa é uma área de potencial enorme. As taxas são muito competitivas porque temos muita informação das pessoas para as quais emprestamos.

Vocês estão usando o dinheiro captado no follow on neste ano para essa área de crédito?
Temos usado para isso e também estamos usando para tornar o Mercado Pago cada vez mais conhecido. Estamos investindo em um marketing mais aberto, para um público mais amplo.

“Estamos investindo em um marketing mais aberto, para um público mais amplo”

Você comentou sobre vender produtos financeiros. Seriam do Mercado Pago ou também aqueles de terceiros?
Ainda não estamos fazendo isso. Mas não vejo nenhum impedimento de vendermos de terceiros.

Por que aí o Mercado Pago pode virar uma plataforma de distribuição de investimentos, algo que a XP faz…
Sim, temos uma capilaridade grande; teremos recursos aqui nas contas digitais. Sem dúvida poderemos vir a captar para terceiros e sermos remunerados por isso. Essa indústria trabalha muito buscando acessar mais recursos e a distribuição digital também é o futuro dessas plataformas. A XP encheu o auditório, na semana passada, por isso. Tem uma demanda crescente de investidores, de profissionais da área e das pessoas buscando alternativas.

No fim, o Mercado Pago vai competir com a XP e com os bancos…
Competir e, também em alguns casos, fazer parte de uma cadeia que alimenta. A XP compete com os bancos, mas também trabalha com os bancos.

O Mercado Livre faz parte do consórcio formado pelo Facebook para a criação da criptomoeda Libra. Vocês vão aceitar a moeda? Como foram as discussões?
Não foram discussões muito profundas. A gente entende que é um projeto ambicioso, mas que tem um potencial de benefício para a gente, para a nossa carteira digital e, ao mesmo tempo, temos muitas dúvidas sobre o sucesso do projeto. Tem muitas peças aí que precisam ser coordenadas para funcionar. Tem lastro em moedas, precisa gerar algum tipo de incentivo para o uso. Mas ela tem um potencial muito grande, de pagamentos transfronteiriços, para servir como moeda de poupança em países que não têm confiança em seu papel moeda. A Venezuela é um excelente exemplo. Por outro lado, o Facebook é um potencial concorrente nosso. A carteira digital deles vai concorrer com a nossa carteira digital.

“Temos muitas dúvidas sobre o sucesso do projeto (a criptomoeda Libra). Tem muitas peças aí que precisam ser coordenadas para funcionar”

A Ant Financial é separada do Alibaba. Vocês pensam em separar o Mercado Pago do Mercado Livre?
Não temos em mente fazer isso. Acreditamos que existe um benefício para esse ecossistema que funciona como uma unidade forte de marketplace, com uma unidade forte de serviços financeiros. Hoje ainda o marketplace tem servido como apoio e como fomentador do uso dos serviços financeiros dentro da nossa plataforma. Mas também cada vez mais fora dela. Já vislumbro também o momento em que o Mercado Pago vai ser maior do que o marketplace.

Quando isso vai acontecer?
Em pouco tempo. É um mercado muito maior do que o de comércio eletrônico.

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